Por Aluísio Azevedo (1881)
A quinta de Maria Bárbara como quase todas as quintas do Maranhão, era aprazível e rústica. Um velho portal de ferro, com o competente lampião de corrente, abria sobre duas longas filas de mangueiras seculares, que iam terminar defronte da casa. formando sombrosa e úmida galeria, onde o sol penetrava horizontalmente, por entre os grossos troncos nodosos e encascados. Por uma e outra banda sem ordem nem simetria, viam-se plantações, na maior pane úteis e bem tratadas destacava-se o verde alegre dos canteiros de hortaliças donde voava um cheiro fresco de salsa e coentro. Mais para o interior do sitio encontravam-se tanques cheios esverdeados de limo; sinuosas calhas espalhavam, suspensas por estacas de acapu, levando água para todos os lados; extensas latadas vergavam ao peso das abóboras, dos jerimuns e dos maracujás de diversos tamanhos, desde o da laranja até ao da melancia. Ainda mais para o interior, destacavam-se, em qualquer dia do ano, o verde-escuro e lustroso das jaqueiras colossais e das árvores da fruta-pão, ambas com as suas folhas grandes e recortadas caprichosamente, contrastando com as massas fuscas da folhagem miudinha dos eternos tamarindeiros, com os tons dourados do pé de cajá e com os altivos jenipapeiros, as graciosas pitombeiras, cercados de goiabais floridos e cheirosos. Em outros pontos adivinhavam-se olhos-d'água pela abundância das juçareiras Parasitas de mil espécies enfeitavam com as suas flores, extravagantes e admiráveis, as árvores e os pombais, numa variedade prodigiosa de cores E por toda a parte doidejavam, cantando, os passarinhos e saltitavam rolas, a mariscar na relva.
A habitação olhava de frente para os dois renques de mangueiras, franqueando as suas varandas sem parede; toda ela aberta, deixando-se invadir pelas plantas do jardim que a rodeava. Uma dessas pitorescas vivendas acaçapadas, muito comuns nos sertões da ilha de São Luís. Grande telheiro quadrado, telha vã, formando bico na cumeeira e sustentado nas quatro faces por moitões de piqui pintados de verde, e firmados estes em anteparos de pedra e cal, que formavam uma espécie de amurada, alta pela parte de fora e rasa pela de dentro. No meio, distanciado da antepara uns vinte palmos seguros, estava a casa feita de paredes inteiriças, caiadas de cima a baixo. O chão era todo forrado de tijolos vermelhos. A entrada uma cancela, três degraus de cantaria, jasmins de Itália, bancos de pau e uma confusão de trepadeiras, que se enroscavam pelos moitões e galgavam o telhado, vitoriosamente. erguendo lá em cima os seus rebentões novos, ávidos de sol.
Esta quinta fora a menina dos olhos de Maria Bárbara; ai passara ela grandes delicias no tempo do coronel. Ainda estava muito forte e bem conservada, mas, havia dez anos, desde que a velha foi fazer companhia à neta, achava-se entregue aos cuidados do português Antônio e ao trabalho de três pretos velhos, que iam diariamente à cidade vender hortaliças, flores e frutas.
As seis e meia da manhã chegou o bonde com os convidados.
Trazia música. Era uma “surpresa” arranjada pelo Casusa. E este, encarrapitado na plataforma do cano, doido de entusiasmo, dava vivas a São João, vivas “ao belo madamismo maranhense!” e vivas à música.
Os músicos romperam com o Hino Nacional.
O Casusa, inteiramente fora de si, rouco já, um bocadinho picado pelo conhaque, cujo como de delito ele trazia a tiracolo enforcado num pedaço de cabinho, saltava, ia e vinha, singrando por entre todos, atravessando o bonde com as senhoras ainda assentadas, fazendo-as apear, assustando-as com os seus gritos, machucando nas costas dos bancos os dedos dos que desciam, provocando gemidos, protestos, e fazendo rir ao mesmo tempo. Deu um beijo em D. Amância que lhe chamou furiosa, “Cachaceiro! Pancada! Moleque!”; bateu na barriga de Manuel, que o exprobrava por se ter incomodado, feito despesas, contratado músico.
— É gosto, é gosto, seu Manuel! Não faca caso! Hoje há de sair cinza nesta pândega!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.