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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Mas eu tenho receio de enganar­me... Às vezes supomos distinguir aquilo que desejamos ver, e essa ilusão é uma felicidade que se desfaz ao tentarmos alcançar a bela miragem!...

Gabriel calou­se por algum tempo; depois, aproximou mais a sua cadeira da de Eugênia, debruçou­se para ela e acrescentou quase em segredo:

— Se soubesse como sofro!... nem mesmo sei explicar o que sinto... São desejos vagos e incompletos, um querer sem vontade, um desejar sem ânimo, um aspirar sem destino e sem coragem. E contudo, sinto que me falta alguma cousa... Se me perguntarem o que é não saberei responder; mas sinto necessidade de dedicar­me a qualquer idéia, a qualquer cousa. Preciso de um ideal que ocupe a minha atividade, que exija os meus sacrifícios, que me anime, que me estimule. Ah! E venham falar­me ainda nos encantos da mocidade, nos risos dos vinte anos... Não! nada disso existe! Sou moço, rico, tenho vigor e saúde, e, no entanto, sofro, sofro muito! sinto a existência pesar­me sobre as costas como um castigo!

Eugênia, que o ouvia de cabeça baixa, ergueu­a docemente, com um sorriso.

— É justamente porque nada lhe falta, que o senhor se aborrece e não aprecia a existência... disse ela. Tivesse, como outros, de trabalhar para viver, e os seus dias correriam alegres e ligeiros. Como quer o senhor gostar da existência, quando nem sequer conhece?... A vida consiste no esforço, no trabalho, na dedicação e no sacrifício. O senhor nunca experimentou nenhum desses gozos, que entretanto são os únicos verdadeiros. Quer ouvir um conselho?... Ame e trabalhe, dedique­se a alguém e a alguma cousa, constitua família e forme a sua responsabilidade de homem. Sem essa resolução, o senhor há de sentir sempre o mal de que se queixa, e nunca poderá ser feliz.

— Bem! Pois vou então falar­lhe com toda a franqueza; vou abrir­lhe o meu coração, para que a senhora escolha e guarde o que nele houver de aproveitável, e lance fora o resto...

Eugênia estremeceu e largou o trabalho que tinha entre mãos. Gabriel aproximou ainda mais a sua cadeira, e fitou os olhos da rapariga, postos agora tranqüilamente à espera.

Estavam transparentes, infinitamente doces, e via­se no fundo deles brilhar o sorriso de uma esperança.

Houve entre os dois moços um idílio instantâneo e mudo, precursor do "Amo­te!" sagrado.

Nesse momento, porém, entrou o Sr. Windsor, que os buscava para a cerimônia do chá.

Gabriel prometeu a Eugênia fazer­lhe no dia seguinte a suprema revelação prenunciada. Iria visitá­la expressamente para este fim.

Mas, nessa mesma noite, ao entrar em casa, o criado entregou­lhe uma cartinha perfumada e cor­derosa.

O moço abriu­a, e leu:

"Gabriel. Não queria procurar­te. Tencionava nunca mais te ver, nem te falar. Não posso! A porta do jardim ficará aberta durante a noite. Às onze e meia já todos os de casa estarão recolhidos... Amo­te!

Vem!

Ambrosina"

Gabriel leu o bilhete de Ambrosina, uma, quatro, vinte vezes.

Aquelas duas últimas palavras, breves, quentes e palpitantes, faiscavam­lhe no cérebro: "Amo­te Vem!"

— Que harmonia! Que música! Como lhe soavam agradavelmente ao coração aquelas notas feiticeiras! "Amo­te! Vem!"

Um paraíso em duas palavras! Um mundo de delícias! Um rosário de venturas!

— Como sou feliz! Como sou feliz! exclamava ele, incendiado pelas duas palavras de fogo.

Possuir Ambrosina! amá­la e ser amado por ela! tê­la ao alcance da mão, ao alcance dos braços, ao alcance da boca!... Oh delírio! Oh supremo gozo!

Gaspar achava­se nessa ocasião à cabeceira de um doente em Petrópolis, e a Gabriel quadrava esta circunstância, porque lhe permitia saborear mais à vontade aquele alvoroço do seu amor. Era a primeira vez que não sentia vontade de comunicar um segredo seu ao padrasto. É que Gaspar, com certeza, acharia mau tudo aquilo, e privar­se Gabriel da felicidade sonhada, seria privar­se da própria vida.

Despiu­se cantarolando; acendeu um charuto e deitou­se de costas na cama, a olhar para o teto, e a ler no espaço estas palavras:

"Amo­te! Vem!"

Eram escritas por ela... por Ambrosina! por aquela bela mulher de cabelos perturbadores, de olhos ardentes e sombrios, de boca vermelha e dentes brancos! Eram dela! E nessas duas palavras estava toda a sua alma e estava todo o seu sangue!

Sim, era Ambrosina, que lá da sua alcova lhe bradava com delírio: "Amo­te! Vem!"

E as duas palavras o invadiram e se gravaram no espírito dele, como dois pontos luminosos, duas estrelas brilhantes, que o iluminavam todo por dentro.

E as duas estrelas iam despejando­lhe no ânimo d’lma uma aluvião de sorrisos de amor, de beijos e de abraços apertados. E quanto mais despejavam, mais tinham elas que despejar. Eram novas carícias, que se atropelavam, que se confundiam, tomando­lhe a respiração, escaldando­lhe os sentidos.

Gabriel soprou a vela, e fez por adormecer. Aninhou­se na cama, enterrou a cabeça nos travesseiros; mas as duas irrequietas estrelas lá estavam a luzir, a luzir, a repetir: "Amo­te! Vem — Amo­te! Vem!"

(continua...)

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