Por Franklin Távora (1876)
Ainda bem não tinha acabado, quando cortava os ares um corpo semelhante a tronco de árvore que o furacão arrebata às florestas e arroja a distancias incomensuráveis. O fanfarrão fora jogado com todos seus bélicos aprestos dentro do poço pelas mãos possantes do famoso matador.
— Cabeleira ! — gritou Luísa, correndo ao lugar onde em menos de um instante se passara a inesperada cena.
Marcolino, que a esse tempo se achava montado no alazão, tendo ouvido este fatal apelido, deu de pernas ao cavalo e fugiu evidentemente aterrado como se a seus pés houvesse visto cair um raio.
O Cabeleira, entretanto, tinha corrido ao pé da ingazeira onde havia deixado o bacamarte quando se apeara. Mas não logrou levá-lo ao rosto para dispará-lo como pretendia, contra o fugitivo, porque Luísa, unindo-se com ele, e buscando arrancarlhe a arma das mãos, lhe disse com voz magoada, entre exprobração e pranto:
— Por que não me tira a vida de uma só vez, Cabeleira ?
Diria que Luísa estava possuída de um espírito angélico.
— De ontem para cá — prosseguiu ela — tem jurado milhares de vezes não derramar mais sangue sobre a terra, e milhares de vezes tem quebrado seus juramentos ! Sempre que falta à sua palavra, atravessa sem o suspeitar o meu coração com sua faca. Não demore mais o meu penar, mate-me de uma vez. Perdôo-lhe a morte, por Deus lhe juro, por Deus que nos está ouvindo no meio desta solidão.
Luísa tinha-se insensivelmente ajoelhado aos pés do bandido, e lhe abraçava as pernas com mostras de irrepreensível afeto. Dos olhos rolavam-lhe lágrimas como contas de rosário espedaçado.
Estático, e confuso, não achou José palavras para responder à exprobração e rogativas que aquele coração generoso ditava inspirado pela piedade de uma alma grande e terna.
— Não me fale assim, Luisinha — respondeu enfim o bandido, levantando-a e abraçando-a.—Quando eu a vejo chorar, sinto-me enfraquecer; quando você me pede alguma coisa, sou incapaz de negar-lhe, ou de resistir à sua vontade.
— Mas de que serve o que me diz, se não se esquece da sua vida tão triste e infeliz ? Cabeleira, por que não se há de tornar brando e terno como Luísa ? Olhe. A morte está mais perto de mim do que...
— A morte ! — exclamou o bandido.
— Sim; dentro em pouco eu o deixarei, mas enquanto não nos separarmos, poupe-me estas cenas que me transpassam o coração. Quando eu desaparecer de seus olhos, não se considere só no mundo. No lugar que meu corpo deixar vazio ao pé de si, há de ver sempre a alma benévola da pobre Luísa; ela o acompanhará por toda parte para inspirar-lhe os bons pensamentos e aconselhar-lhe a prática das boas ações. Por que não me dá consolação de reconhecer em você desde já um espírito arrependido dos passados erros ?
— Ah! Luisinha! Você me abranda com suas palavras, em sua presença eu me considero uma criança.
— É Deus que me ajuda a quebrar seus ímpetos, a moderar sua cólera. Ele há de ouvir todos meus rogos, há de inspirar-lhe horror ao sangue e aos instrumentos que o derramam.
Cabeleira, como se tivesse recebido nestas palavras aviso celeste, replicou:
— Não levantarei mais minha mão contra ninguém, Luisinha. Quer uma prova desta resolução ? Veja. É a maior que lhe posso dar.
Tirou o fuzil e a pedra do bacamarte, os quais meteu na algibeira da véstia.
E por um desses sublimes impulsos que só visitam o homem uma vez na vida, arremessou a arma dentro do rio. Este ato foi seguido de outro que o completou e confirmou. Batendo com a faca sobre uma pedra que ficava na ribanceira, fez saltar dentro da água metade da folha de aço que tinha cortado o fio de muitas vidas preciosas, e feito correr muito sangue inocente sobre a terra.
O bandido obrou estas duas ações com tanta fé e grandeza d'alma, que Luísa correu a ele dominada de peregrina comoção, e o apertou em seus braços.
Só o deserto foi testemunha desta grande cena, porque eles estavam, como havia poucos, sós.
O menino que guardava a vazante havia desaparecido logo que ouvira pronunciar o nome do Cabeleira.
Os dois desconhecidos, um salvo das águas, outro salvo do tiro iminente, tinham corrido a refugiar-se no seio da espessura.
— E agora, Luisinha, terá ainda alguma coisa que dizer de mim ? — perguntou José com ingenuidade infantil.
— Os meus rogos foram ouvidos por aquele que dali nos vê e ouve como pai misericordioso. O medo que eu tenho agora é que as tropas o peguem e o roubem de meus braços ! Oh ! fujamos já deste lugar. Quem sabe se aqueles homens não correram a denunciá-lo ! Misericórdia, meu Deus ! Que fazemos ainda aqui ?
Puseram-se no mesmo instante a caminho na direção do ocidente.
CAPÍTULO XIV
O sol chegou ao horizonte, e as sombras começaram a vasta solidão.
O Cabeleira parou ao pé de um serrote, e escutou.
Um ruído estranho vencia a distancia e vinha ecoar aos ouvidos dos fugitivos.
— Estamos perto — disse ele. — Não houves este barulho? São as águas do Tapacurá que caem no Capibaribe. De madrugada atravessaremos este rio, e se bem andarmos poderemos estar depois de amanhã a esta hora em Goitá, terra do Cabeleira.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.