Por Inglês de Sousa (1891)
Macário não acreditava, pensava que S. Rev.ma estava brincando, queria caçoar com ele para o castigar de o ter acordado tão cedo por causa da velha Chica. Afinal, pensava, ir à casa da velha não era o mesmo que ir ao porto dos Mundurucus, ao centro da Mundurucânia. A Chica não comia gente, e os índios, ficasse S. Rev.ma sabendo, eram antropófagos, como dizia o professor Aníbal, pelavam-se por carne branca. S. Rev.ma não lhe levasse a mal a insistência com que lhe falava na pobre velha da beira do lago, uma cristã que não se podia comparar com aqueles inimigos de Deus que matam e esfolam uma criatura do Senhor por dá cá aquela palha.
— Maior o merecimento e maior o serviço, replicou padre Antônio, enfiando a batina que o sacristão lhe apresentava. E enquanto a abotoava de cima a baixo com gesto lento e grave, começou a falar com uma eloqüência cálida, depositando no seio do Macário os sentimentos que lhe transbordavam do coração e que por muito tempo guardava no íntimo do peito. Sentia uma grande necessidade de expansão, de abrir-se com alguém, de deixar sair os pensamentos recônditos, as idéias vagas, os motivos misteriosos que, fervilhando no cérebro num combate nervoso de todas as horas, impunham-lhe o proceder à primeira vista inexplicável e estranho que desnorteava o amigo. Disse então com toda a franqueza, como se conversasse com um irmão do seu espírito, que aquele era o sonho dourado de toda a sua vida de moço. Missionar, pregar o Evangelho e morrer às mãos dos índios, não podia haver nada mais glorioso para um verdadeiro ministro do altar. Sacrificar a vida ao ensino da religião do Crucificado, nada mais digno dum padre. Converter ao cristianismo algumas almas ignorantes, arrancar ao inferno algumas criaturas de Deus, lutar com o inimigo do gênero humano, vencê-lo pela vida ou pela morte, nada satisfaria melhor os instintos de sua alma ardente e apaixonada. Quando preferira uma vigararia do sertão ao curso das altas classes de S. Sulpício, quando desprezara o futuro brilhante que se lhe antolhava no doutoramento em Roma, nas honras do Cabido, no apreço e na consideração do mundo, pelo exercício das funções mais elevadas do clero diocesano, apanágio dos homens de talento que D. Antônio consagrava e preferia, fizera-o na convicção entusiástica das grandes coisas que poderia obrar, propagando a fé católica entre o gentio do Amazonas, sacrificasse embora a vida miserável a esse generoso empenho. Sim, ele, moço, robusto e são, como o Macário estava ali vendo, tendo diante de si um futuro repousado e próspero, não fazia caso algum da vida, estava pronto a dá-la em troca da salvação de algumas almas do gentio amazonense. Quando pela primeira vez pisara o solo de Silves, sabia que dali a poucas léguas existiam índios selvagens e ferozes, e que evangelizando-os expiaria os seus pecados conquistando fama imorredoura, que levaria o seu nome à remota posteridade, com os de Francisco Xavier e José de Anchieta. Até ali estivera calado e hesitante, consultando as forças, não querendo ceder ao arrastamento dum entusiasmo de mancebo que lhe podia ser fatal. Refletira longamente, pesara bem as dificuldades, os riscos da santa empresa que ambicionava realizar, mas agora estava decidido, nada o poderia demover do seu humanitário projeto. Iria levar aos mundurucus a palavra sagrada de Jesus, e Deus que lê no coração, Deus que conhece e experimenta as vocações lhe daria as forças necessárias a tão grandioso cometimento.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.