Por Adolfo Caminha (1896)
Naquela noite, mais do que em todas as outras, Adelaide pensou no secretário. — Amá-lo-ia?... Não, porque adorava o marido. Talvez acabasse amando-o... Mas o futuro é tão incerto, são tão incertas as previsões humanas!... Certo é que a imagem dele não a deixava, por mais que a repelisse.
Amanheceu o dia soberbo de luz. Evaristo tornou a falar na viagem para o norte. Adelaide disse-lhe que sim, que ia tratando de arrumar as coisas, e fez um gesto de enfado.
O bacharel vestiu-se, cantarolando de bom humor, e desceu para a refeição.
— Bom dia.
— Bom dia.
Repetiram-se os habituais cumprimentos da manhã.
Mais do que nunca o almoço correu frio. D. Branca estava de olhos duros e passava os pratos com um gesto de visível apatia. Furtado aludiu, em frases lacônicas, ao último telegrama de Cannes:
— Sua Majestade continuava no uso das duchas, — publicado nos jornais matutinos. Leu alto, para que todos ouvissem, inclusive o bacharel, que fingiu não dar atenção.
Adelaide petiscava de leve as migalhas de arroz e os bocadinhos de fritada, baixando os olhos com cerimoniosa discrição.
Evaristo, por sua vez, guardou o mais profundo recolhimento, não aludindo sequer à projetada viagem. Ia falar ao amigo no Banco e lá mesmo ajustar suas contas.
— Vamos? — disse o secretário tomando o chapéu e palitando os dentes. — Vamos — respondeu friamente Evaristo.
E saíram como de costume, agora menos comunicativos.
Adelaide acompanhou o marido à escada e, logo que este desapareceu embaixo, porta fora, recolheu ao segundo andar, numa crise de nervos. Não havia decorrido uma hora depois do almoço, quando D. Branca ouviu gritos finos de mulher no alto do sobrado.
— É Adelaide, minha gente! — disse arregalando os olhos para o Antônio que correra.
Os gritos aumentavam, numa progressão assustadora.
— É ela! é ela! — repetiu a esposa de Furtado investindo para o corredor.
A ama, com a Julinha nos braços, abalou também dos fundos da casa, e ela e D. Branca e o Antônio acudiram precipitadamente, aos encontrões.
O fâmulo do secretário não esperou pela patroa: galgou os degraus dois a dois, três a três, numa elasticidade felina de músculos, e, sem guardar conveniências, enveredou pelos aposentos do bacharel. D. Branca foi encontrá-lo sobrepujando Adelaide que se debatia no leito numa agitação de todo o corpo, os olhos desvairados, a face muito pálida, em convulsões histéricas.
— Mas o que foi? o que foi?! — perguntava, assombrada, a esposa do secretário.
Ninguém sabia explicar, ninguém sabia dizer o que aquilo era.
— O doutor, minha senhora, o doutor! — aconselhava o Antônio, agarrado aos pulsos da doente.
A primeira idéia de D. Branca foi pedir socorro da janela, alarmar a vizinhança, salvar a sua responsabilidade, mesmo porque não tinha àquela hora quem fosse chamar o médico ou prevenir a Evaristo. O Antônio era indispensável, a ama não saía à rua, e ela, D. Branca, estava em trajos muito caseiros para se apresentar a qualquer estranho. Que falta que fazia o Raul!
A ama, sem largar a Julinha, desceu em procura do vidro de éter.
— Depressa, rapariga, depressa! - bradava a mulher do secretário, atônita no meio da casa.
Felizmente Adelaide arriou os braços, como extenuada, e os gritos foram-lhe morrendo pouco a pouco, dolorosos e cansados, na garganta.
— Oh meu Deus, que aflição me faz isso! — imprecava D. Branca.
— Não é nada, minha senhora, não é nada... — dizia o Antônio numa voz conciliadora. — E bom desabotoar-lhe a roupa... Foi um ataque...
— Espera, Antônio, espera, que eu já desabotôo.. . Não saias daqui.. traze um copo com água.
O copeiro obedeceu, enquanto ela ia afrouxando a roupa de Adelaide.
Veio o éter, veio a água, fizeram-se fricções, chamaram muitas vezes pelo nome da doente, a ver se ela acordava, cobriram-na com um lençol desde os pés até o pescoço, colocaram-lhe a cabeça nos travesseiros; mas a esposa do bacharel não dava sinal de vida.
— O coração está batendo? — perguntou inquieta, a ama. D. Branca encostou o ouvido no peito de Adelaide.
— Está, sim... está batendo devagarinho.
— E agora? — quis saber o Antônio, pronto a retirar-se.
— Agora — ordenou D. Branca - toma um tílburi e vai, vai, correndo, avisar ao marido dela, no Banco Industrial. — Sabes onde é?
— Sei, sim senhora. — Pois vai.
O criado atirou-se pelas escadas, mais veloz que um andarilho.
D. Branca ficou à beira do leito, muito nervosa, cheia de desapontamento, velando a enferma.
Adelaide parecia dormir, numa imobilidade de cadáver, os olhos fechados, a boca entreaberta, mal respirando.
A esposa do secretário esfregava-lhe a testa e os pulsos, dando-lhe a cheirar éter, enxugando-lhe o suor que porejava do rosto. De instante a instante mandava um olhar ao espelho do toucador. — Estava tão pálida!
Afinal, Adelaide abriu os olhos com um largo suspiro que fê-la estremecer toda.
— Quer beber um pouquinho d'água? - inquiriu Branca.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.