Por Aluísio Azevedo (1891)
— Vês esta pedra? disse ela. É a porta das cavernas do Ouro. Nesta misteriosa gruta acha-se encerrada toda a riqueza dos avarentos já mortos, entesoura-se aí todo o ouro desses miseráveis, que em vida sofrem as mais duras privações, para acumular dinheiro sem proveito de ninguém!
— E como vieram parar aqui todas essas riquezas?... indagou Ângelo.
A cortesã explicou:
— Por intermédio dos herdeiros pródigos e das mulheres da espécie a que pertenci no mundo dos vivos. Por minhas mãos passaram muitos e muitos milhões, que aqui caíram, derramados em longas e ruidosas noites de orgia. Esta esplêndida caverna é o tormento das almas amarelas dos usurários...
— E ao mesmo tempo é o teu banco... faceciou Ângelo.
— Justamente, tornou Alzira. Quando preciso de dinheiro, venho buscá-lo aqui.
— E estas aves, porque esvoejam em torno da montanha, e por que soltam assim uivos tão tristes?...
— São as almas dos avarentos... Rondam, noite e dia, sem cessar, o tesouro que já não podem possuir e que ainda cobiçam. Atrai-as o cheiro do dinheiro! Deixa-as lá, míseras que são!
E Alzira encaminhou-se para o pedregulho que fechava a gruta, e tocou sobre ele com a sua linda mão cor de nove.
A pedra afastou-se incontinente, e uma fulgurante abertura fez defronte da cortesã, jorrando luz como a boca de uma fornalha.
As aves que rondavam a montanha, assanharam-se e logo se puseram a rodopiar com mais fúria, multiplicando os uivos e os gemidos.
Ângelo adiantou-se deslumbrado, olhando para dentro daquela esplêndida galeria de ouro e pedras fulgurantes.
— É maravilhoso! exclama ele. É surpreendente! Oh! quanta riqueza! Que interminável tesouro!
E olhava, fascinado.
A galeria, plana embaixo e por cima abobadada, firmava-se em colunas de ouro. O chão era calçado de moedas de todos os países; de espaço a espaço erguia-se um repuxo também de ouro, donde espipava ouro líquido que se derramava, entre rocas de esmeralda, formando reluzentes lagos nunca secos. Do teto pendiam estalactites de ouro, de coral e de topázio. As paredes cintilavam num delírio de fogos multicores, em que fulguravam diamantes, safiras, rubis, opalas e cornalinas.
— Oh! Que deslumbramento! exclamou Ângelo, sem desviar os olhos da refulgente caverna. Que grande maravilha!
— Não tão grande, opôs-lhe Alzira, procurando com os lábios alcançar-lhe a boca; não tão grande como o amor que me inspiraste!
Ângelo não lhe ouviu as palavras, nem recebeu a carícia que ela lhe oferecia. Toda a sua atenção era para a sedutora caverna.
— Não me escutas, meu querido amor?...
Ele, em vez de responder, perguntou avidamente:
— Eu também posso levar daqui o ouro que quiser, não é verdade?...
— Não, disse Alzira entristecendo; não podes carregar daqui com um grão de ouro... Eu, sim!
— Por quê?
— Porque nunca foste perdulário... Ah! mas descansa que nada te faltará!... Estarei sempre a teu lado, e sempre terás à mão a minha bolsa.
Ângelo abaixou os olhos, empalidecendo.
— Que tens, meu amor?... interrogou a amante. Sentes-te mal? ... Fala. — Nada!...
E cerrou os punhos, rilhando os dentes.
— Oh! cala-te! Terrível sentimento apodera-se do meu coração! Sinto-me ambicioso e ávido de riquezas! Desejo ser o único dono de todos aqueles tesouros que ali estão acumulados! E esta cobiça me faz estalar o cérebro' Tenho o sangue a escaldar! Tenho febre! Tenho febre!
— Empalideces! Ó Ângelo! Ângelo! não te preocupes com o ouro! Pensa em mim, que sou a tua riqueza!
Ele, afastou-a com o braço.
— Sofro! sofro neste instante! acrescentou. Faz-me mal a vista de tanto ouro! Tenho vertigens! Desejava agora ser mil vezes milionário e ter todas as grandezas da terra!
— Ângelo! Ângelo!...
— Oh! deixa-me! Afinal não passo de um pobre aventureiro, sem o menor prestígio, sem ter sequer um nome de família! não passo de um miserável, sem passado e sem futuro, uma sombra de homem, sem esperanças e sem saudades!
Não sou ninguém! ninguém!
— És muito, és tudo, meu amor, és tudo, pelo menos para mim! exclamou Alzira, tentando inutilmente chamá-lo a seus braços. Que te importam o futuro e o passado, se tens o presente, que sou eu?... Riquezas e grandezas! mas tudo isso não vale o ser amado como eu te amo, meu Ângelo!
— Não! Não! Quero ir morrer lá dentro, afogado naquelas voragens de ouro!
E, desprendendo-se dos braços dela, precipitou-se para a caverna.
Mas uma resplandecente figura, de longas barbas e cabelos de ouro vivo, cortou-lhe a passagem, colocando-se à entrada da grata.
— Era o Demônio de Ouro.
Vinha cintilante da cabeça aos pés, e o diadema, que lhe guarnecia a fronte, refulgia como um sol.
— Para trás! disse ele a Ângelo. E presta toda a atenção ao que vais ouvir!
O ambicioso abaixou o rosto e recuou dominado.
O opulento gênio avançou alguns passos e disse, tocando no ombro da cortesã:
— Alzira! continuas então a vagar durante a noite pelo mundo dos vivos, em vez de jazeres tranqüilamente na tua sepultura?. .
— Cala-te, por amor de Deus, que essas palavras desconsolarão o meu amante, se as ouvir...
— Volta de vez para o túmulo! ...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.