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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Depois, este mancebo começou a freqüentar o “Céu cor-de-rosa”, e a senhora, muito naturalmente, notou que nas reuniões que aqui têm lugar, os cavalheiros a cercam, a adulam e incensam, e que somente Cândido, exceção entre todos, se afastava e se deixava, e deixa ainda esquecer em um canto de sala. A senhora pretendeu explicar a si mesma uma tal singularidade, porque, primeiramente, a mulher é muito curiosa destas coisas, e depois enfim porque lhe doía que estivesse sempre longe de seu lado aquele que tivera o seu mesmo pensamento no dia de dor, e junto do qual se ajoelhara um momento no meio dos túmulos.

Ninguém interrompeu a velha; ela, porém, parou um instante para respirar e depois disse:

– Mas para se explicar a si mesma essa singularidade, a senhora devia observar o mancebo, e em algumas das vezes que para ele olhava encontrou seus olhos que, de súbito, se abaixaram; bastou, porém, esse momentâneo encontro de vistas para a senhora espantar-se do ardor, do fogo com que Cândido a olhava. Esse fogo, senhora, incomodou-a a princípio; depois essa chama começou a propagar-se, e não tarde seu coração ardia também; mas por que ardia?... por que começou um desassossego indizível a perturbá-la? por que em seu jeito pensava nos abrasadores olhares do mancebo?... por que lhe escapava um suspiro na solidão?... por quê? a alma virgem da moça o não podia dizer.

Celina nada respondeu; estava porém espantada, porque a velha dizia o que realmente se havia passado dentro dela.

– Mas hoje, prosseguiu Irias, hoje era o dia das revelações dos mistérios do coração. A manhã deste dia correu como todas as outras; a tarde contudo foi muito diferente para ambos. Senhora, um amigo disse o que na sua alma se passava, e a senhora o não compreendia. Antes do passeio da tarde que acaba de passar, a senhora já sabia que entre a “Bela Órfã” e o mancebo desvalido se abria uma flor perfumada e bela: – era a rosa do amor.

Os dois mancebos ficaram como que petrificados.

– A senhora não tinha tido tempo de estudar a sua posição, e ainda que a houvesse estudado, o mesmo sucederia. A perturbação, o enleio, o pejo a acompanhou em todo o passeio. Avaliando já seus sentimentos, e levada pelo braço de um homem a quem amava, e por quem era amada, temia que uma simples palavra a pudesse trair, que os olhos dos observadores arrasassem o segredo de si própria... e corava... e meditava; e portanto a senhora meditava e medita ainda; porque ama.

– Ah! senhora!... exclamou a moça, escondendo o rosto com as mãos.

– Minha mãe! basta!... disse o mancebo fora de si: basta, ou eu me retiro.

– Não! fica! e se vale alguma coisa para ti a autoridade de mãe adotiva que em mim respeitas, fica! eu te ordeno que fiques!...

O mancebo ficou imóvel à voz da velha.

– E este mancebo, disse ela a Celina, apontando Cândido com seu trêmulo dedo, concebe a senhora como é que este mancebo lhe ama?... oh!... ele dirá que não, ele há de jurar que eu minto. E sabe por quê?... porque, escravo do mais nobre orgulho, ele não quer ser amado por uma mulher que possui mais do que ele. Quereria, senhora, vê-la pobre e desgraçada, para lançar a alma a seus pés, e no entanto...

– Basta, minha mãe!

– No entanto é a senhora o objeto de seus mais belos e caros pensamentos. Ao romper da aurora ele, da fresta da janela do sótão que habita, acompanha com os olhos todos os seus passos, quando a senhora vai passear por entre suas flores...

– Minha mãe!... silêncio!... exclamou o mancebo, caindo de joelhos aos pés da velha.

Celina respirava apenas.

– Durante o dia, continuou Irias, ele não pensa, ele não suspira, ele não vive senão pela senhora.

– Minha mãe!...

– De noite, se dorme, são seus os sonhos dele; se vela, ele vive ainda só pela “Bela Órfã”, e escreve hinos ao objeto de seus cultos...

– Minha mãe!...

– Negas isto?... perguntou a velha com tom grave.

– Nego! disse Cândido.

As três personagens no fervor dessa prática se haviam insensivelmente erguido, e se tinham chegado até junto do piano.

– Negas isto? repetiu Irias.

– Nego, respondeu outra vez o moço.

Então a velha, lançando a mão no bolso de seu vestido, tirou dele um papel, e o ia entregar a Celina; mas vendo que esta não o recebia, lançou-o sobre o piano, e disse:

– Eis aí, senhora, a declaração de amor deste mancebo.

– Que é isto? perguntou Cândido.

– Os versos que escreveste em uma das noites passadas.

Ouviu-se nesse momento o tropel que faziam Anacleto e Mariana descendo a escada do sótão. Cândido lançava-se sobre o papel, quando Irias o susteve com sua mão musculosa e forte, dizendo:

– Aquilo não te pertence mais.

Quando Anacleto e Mariana entraram na sala, Celina, trêmula e cheia de pejo, lançou seu lenço branco sobre o papel.

Depois, aproveitando um instante em que todos pareciam estar entretidos, ela, não tendo bolsos no vestido, escondeu o papel no seio.

Cândido viu isso.

Na hora de recolher-se, a “Bela Órfã” abriu esse papel e viu algumas folhas escritas: eram versos, e constavam de trinta e duas estrofes, tendo por título o seguinte: “O Sonho da Virgem”.

(continua...)

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