Por Franklin Távora (1878)
- Há tudo de que precisares para as mais arriscadas e custosas arremetidas contra a nobreza, disse a com segurança Antonio Coelho, qual se fizesse um juramento solene. Além disso, acrescentou como por demais, o saque entrará por muito na ordem dos meios de suprir qualquer falta que se não tenha podido prever.
- Eu quero ser franco a vosmecê. Tenho já comigo, não de hoje, mas de há muito, vinte camaradas valentes e decididos. Se me autoriza a aumentar o número, dentro de pouco tempo terei uma companhia organizada. Autorizo-te a organizares um batalhão. Pagarei a todos o soldo, e a ti aquele que costumam vencer os coronéis.
- Muito bem, respondeu o Tunda-Cumbe. Pode contar comigo. De hoje a oito dias teremos gente para tomar Goiana.
- - Trata-se, não de tomar Goiana, que nossa é, mas de ir em socorro dos nossos amigos do Recife, que estão ameaçados de um rigoroso sitio, posto pelos rebeldes de Olinda e das vilas mais próximas. Pois sim; é para o que quiser. Sou pau para toda obra.
- Fica pois assentado que de hoje em diante andaremos de acordo nesta grande obra. Sim, senhor. Está decidido.
- Em cado de necessidade, por quem poderia mandar chamar-te?
- Por Lauriano.
- Podemos confiar nele?
É um negro interesseiro, que odeia muito os nobres, porque de um deles foi escravo e provou muito bacalhão. Ele sabe onde há de procurar-me, nos dias em que não costumo vir à vila.
Antonio Coelho deu algumas ordens ao peixeiro, assaz agradáveis para este, por serem acompanhados de algumas moedas de prata.
Metido o dinheiro na algibeira do gibão velho que trazia, o Tunda-Cumbe retirou-se, levando consigo a convicção de que desde o momento em que fora autorizado a acrescentear o seu séquito, era ele tão poderoso chefe senão mais do que o próprio que a isso o autorizara.
XVII
Nos primeiros dias de julho, em lugar dos vinte malfeitores que dantes trazia mais ou menos ligados consigo, contava o Tunda-Cumbe numero superior a duzentos; e por tal forma lhes havia imposto a sua autoridade, que a seu grado os dirigia e movia tão bem como se foram puros autômatos.
Os insultos, as arrogancias, os furtos de cavalo, os roubos, as atrocidades de toda espécie começaram então a aumentar de modo assustador. Hoje, era a casa de um foreiro assaltada, amanhã, era um negro do engenho castigado cruelmente porque se tinha oposto a que tirassem a cana, a macaxeira, a galinha, a ovelha, que eles por fim sempre tiravam.
Para a família do pobre não houve mais respeito nem segurança. Mulheres honestas e recolhidas, moças solteiras que viviam honradamente sovre se ou em casa de seus pais eram raptadas sem o menor escrúpulo, e iam contra a vontade delas, os olhos arrasados de lagrimas, cevar a brutal concupiscência de assassinos e ladrões, que, confiando na impunidade prometida para eles por seus protetores, as deixavam ao desamparo, nos braços da devassidão, ou entre as unhas felinas da miséria, depois de saciadas suas paixões reprovadas e vis.
Constituiu-se assim o Tunda-Cumbe dentro em pouco tempo o terror de todo o norte de Pernambuco, porque para suas correrias ele não escolhia lugares nem conhecia limites; e publicar o seu nome montava publicar, não já o nome de vinte ou duzentos facinorosos, mas o de quinhentos, afeitos a desrespeitar os homens sérios, a roubar a honra das famílias fracas e a fazenda do proprietário pacifico, a matar o matuto que lhes resistia, a destruir e aniquilar homens e coisas.
Pelo mesmo tempo outro caudilho truculento começou a representar no sul as mesmas tradições de saque, sangue e morte que celebrizaram tão tristemente o Tunda-Cumbe. Era o índio Sebastião Camarão, de quem se dizia que recebera três mil cruzados dos mascates para ser por eles, com seu séquito na guerra que se acendera. Este séquito, composto em sua maior parte de homens que tinham dado inteiramente as costas à honra, à moral, à lei e a Deus, chegou a ser muito numeroso e a contar quase o dobro do outro bandido. Os maiores criminosos do sul faziam parte dele, razão porque nos lugares por onde passavam, nenhum principio ou interesse venerável ficava sem receber deles as mais graves violações e ofensas.
De todos os senhores-de-engenho das cercanias de Goiana, o que servia de alvo ao ódio mais apurado do Tunda-Cumbe era Matias Vidal de Negreiros. A razão é obvia.
Durante o seu almocrevar, quando sucedia passar, não por fazer negocio, mas por encurtar distancias ou evitar grandes atoleiros ou rios cheios, pelo engenho de Matias, fazia o Tunda-Cumbe, rosnando como cão irritado, esta acerba jura:
Hei de vingar-me algum dia neste vilão ruim do que me fizeram seus negros. O dia pareceu-lhe ter chegado duas semanas depois da conferencia que tivera com Antonio Coelho, e para lá se encaminhou com cerca de sessenta dos seus valentões no intuito de tomar a desforra longamente premeditada.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.