Por Domingos Olímpio (1903)
Entre elas estava Quinotinha, um futuro de formas, em cujas linhas, ainda angulosas, se debuxavam, nuns longes de curvas graciosas, os primeiros sinais da puberdade. Luzia acolheu-a com simpatia; e, quando soube que era a menina libertada por Alexandre da sanha monstruosa de Crapiúna, dedicou-lhe os mais carinhosos cuidados. Fruía deliciosa sensação ao contacto dela, ao exercitar-lhe as pequeninas mãos delicadas no manejo da agulha e no ajustamento das peças de costura, sensação de mãe testemunhando a florescência da força e da inteligência nos tenros rebentos do seu ser. Ela a distinguia das outras meninas, desasseadas, esgrouvinhadas, como pombas privadas do arminho das penas cândidas, de olhos toldados, como se por eles já houvesse passado a sombra funesta do crime; muitas indiferentes às carícias, aos conselhos, de grandes olhos parados, ardendo num brilho fulvo de febre, e sempre voltados para o telheiro onde roncavam, fumegando, os enormes caldeirões de comida. Quase todas pareciam esgalhos enfezados, condenadas ao estiolamento precoce, a se consumirem, varas estéreis, na coivara de vícios, que se ia alastrando, como incêndio em matagal ressequido, e mais não era outra coisa essa massa de famílias, erradicadas dos lares, desagregadas e descompostas.
Contemplando Quinotinha a trabalhar, Luzia se embebia no enlevo de um sonho, onde se dissolviam as amarguras, as tristezas do presente, e surgia, entre resplendores suaves de aurora, o desejo da maternidade, dar-lhe Deus uma filha assim, formosa e sadia. E já considerava, num gozo, em toda a sua sublimidade, esse prazer inefável de mãe, quando a estrelava ao seio fremente, lhe amimava os cabelos de menina e a beijava com afã, com a meiguice, o doce frenesi das mães amorosas.
Evolava-se o sonho, e ela considerava que a rapariguinha poderia servir de companheira à mãe enferma e a ela mesma, como irmã caçula, se os tempos não fossem tão ruins; poderia repartir, com ela, a sua pobreza, o seu quinhão parco, como fizera com Alexandre. Chegou mesmo a falar-lhe nisso, mas Quinotinha respondeu-lhe que era a mais idosa de oito irmãos, uma escadinha de meninos que terminava num de peito, e não podia abandonar a mãe, coitada, já abandonada pelo marido.
Depois disso, Luzia lhe teve mais amor, e mesmo mais sorrisos, e mesmo mais cuidados. Havia, entre ambas, a solidariedade do mesmo infortúnio, de sentimentos idênticos, dedicação e amor filial, com a diferença de ser a menina uma criatura ingênua e feliz, pela inconsciência da miséria, e ela mulher rebelada contra a sorte, assaltada de absurdas aspirações, tendo o coração apertado entre mágoas, dissabores, esperanças desfeitas, murchas como os cravos rubros de Alexandre.
Uma tarde, terminada a tarefa, Quinotinha saiu acompanhada de Luzia, que lhe notava algo estranho no semblante, de ordinário tranqüilo e risonho. Caminharam em silêncio, algum tempo.
— Há muitos dias – disse a menina, enteada e hesitante que ando para lhe dizer uma coisa.
— Você?! – exclamou Luzia, com interesse, com surpresa.
— Sim, eu mesma...
— Vamos lá... Diga...
— Vosmecê conhece seu Alexandre? Aquele moço que está preso por causa do furto da Comissão?...
— Conheço, sim.
— Quero muito bem a ele... Sra Luzia também gosta dele? Luzia não respondeu; e a menina continuou:
— Todo o mundo gosta daquele homem...
— Mas... a que vem isso?
— Eu lhe conto. Sra Luzia sabe onde é a casa de Chica Seridó? Pois fui lá, outro dia, buscar um remédio, que a mamãe mandou pedir e estava esperando entretida com a Gabrina, aquela mocinha bonita, que também gosta de seu Alexandre, quando ela me largou de repente, e foi para o terreiro conversar com uma pessoa. Espiei para fora e fiquei tremendo de medo: era o Crapiúna, aquele soldado que de uma feita, quase se pegou com seu Alexandre... Fiquei quieta e, então, ouvi ele falar muito zangado: ralhava tanto, que fiquei com pena de Gabrina. Ele dizia: — Você não tem palavra. Ficou de ir lá em casa e me enganou! Ela respondeu por aqui assim: — A Chica estava com os olhos em riba de mim, que não me deixou um instante. — Você está mentindo, menina — tornou ele a dizer-lhe com muita má-criação. — Nem por eu lhe dar o par de brincos de ouro e os cortes de chita... — Mas eu não fiz o que você disse? — respondeu a rapariga, também com maus modos. Não fui jurar em casa do Delegado? ...
— Vamos. Conte-me tudo – irrompeu Luzia, ansiosa e alvorotada, devorando a menina com o olhar em fogo. – Vamos, diga a verdade.
— Não estou mentindo – balbuciou, Quinotinha, espavorida pelo gesto ardente da mestra – Creia-me por esta luz...
— Não tenho receio. É para bem dele, do pobre, que está penando inocente...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.