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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

- Mas só ama o próprio, o seu, é esta idéia de propriedade só por si é já egoísmo. Vai dizer a qualquer mãe que faça pelos filhos dos outros o que a natureza lhe inspira por aquele que lhe saiu das entranhas; ela te responderá que "quem pariu Mateus que o embale". E se há uma dedicação sem a menor sombra de altruísmo é essa justamente, porque a mãe nunca ama o filho pelas qualidades que ele possui, mas tão somente porque ele é uma continuação dela, porque ele é um pouco de sua carne e porque é a conseqüência palpitante, por bem dizer a personificação do amor de quem a possuiu. No filho ela se vê a si e vê também o homem a quem amou; isto é, vê todos os gozos, todas as egoísticas venturas de que há pouco falavas; e, meu amigo, se penetrares no âmago de todas as outras afeições, hás de sempre encontrar lá dentro a mesma mola feita de egoísmo.

- E o amor filial?

- Não existe.

- Como não existe?

- Não existe, porque o amor filial é a convivência, é o hábito, é o primeiro beijo que recebemos, é a canção que nos embalou o berço, é a lágrima que se juntou à nossa primeira lágrima, o sorriso que se fundiu com a nossa primeira alegria e, mais tarde, é a recordação de tudo isso! Separa ao nascer um filho dos braços maternos e dir-me-ás depois qual é o amor que ele sente pela mãe. E assim são pouco mais ou menos todos os afetos; uns amam para gozar, outros por hábito, outros simplesmente por necessidade. - Estás iludida, replicou Teobaldo, acendendo um charuto. Eu, pelo menos, tenho em minha vida uma afeição que se constituiu sem o concurso de nenhuma dessas circunstâncias; tenho um amigo, cuja única boa qualidade que possui e que me leva a estimá-lo, é ser bom; bom, não só para comigo, mas para todos, todos, seja lá quem for!

- Um amigo?

- Sim, o Coruja; não o conheces e bem provável que não chegues nunca a conhecê-lo.

- Por que não?

- Porque ele teria medo desse teu espírito diabólico e profanador. É uma alma imaculada, que se retrai e fecha ao mais leve rumor de tudo que é feliz, espetaculoso e barulhento, com a mesma facilidade com que se abre para tudo aquilo que chora e sofre. É uma triste criatura que vive silenciosamente para a dedicação e para o amor. Tanto é capaz de sacrificar-se pelo bom, como pelo mau; um estúpido ou um gênio, uma mulher monstro ou uma mulher encantadora, todos lhe merecem a mesma ternura, desde que há uma lágrima a estancar ou a mais ligeira sombra de sofrimento a desfazer. É capaz de despir o paletó para cobrir um cão que tem frio, e fica triste se em sua presença decepam uma árvore qualquer.

- É um santo, disse Leonília, a rir.

- Não, volveu Teobaldo; é simplesmente um homem feliz.

E, depois de descrever o tipo do amigo:

- Tenho inveja dele. Confesso.

- Tu?!

- Sim; tenho-lhe inveja...

- Ora essa!...

- Calculo quanto não gozará ele com ser tão dos outros e tão pouco de si mesmo; calculo a infinita volúpia da sua abnegação; o prazer supremo de não ter um vício, a consciência de não ter cometido uma ação má durante toda a sua vida.

- Há de haver um pouco de exagero de tua parte...

- Qual! Não disse a metade do que ele é...

- Que entusiasmo! Parece que o estimas mais do que a mim!...

- Pudera! resmungou o rapaz, disposto a continuar o elogio do Coruja; mas foi interrompido pelo criado, que os chamava para jantar.

Teobaldo tinha as vezes dessas expansões; dava para discorrer com entusiasmo sobre alguém que na ocasião o impressionava; ao passo que no dia seguinte seria capaz de fazer o mesmo por uma pessoa completamente oposta.

Do meio para o fim do jantar, jantarzinho de hotel, porque nesse dia ainda não se havia acendido o fogão da casa, ele se mostrou menos pessimista a respeito do amor das mulheres e mais disposto a corresponder com os carinhos ao sacrifício de Leonília; entretanto, quando esta lhe falou em viverem juntos, Teobaldo protestou energicamente - Não! Isso não era possível!

Ele tinha lá as suas aspirações, precisava fazer carreira e não estava resolvido a começar com o pé esquerdo.

- És um ingrato!... queixava-se ela, enxugando as lágrimas. És um ingrato! Até aqui fugias de mim, Porque eu não era só tua; pois abandono tudo, venho meter-me neste canto e tu, mesmo assim, declaras abertamente que não queres morar comigo!... Oh! isto também é demais! Já passa à maldade!

- Não, filha; é impossível morarmos juntos! Não posso. Hei de aparecer-te de vez emquando, sempre, talvez todos os dias, mas...

- És um homem mau, um egoísta.

E multiplicaram-se as recriminações. Afinal Teobaldo, apesar do firme propósito em que estava de muscar-se depois do jantar, resolveu não ir; ficou.

- Também que diabo! seria crueldade deixá-la ali, naquela casa, em companhia de um criado admitido na véspera.

E de mais, pensava ele, que posso eu recear?... Quando a coisa se torna perigosa, mando-a plantar batatas!

XII

Voltou de lá As três horas da tarde do dia seguinte.

- Mais um dia perdido! considerava ele amargamente ao entrar em casa já ao cair da noite e depois de ter jantado em companhia de amigos.

(continua...)

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