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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Só pela sobremesa o Dr. Tavares narrou, como de costume, algumas anedotas jurídicas que presenciara na província. Uma delas tinha referência a ma certa velha que fora aos tribunais por haver desancado as costelas do genro.

Mme. Brizard tomou a defesa das sogras, e aproveitou a ocasião para falar no marido de sua filha mais velha.

Vai muito da educação e também um pouco do costume em que a gente os põe!...acrescentou ela autoritariamente. — Mas, genro, não queria que houvesse outro como o defunto marido de Nini.. — Era um perfeito cavalheiro! Mme. Brizard nunca lhe vira a cara fechada, nem lhe surpreendera um gesto mais arrevesado. Ele só a chamava, a ela, de “mãezinha”; sempre lhe trazia guloseimas da rua, e, aos domingos, pela manhã, dava-lhe um beijo na testa , impreterivelmente! — Ah! Era uma santa criatura!

Nini suspirou e pôs-se a chorar em silêncio.

— Agora temos choro!...pensou Amâncio com tédio.

Nini, como se adivinhara tal pensamento, olhou para ele e pediu perdão com um sorriso, ainda mais triste que o choro.

— Eu sou aqui da opinião do Ser. Amâncio de Vasconcelos...disse o gentleman a Mme. Brizard, em tom discreto.

Mme. Brizard não sabia, porém, do que tratava o Lambertosa.

— Ah! volveu este. — Refiro-me ao que avançou anteontem o nosso ilustre companheiro, e indicou Amâncio com um gesto, que avançou a respeito da vantagem que um novo casamento traria, sem dúvida ,à senhora sua filha.

— Ah! fez Mme. Brizard já não me lembrava disso. O Sr.... — Lambertosa, minha senhora, Lambertosa...

O Sr. Lambertosa é então de opinião que o casamento convém às enfermidades nervosas?...

O gentleman concentrou a fisionomia, limpou o bigode ao guardanapo, ergueu uma faca, e principiou a emitir o seu judicioso e meditado parecer.

Surgiram logo as contendas. Lúcia marcou a página do livro de capa roxa e olhou muito séria para os outros, pronta a dar a sua réplica. Mme. Brizard, enquanto os mais discutiam, tamborilava com os dedos sobre a mesa, afitar um queijo de Minas, com um gesto profundo e repassado de filosofismo. O Pereira comia consecutivos pedaços de pão, sem abrir os olhos, e Amâncio procurava uma evasiva para se escafeder.

Afinal, o Coqueiro, que havia já formado um grupo à parte com o Dr. Tavares, quis fechar a discussão; mas o advogado ergueu-se de súbito, segurou as costas da cadeira, arregalou os olhos, e desencadeou a sua eloqüência .

Em pouco, só ele falava, esquecido, como de costume, do lugar e da situação. Imaginava-se já num tribunal, em pleno exercício de suas funções.

Pintou floreadamente o lamentável estado de Nini. Qualificou-a de “vítima inocente dos impenetráveis caprichos de Deus”; descreveu a dolorosa expressão do semblante da “’infeliz moça”; disse que os olhos dela falavam a misteriosa linguagem do amor, e, quando se dispunha a dar afinal a sua esperada opinião sobre o casamento, a pobre enferma, muito vendida com o que vociferava o tagarela a seu respeito, abriu a soluçar estrepitosamente.

A francesa ergueu-se, de mau humor, para pedir ao Dr. Tavares que se deixasse daquilo, “por amor de Deus!” Doutro lado o Coqueiro também lhe suplicava que se calasse.

Mas o demônio do homem já se não podia conter. As palavras borbotavamlhe da língua, como o sangue de uma facada. Fez imagens poéticas sobre o casamento , citou nomes históricos, e jurou, à fé de suas convicções,, “que aquela desventurada criatura precisava de um esposo, mais do que as flores carecem do orvalho, mais do que as aves carecem do ar; mais do que os cérebros carecem de luz!”

E, erguendo as mãos trêmulas, recuou dos passos e foi dar de encontro ao copeiro que, por detrás dele, embasbacado, o escutava atentamente, com a bandeja do café nos braços, à espera de uma ocasião para apresentar as xícaras.

Mme. Brizard assustou-se, o gentleman deu um salto para não sujar as calças; rolou ao chão uma garrafa, e César, o menino sublime, vendo que os mais velhos faziam tanta bulha, também se pôs a berrar.

Coqueiro gritava que se acomodassem por piedade.

— Aquilo não tinha jeito! Parecia haver ali uma súcia de doidos! Oh!

A mucama acudiu da cozinha, e Amélia, com um lenço amarrado na cabeça, apareceu na porta de seu quarto, muito intrigada com o motim. Só o Pereira continuava, inalteravelmente, a comer pedaços de pão; é verdade que abriu os olhos duas vezes. Mas tornou logo a fechá-los e, segundo todas as probabilidades, adormeceu.

Amâncio tratou de aproveitar a confusão para fugir da varanda.

– Que espécie de gente tão esquisita!... dizia ele em caminho do quarto. – Nada! Aqui ainda estou pior do que na casa do Campos!

Antes de chegar ao gabinete, percebeu que alguém o seguia com dificuldade. A sala de visitas estava já totalmente às escuras. Voltou-se, e, sem ter tempo de dizer palavra, sentiu cair sobre ele um corpo gordo e mole.

Era Nini.

Amâncio, surpreso e contrariado, quis arredá-la, mas a histérica passou-lhe os braços em volta do pescoço e desatou a chorar, com o rosto escondido no seu colo.

— Hein?! Disse Amâncio. — Que história é esta?!

(continua...)

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