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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Preferes tu passear comigo a dançar a sexta quadrilha?...

— Sim... mas...

— Pois vem cá, vamos para a toilette, e desceremos para passear, quando a quadrilha tiver começado.

— E o cavalheiro com quem me comprometi dançar?...

— Virá buscar-te, e, não te encontrando, procurará outra senhora.

— Porém, Raquel, deve-se fazer tal?...

— Ora... ora... ora... quando eu digo que tu és simples demais, Honorina!... escuta: todas nós, quando temos pouca vontade de dançar, ou não queremos fazer com algum cavalheiro, com quem a civilidade nos obrigou a comprometer-nos, apelamos sempre para a toilette, não pode haver melhor desculpa! estive concertando o cabelo... fui pregar um colchete que se rebentou... etc. etc. etc., são coisas que se dizem e que devem contentar.

— Porém, Raquel, deve-se fazer tal?...

— Deve-se, Honorina; é mesmo uma compensação; porque muitas vezes os nossos cavalheiros nos deixam ficar sentadas, entretidos e colados na mesa do écarté; ora, é muito mais natural e muito menos repreensível, que uma moça se esqueça de um cavalheiro, presa defronte do toucador, do que um cavalheiro se esqueça de uma senhora por um baralho de cartas; por conseqüência, anda... vamos... vem esquecer-te...

— Eu não sei...

— Mas para que há de deixar de dançar?... perguntou Lucrécia afetuosamente.

— Para passear comigo, minha senhora, respondeu Raquel, levando Honorina pela mão, e quase à força.

A viúva ficou exasperada com tão imprevisto contratempo; com frieza acompanhou Otávio, que a veio receber, e dançou sem prazer algum.

No entanto, Raquel apenas sentiu que a quadrilha tinha começado, tomou o braço de Honorina e disse sorrindo-se:

— Agora que já te esqueceste, e que já concertaste o teu cabelo, desçamos para passear.

E as duas moças desceram e, dirigindo-se ao terrado, foram atravessando a sala do jogo.

— Quanta gente! disse Honorina; todo esse mundo, Raquel, diverte-se jogando?...

— Sem dúvida... o que tem isso?...

— É que deve ser um jogo bem interessante.

— Sim... sim... é o écarté, jogo um bocadinho menos complicado do que o diabrete.

— Ora, Raquel!

— Como queres que te diga, Honorina?

— Então aquela gente toda...

— Empenha-se por ganhar ou perder dinheiro da maneira a mais desenxabida do mundo. Nesse momento, e quase ao mesmo tempo, Honorina e Raquel entravam no terrado, e Tomásia saía dele.

Tomásia tinha sofrido uma contrariedade no meio de sua glória dessa noite: o cavalheiro, que lhe havia pedido a sexta quadrilha, a tinha deixado ficar sentada, e Tomásia, quando não dançava, ou brigava com Venâncio, ou arquejava.

Há um costume velho nos saraus: ali se contam certos moços que querem dançar sempre e a todo o custo; e, se encontram todas as moças engajadas, atiram-se para dois lados das sociedades, os quais eles consideram talvez como dois esquadrões de reserva: são as crianças e as senhoras idosas; aí vão eles encher o número das quadrilhas que lhes faltam; porém, se no correr do sarau aparece alguma jovem que os queira ouvir, os meus senhores não têm dúvida nenhuma de deixar esperando inutilmente tanto a velha como a criança, que a vão buscar para a quadrilha. A Tomásia tinha sucedido, pouco mais ou menos, isso mesmo: seu prometido cavalheiro tinha deparado com uma jovem piedosa, e para logo esqueceu-se completamente de Tomásia, apesar mesmo de ser dona da casa.

Era por isso que Tomásia se achava em horas de tempestade; ardendo em desejos de encontrar em quem despejar seus furores, sua boa fortuna lhe mostrou o pobre Venâncio, que se dirigia para o interior da casa.

— Aonde vais, Venâncio?...

— Tomásia, vou ver como vai isto cá por dentro...

— E que tem o senhor com o que vai pelo interior da casa?... não sabe que isso pertence ao cuidado das senhoras?...

— Está bem, Tomásia, não te aflijas... estás tão colérica...

— Colérica?... e como não estar, se sinto a todos os momentos que me acho casada com um tolo, um água-morna, que para nada serve...

— Oh! senhora, nem mesmo agora me deixa descansar?!

— Vamos... vá para a sala... ou mesmo será melhor que fique cá dentro, para me não envergonhar.

— Então, Tomásia, disse pacificamente Venâncio, queres que vá ou que fique?..

— Quero que me não exasperes!... bradou a mulher; anda... dá-me o braço, e conduze-me à sala.

O pobre homem chegou-se para ela, e, torcendo-se com a dor dos beliscões que recebia, a foi acompanhando com os lábios enfeitados pelo sorriso mais mal fingido do mundo.

No entanto Honorina e Raquel se haviam assentado juntas em um dos bancos do terrado e conversavam alegremente, quando entrou um jovem, que poderia ter pouco mais ou menos vinte e dois anos, e que se foi sentar defronte delas triste e pensativo.

(continua...)

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