Por Machado de Assis (1878)
Jorge não esperava, decerto, encontrar na moça a mesma expressão que lhe deixara na antevéspera, quando de um gesto nervoso lhe comprimira o pulso. Tinham passado quarenta e oito horas, e para que ela se restabelecesse bastariam apenas quarenta e oito minutos. Contava com a mudança; não obstante procurou ler-lha nos olhos, e achou-os tão alegres como o tom em que ela o saudara. A lição isolou-os, e foi também o pretexto mais favorável para lhe mostrar a carta de Procópio Dias. Iaiá viu-a selada e compreendeu tudo; arrebatou-a às mãos de Jorge.
— Ah! disse este, seu gesto vale um discurso.
— Posso ler?
— Pode.
Iaiá desdobrou a carta e leu-a para si. Enquanto lia, Jorge fitava-a. Não lhe via nenhuma confusão, alvoroço ou alegria; os olhos seguiam lentamente de uma linha a outra, e a mão firme voltava a página. No fim, quando leu o seu nome, teve um movimento de tédio, e inconscientemente amarrotou o papel; mas emendou-se logo, alisou a carta com a mão e restituiu-a silenciosamente. Durante alguns segundos ocupou-se em traçar com um lápis alguns círculos na margem da folha aberta da gramática; ergueu enfim os olhos e perguntou sem rir:
— Acredita no que diz essa carta?
— Acredito; tudo o que está aí escrito, já o ouvi de viva voz, e com a mesma sinceridade e calor. Quem sabe? pode ser que seja o primeiro amor desse homem.
— O primeiro... o primeiro... repetiu ela entre dentes.
— Talvez o primeiro, insistiu Jorge; e para uma moça, acho que deve ter algum encanto ser amada por um homem, considerado superior às paixões. A vida de Procópio Dias teve sempre outra ordem de interesses...
— Conhece-o há muitos anos?
— Há muitos, não; conheço-o desde o Paraguai.
— Acha que eu fazia bem em me casar com ele?
— Bem ou mal, conforme o amor que lhe tiver. Esse é o ponto necessário, e em meu conceito, o ponto duvidoso. Receio que a senhora o não ame deveras; já tive ocasião de o dizer.
— Preciso de alguns esclarecimentos. O senhor amou decerto alguma vez...
— Nunca.
— Nunca? Nunca teve um amor, um só que fosse? Não creio. Um coronel! Nada; não creio; só se me jurasse; era capaz de jurar?
— Juro.
— Em nome de sua mãe? concluiu ela fitando-lhe uns olhos cuja expressão imperativa contrastava com o tom submisso da palavra.
Jorge hesitou um instante. Tinha cepticismo bastante para proferir uma fórmula vaga de juramento; mas recuou diante da fórmula positiva. Hesitou e ladeou a pergunta.
— Esse nome resume justamente o meu único amor, disse ele; amei a minha mãe.
Iaiá sorriu com ar de dúvida; depois olhou para ele comovida.
— Eu amo meu pai, redargüiu ela; nossos corações podem entender-se.
A esta palavra não havia que replicar; pareceu-lhe a condenação do pretendente. Apertou a mão que a moça lhe estendeu, e sentiu-a fria. Após uma curta pausa, abanou a cabeça, murmurando:
— Assim pois, nenhuma sombra de esperança...
— Faça o que entender, disse a moça no fim de outra pausa. Em todo o caso desejo ler a resposta que lhe der. Jorge abriu a carteira, e tirou de lá o rascunho da carta que pretendia mandar a Procópio Dias.
— A resposta, disse ele, já está escrita. Não querendo matá-lo, pus aqui algumas gotas de esperança; não ousaria contudo mandar o remédio, sem ouvi-la.
Iaiá recebeu o papel dobrado, olhou um instante para ele, outro para Jorge.
— Leia, disse este. Iaiá não obedeceu: pegou do lápis, e sobre a folha do papel dobrado começou a lançar os traços de um desenho. Posto que a luz batesse em cheio no papel, Jorge não pôde ver desde logo o que era; mas esperava, em frente da moça, que ela rematasse o capricho. Nessa ocasião, Estela foi ter com eles.
— Já acabou a lição? perguntou.
— Agora é uma lição de desenho, ao que parece, disse Jorge.
Estela pôs a mão no ombro da enteada.
— É o Procópio Dias! disse ela olhando para o desenho. Era, mas o desenho frisava com a caricatura; a fealdade de Procópio Dias excedia as proporções verdadeiras, o nariz era enormemente triangular, as rugas da testa grossas e infinitas: um monstro cômico. Estela sorriu da travessura, mas repreendeu-a.
— Deixe ver, disse Jorge quando ela acabou.
— Para quê? retorquiu Iaiá com indiferença.
E levando o papel à chama, queimou-o. Jorge interrogou-a com os olhos; ela encarou-o sem se perturbar. Depois folheou a gramática lentamente.
— Continuemos a lição, disse ela. I love. Vá; onde estávamos? Aqui, era aqui.
Estela assistiu à lição toda, com a paciência da curiosidade. Tinha a fronte nublada, mas altiva, como um repto. Não olhava nunca para o mestre, mais dividia a atenção entre a discípula e o livro. A lição foi longa, mais longa do que era necessário, porque o próprio mestre não acompanhava pontualmente o texto e a leitura. Iaiá tinha diante de si dous juízes, cada um dos quais buscava decifrar-lhe na fronte a inscrição que lá lhe teria posto o seu destino. Percebia-o, e não se enfadava. Ia de um tempo a outro, e do indicativo ao imperativo, voltando ao começo logo que chegava ao fim, fitando os dous inquisidores com um olhar em que pareciam dormir todas as ignorâncias da terra.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Iaiá Garcia. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1878.