Por Franklin Távora (1879)
Martins procurava no pensamento uma forma, uma frase mais viva para manifestar o seu contentamento ao amigo de infância, quando viu nos olhos deste duas lágrimas a bailarem.
Levantou-se comovido e triste. Deu alguns passos em silêncio pelo gabinete. Ângelo, compreendendo o que a sua fraqueza devera ter feito gerar-se no espírito do amigo, passou o lenço pelos olhos e foi ao encontro de Martins.
— Não duvides das minhas palavras. Senti, sinto ainda o golpe, mas definitivamente está tudo acabado entre mim e essa mulher. Onde havia paixão violenta há agora uma barreira ingente, que nem eu transporei, nem ela transporá. Tive por Júlia grande amor, que ela me retribuiu com isenção de ânimo até pouco tempo. Há duas semanas comecei a notar de sua parte não só resfriamento mas esquivança. Faltou ao prometido, deixando-se ficar na caixa do teatro. Anteontem de tarde, cometi um ato de loucura. Meti-me num carro e mandei tocar para o Monteiro. Ela mora numa casa de terraço com gradil, sobranceira à estrada.
— Sei onde é.
— Júlia estava no terraço, quando apontei na estrada e tanto que me avistou fugiu para dentro. Fiquei indignado. Assaltou-me o pensamento de lhe fazer qualquer manifestação insultuosa; por exemplo, a de lhe atirar uma luva, se ela aparecesse no momento de passar o carro defronte da casa. Ela não apareceu, mas eu estava trêmulo de raiva, e quase não podia governar-me. Mandei parar o carro, meti num dos dedos da luva um anel, que ela me havia dado de presente, e, pondome de pé, atirei a luva e o anel por cima do gradil. Não pude dormir. Mau espírito perdeu-se em vãs conjunturas sobre a origem do desdém de Júlia para comigo. Hoje, seriam dez horas da manhã, entrei no teatro. Ela não fora ao ensaio. Quando eu saía, o porteiro veio ao meu encontro e entregou-me uma carta que podes ler.
Martins tomou a carta e leu:
“Não pense que sou uma mulher vulgar. Sinto ainda pelo senhor grande paixão, não obstante ter assentado cortar todas as relações que existiam ente nós. A explicação do meu procedimento é a que passo a dar. Vieram dizer-me que sua mãe estava sofrendo por meu respeito. Ora, eu venero a mãe de quem quer que seja. Para atalhar os padecimentos de minha mãe, casei-me contra a minha vontade. Ela acompanha-me por toda a parte; por ela tenho feito e farei os maiores sacrifícios. Condoí-me, por isso, de sua mãe sem a conhecer. Por que havia eu de prolongar os eu sofrimento? Se eu pudesse aspirar a possuir o senhor até a morte, talvez o egoísmo, sentimento cruel, me desse ânimo para sustentar a luta com o sentimento maternal, e disputar-lhe a vitória; mas poderei acaso, sem dar triste idéia da minha razão, nutrir semelhante esperança? Presa pelo destino, falaz e fatal. ao teatro, mundo sombrio sobre o qual, se algumas vezes assoma o sol da glória, é mais para mostrar as suas manchas do que para projetar a sua luz, o que me cumpre fazer senão resignar-me ao meu papel e à minha condição? Aceitei por isso a proposta que me fizeram do Maranhão e seguirei para ali no primeiro vapor. Peçolhe que se esqueça de mim, e que me perdoe esta resolução, como eu perdoei o seu insulto que me lançou fel no mais íntimo da alma.
J.
— Tens medo dessa mulher, Ângelo — disse Martins, concluída a leitura da carta. E como é possível que ela algum dia volte a repetir a luta com o amor maternal para lhe disputar o seu penhor predileto, não será por demais quebrar esta arma que ela deixa em tuas mãos contra ti mesmo.
Dizendo estas palavras, Martins fez o gesto de rasgar a carta de Júlia. Ângelo correu a tolher que ele levasse a efeito a intenção apenas denunciada.
— Não rasgues a carta.
— Peço-te perdão, Ângelo. O crime está cometido.
Os pedaços, em que Martins pusera o papel, rolaram aos pés dos dois amigos.
— Não me queiras mal por isso. Quebrei uma arma que estava dirigida contra o teu coração.
— Receias que façamos as pazes? É impossível. Depois, Júlia embarcou ontem. Não viste a data da carta? Foi escrita há três dias. Não é uma mulher vulgar.
Pode mais que o seu amor.
— É ainda este juízo que formas dela? Queres saber porque foi que deixou o Recife? É fácil de compreender esta abnegação. Do Maranhão ofereceram-lhe maiores vencimentos. Mas ou a verdade esteja contigo, ou comigo, dou-te os parabéns, e vou pedir alvíssaras a tua mãe.
Martins ia sair, quando volveu imediatamente sobre os seus passos.
— Tinha-me esquecido de dizer-te que Maurícia chegou ontem à noite a Caxangá, disse.
— Ah!
— Não te admires. Se não andasses tão longe do mundo onde vives, se não tivesse até estas presentes horas o espírito tão perto da luz, já terias acertado com a origem da vinda dela; Vê lá se podes adivinhar.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.