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#Ensaios#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Não foi este único desastre que os tigres ocasionaram, foram muitos e todos mais ou menos grotescos, e sei de um outro (além do da encapelação do inglês) ocorrido na Rua do Cano hoje Sete de Setembro, que de súbito desfez as mais doces esperanças do casamento inspirado e desejado por mútuo amor.

O namorado era estudante, meu colega e amigo; estava perdidamente apaixonado por uma viúva, viuvinha de dezoito anos, e linda como os amores.

Uma noite, a bela senhora estava à janela, e à luz de fronteiro lampião viu o namorado que, aproveitando o ponto do mais vivo clarão iluminador, lhe mostrava, levando-o ao nariz, um raminho de lindas flores, que ia enviar-lhe, quando nesse momento o cego apaixonado esbarrou com um condutor de tigre, e, embora não encapelado, foi quase tão infeliz como o inglês.

O pior do caso foi que a jovem adorada incorreu no erro quase inevitável de desatar a rir, e logo depois de fugir da janela por causa do mau cheiro de que se encheu a rua.

O namorado ressentiu-se do rir impiedoso da sua esperançosa e querida noiva; amoroso, porém, como estava, dois dias depois tornou a passar diante das queridas janelas.

Novo erro: a formosa viúva, ao ver o estudante, saudou-o doce, ternamente, mas levou o lenço à boca para dissimular o riso lembrador de ridículo infortúnio.

O estudante deu então solene cavaco, e não apareceu mais à bela viuvinha.

Um tigre matou aquele amor.

Com efeito, amor todo cheio de poéticos sonhos não podia resistir à realidade fatal da materialíssima influência ridícula do tigre.

O estudante, noivo já infeliz antes de casado, não quis expor-se aos risos da noiva ainda depois do casamento.

E o tigre foi causa de morrer viúva, e de morrer solteiro, ambos precocemente, aquele par de ternos namorados.

A edilidade do Rio de Janeiro lembrou-se enfim de banir os tigres.

Mas não pensem que lembrar, querer e conseguir fosse obra de poucos dias, ou fiat de enérgica vontade.

Primeiro houve horas marcadas para o saimento e despejo dos tigres, e praias determinadas e exclusivamente concedidas para o despejo deles.

Depois usaram para os despejos barris que pelo menos se proclamavam hermeticamente fechados, e depois carroças conduzindo em grandes caixas tampadas aqueles mesmos barris.

Finalmente veio como último e inexcedível melhoramento o City lmprovements com os seus esgotos subterrâneos; não ponho em dúvida a excelência do sistema, nego, porém, que tenha sido preceituosamente executado no Rio de Janeiro. Com certeza a City lmprovements não é hermeticamente fechada; freqüentemente respira malefícios nas casas, e nas ruas da cidade, faz então lembrar o tempo dos tigres, e, honra lhe seja feita, em tais casos a City lmprovements é tigre colossal.

Os tifos e as febres perniciosas têm muito que agradecer aos evidentes defeitos do tal sistema subterrâneo que espalha miasmas subterrâneos.

Até onde me levou a história dos tigres! e que contraste, quando eu tratava das perfumarias da Rua do Ouvidor!...

Pois não vou adiante.

Eu tinha ainda muito que referir da história antiga deste quarteirão da Rua do Ouvidor; tinha mesmo um pequeno romance de outro estudante que andava diariamente e sempre com o relógio atrasado para ter o gosto de acertá-lo por pêndula que não claudicava; até que uma vez, quando o estava acertando, espirrou inesperadamente e quebrou o relógio sem nunca ter podido adiantá-lo.

Mas estou aborrecido do ruim e feio assunto de que acabei de ocupar-me e suspendo ou interrompo a viagem, ficando no canto da Rua dos Ourives.

O meu desapontamento é tal que fico no canto.

CAPÍTULO 14

Como além da quina da Rua dos Ourives temos logo de parar na do Ouvidor em face da casa n.º 89, onde morreu este ano o Diário do Rio de Janeiro, órgão do partido conservador, e outrora batia moeda Mme Joséphine, a mais célebre das antigas modistas: fala-se muito do passamento do Diário e da tesoura de Mme Joséphine, e logo depois estacamos diante da casa n.º 403 não para comprar máquinas americanas de costura que hoje ali se vendem, mas para lembrar a loja de Mme Finot, célebre florista; avivam-se recordações de coisas passadas há mais de trinta anos, e entre elas a de um lamentável amor anacrônico. Como enfim se concluí este capítulo, lembrando as fundas do velho Vannet a livraria e a buzina do Albino Jordão.

No Brasil ninguém morre enquanto não morre deveras de moléstia física e desaparecendo na cova do cemitério.

Só assim, com esses testemunhos de óbito por que tem-se visto muita gente moralmente morta que de um dia para outro reaparece viva sem que se saiba como, nem por quê.

No comércio isso já é trivial, e em política sediço.

Não admira, pois, que eu que, graças a Deus, nunca morri, e apenas no último capítulo acabei metendo-me no canto por muito vexado, hoje me desencante sem vexame algum para continuar a minha viagem pela Rua do Ouvidor.

(continua...)

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