Por Aluísio Azevedo (1895)
Urgia contudo não perder tempo. Era preciso que meu genro partisse quanto antes, e, uma vez que ele me não queria falar, fui ter humilhada ao seu encontro. Animei-o, como a um filho malcriado e caprichoso, e, apesar da ofensiva secura com que me ouviu, achei meios de dizer-lhe que não visse no meu ato uma ridícula pirraça de velha rabugenta, dominada pelo espírito de contradição; fiz-lhe sentir que, se ele dentro de poucos dias não despregasse do Rio de Janeiro, nos obrigava, a mim e a minha filha, duas senhoras — uma idosa e a outra pejada, a aventurarmonos numa viagem, onde Palmira não encontraria decerto o conforto e os socorros que o seu estado reclamava. Além disso, da Europa ele apenas mal conhecia Londres, através de um colégio. Precisava agora vê-la e estudá-la como homem. Que melhor ocasião para fazer esse passeio?... Iria descansar um pouco, espairecer, instruir-se, ganhar novas idéias e novos pontos de vista, cujos bons frutos seriam aproveitados em favor da sua profissão comercial e em favor da educação de seu filho.
— Sim, replicou Leandro, desejo ir à Europa, e muito, mas em companhia de minha mulher!
— Irá depois com ela... correspondi — e eu mesma os acompanharei, e mais o nosso herdeirozinho... É até muito mais conveniente que o senhor primeiro realiza sozinho essa viagem, para poder ensinar depois sua mulher a ver e apreciar aquilo que o senhor já tenha visto. É mais correto! Num casal bem constituído, o chefe deve sempre levar vantagens sobre a esposa, tanto no seu grau de cultura intelectual, como no seu conhecimento prático da vida e do mundo...
Mas abandonar minha mulher quando a vejo naquele estado?!
— O senhor não a abandona, meu genro; o senhor a deixa entregue aos meus desvelos e ao meu amor de mãe. Quanto ao estado dela — não queira também exagerar as coisas! a gravidez e o parto, em boa normalidade de circunstâncias, são funções naturais e quase tão simples como o próprio amor que os produziu.
.Mas é o primeiro parto!
— O que lhe não impedirá de ser muito benigno, porque o filho foi concebido nas melhores condições que é possível desejar. Fique certo, meu genro, que em geral — os filhos gerados com todo o amor e com todo o desejo, nem só são os únicos perfeitos, como ainda são os que nascem com a maior e mais lisonjeira facilidade. É preciso desconfiar sempre da harmonia e boa ventura doméstica de um casal, cujos filhos encontrem dificuldade em entrar na vida, a não ser que haja vício orgânico por parte da mulher ou vício de sangue por parte do homem. Entre os dois instintos garantidores da vida — o amor e a fome, existem as mais estreitas analogias: Da mesma forma que — comer sem apetite produz má digestão, conceber sem amor — produz má gravidez e mau parto; quando não produz o aborto, que é a legítima indigestão do amor. Meu neto há de ter um nascimento feliz, sou eu quem lho assegura! E imagine agora o prazer que lhe está reservado para a sua volta, meu amigo! Prefigure-se tornando à casa depois de alguns meses de ausência e vindo encontrar o seu filhinho nos braços da nossa Palmira! Hein? não lhe parece que o prazer da volta compensa um pouco os sacrifícios da ausência?
Ausência de quase um ano!...
— Qual! Ela está grávida de três meses, creio. Ponhamos um para a viagem — quatro! Ao senhor basta demorar-se lá seis ou sete, quando muito... Ora, seis meses passam depressa, principalmente em passeio pelo Europa, vendo coisas bonitas!...
— Bonitas! Bonito será se, daqui em diante, mal perceba que minha mulher está grávida, tenha de entrouxar as malas a toda a pressa e fugir para a Europa!
— Ora deixe lá o futuro, que a Deus pertence, meu filho, e cuidemos do presente, que é a nossa obrigação. E já não fazemos pouco!
Quando nos separamos essa noite, depois do chá, meu genro estava resignado a fazer a viagem. Faltava-me, porém, a outra, que me parecia mais difícil de ceder, sem ficar prostrada pelo sacrifício.
E, com efeito, maior resistência encontrei em Palmira do que em Leandro. Mas com prazer descobri logo que semelhante reação não vinha tanto dos seus terrores do parto, como dos seus mal disfarçados ciúmes pelo marido, que se ia ausentar assim por tanto tempo.
Desde que percebi isto, tinha por ganha a vitória.
Fiz ver-lhe logo que aquela ausência de Leandro, longe de ser desfavorável à esposa, era uma nova garantia para o amor e para a felicidade de ambos. Deixandoo ir agora, surpreendido assim violentamente no auge do seu enlevo amoroso, ela podia ficar segura de que o marido iria resguardado pela saudade e nada cometeria que pudesse ser lesivo ao ente estremecido que ele deixava tão distante. Leandro honraria o seu voto sagrado e guardaria fidelidade, justamente por se achar então a contragosto separado da sua “pobre e querida mulherzinha”.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.