Por Bernardo Guimarães (1869)
Desde o romper da alva o arraial dos Chavantes começou a arrear-se de atavios de festa e a ressoar com rumores prazenteiros. Bandos alegres de homens e mulheres, ataviados com seus mais garridos enfeites, percorriam as brancas areias da praia cantando e tangendo seus rudes instrumentos; outros em canoas cobertas com toldas de ramos e flores sulcavam as águas do rio em todas as direções, acordando os ecos das sombrias ribanceiras com alegres vozerias ou com estrondo de descargas dos mosquetes, que Itajiba lhes tinha dado; ali um bando de guerreiros, revestidos de vistosas armaduras, executavam exercícios guerreiros simulando combates e cenas de guerra; além grupos de homens e mulheres sentados à sombra de algum copado arvoredo banqueteavam-se alegremente inebriando-se de cauim.
Tudo era festa, regozijo, movimento e ruído, e essas demonstrações eram filha de um sincero prazer e verdadeiro entusiasmo da parte dos Chavantes, a quem Itajiba por seus atos de heroísmo e pela nobreza e generosidade de sua alma soubera inspirar ao mesmo tempo afeição, respeito e fanática admiração.
À noite o espetáculo variava inteiramente de natureza e de aspecto. Os troncos das florestas forneciam a descomunal iluminação desses selváticos festejos: empilhados uns sobre outros de espaço em espaço em fogueiras colossais ao longo da praia ardiam estrepitosos, e como crateras em erupção arrojavam às nuvens borbotões de fumo, e miríadas de fagulhas chamejantes. Ao vermelho clarão das fogueiras o rio fulgurava como larga torrente de lavas abraseadas, e por entre elas via-se cruzando a todos os instantes e em todas as direções uma turba imensa em alegre e festival celeuma, e divisavam-se como espectros as figuras bronzeadas dos guerreiros agitando os cocares ondulantes, e com bizarros esgares e compassados saltos executando danças selváticas e figurando combates e pelejas. Um espectador estranho, que ali se achasse, julgaria presenciar um orgia de espectros.
Na tarde do terceiro dia, em uma vasta sala da taba do velho cacique, em presença dos pajés e dos principais da tribo, Oriçanga entregou sua filha, a meiga e formosa Guaraciaba, ao valente e generoso Itajiba, com as singelas e breves cerimônias entre eles usadas para esses atos, e declarou outrossim que em razão de sua avançada idade transferia a Itajiba desde aquele momento o governo e comando da tribo. A multidão, que ávida e curiosa se tinha aglomerado em torno da taba do cacique, prorrompeu em entusiásticas e ruidosas aclamações, e os festins se prolongaram pela noite adiante ainda mais estrondosos e animados.
CAPÍTULO VI
INSÍDIA
Inimá, embrenhado com seus companheiros nas matas vizinhas, escutava ao longe com desespero na alma aqueles festivos e entusiásticos rumores aclamando e vitoriando seu poderoso e feliz rival. Doze sóis havia que o desditoso cacique, homiziado nos covis das feras, tragava na solidão o fel peçonhento do ciúme, aguardando com impaciência a hora da vingança.
Entre os companheiros de Inimá, que com ele se tinham salvado da desastrosa derrota de sua expedição, havia um irmão de Guaraciaba, que sua mãe a gentil e graciosa Naumá tinha tido do esbelto e robusto Andiroba antes que Oriçanga a recebesse como esposa em sua taba. Anhambira, este era o seu nome, era um jovem guerreiro igual em idade a Inimá e mui semelhante a ele, quer nas feições do rosto, quer na estatura e na galhardia do porte; desde a infância ligaram-se um ao outro pelos laços da mais estreita amizade; eram sempre companheiros inseparáveis em todos os jogos e em todos os trabalhos e empresas, e ao vê-los assim tão semelhantes um ao outro julgar-se-ia serem dois irmãos gêmeos. Anhambira seguira a seu amigo nessa expedição, que teve tão deplorável resultado, e já Guaraciaba tinha vertido amargo pranto sobre a sorte de seu irmão, julgando-o morto ou perdido como o resto de seus companheiros. Os outros guerreiros, que com Inimá se achavam na floresta, eram também amigos dedicados, fiéis a seu chefe até a última extremidade, e prontos a executar pontualmente as suas ordens, quaisquer que elas fossem.
Anhambira, posto que como amigo de Inimá fosse infenso a Itajiba, amava muito a sua irmã, e logo em sua chegada tinha pedido a seu chefe e amigo que o deixasse ir às tabas vê-la e abraçá-la; mas Inimá jeitosamente se opôs a isto, e o dissuadiu fazendo-lhe ver que Itajiba era cruel e suspeitoso, e que seu aparecimento nas tabas poderia ser funesto; dizia demais, a seu amigo, que não poderia passar um instante sem a sua companhia, que era o único alívio e conforto que ainda lhe restava na horrível solidão em que se achava; que no dia do noivado poderia ele ir ver sua irmã e lhe ficava livre voltar ou não para sua companhia. Anhambira, que tinha coração leal e singelo, e não querendo contrariar a seu amigo em ocasião tão penível e cruel, acreditou em suas palavras e esperou.
De feito, como chegasse o terceiro dia da festas nupciais, ao pôr-do-sol Inimá disse ao seu amigo:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.