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#Romances#Literatura Brasileira

Memorial de Aires

Por Machado de Assis (1908)

Não entendendo, perguntei-lhe que água benta era, e que batizado. O marido, com a sua rabugem do costume, respondeu que a água benta era o dinheiro, e esfregou o polegar e o índice; ela riu apoiando, e eu compreendi que atribuíam ao moço uma afeição de interesse.

Quis ponderar à dama que isto que me dizia agora estava em contradição com o que uma vez lhe ouvi. Ouvi-lhe então (e creio que o escrevi neste Memorial ) que Tristão preferia a política à viúva, e por isso a deixava. Não lho lembrei por duas razões, a primeira é que seria inútil, e até prejudicial às nossas relações; a segunda é que ofenderia a própria natureza. D. Cesária pensa realmente o mal que diz. A contradição é aparente; está toda no ódio que ela tem a Fidélia, e este sentimento é a causa íntima e única das duas opiniões opostas. Preterida pela política ou preferida pelo dinheiro, tudo é diminuir a outra dama. A essas duas razões para ouvi-la calado acresceu a forma. Tudo lhe sai com palavras relativamente doces e honestas, ficando o veneno ou a intenção no fundo. Há ocasiões em que a graça de D. Cesária é tanta que a gente tem pena de que não seja verdade o que ela diz, e facilmente lho perdoa.

Tudo isto considerado, e mais a hora, a viagem curta, e a presença do marido, que diabo ganhava eu em desfazer o que ela dizia? Comigo, sim, logo que eles me deixararn, vim pensando no Tristão, que é também rico, que ama deveras a viúva, é amado por ela, e acabará casando. Vim recordando a noite e os seus episódios, que não escrevo por ser tarde, mas foram interessantes. O desembargador parece que já descobriu a inclinação da sobrinha, e não a desaprova. O casal Aguiar estava feliz; ainda lá ficou para vir com o afilhado.

23 de janeiro

Agora me lembra que amanha faz um ano das bodas de prata do casal Aguiar. Lá estive naquela festa íntima, que me deu prazer grande. Também lá esteve Fidélia, e fez o seu brinde de filha à boa Carmo, tudo correu na melhor harmonia. Ainda cá não chegara Tristão, nem era esperado. Oxalá me não esqueça de lhes mandar cedo o meu bilhete de felicitações, e pode ser que lá vá de noite. Vou, vou.

...Rita escreveu-me agora (seis da tarde) pedindo que a espere amanhã, à noite, para irmos juntos ao Flamengo. Vou; há seis dias que lá não piso.

25 de janeiro

Não havia muita gente no Flamengo. Os quatro, — casal Aguiar, Tristão e Fidélia (não conto o desembargador, que estava jogando) os quatro pareciam viver de uma novidade recente e desejada. Quem sabe se a mão da viúva não foi já pedida e concedida por ela? Comuniquei esta suposição a Rita, que me disse suspeitá-la também.

29 de janeiro

Tínhamos razão na noite de 24. Os namorados estão declarados. A mão da viúva foi pedida naquele mesmo dia, justamente por ser o 26.° aniversário do casamento dos padrinhos de Tristão; foi pedida em Botafogo, na casa do tio, e em presença deste, concedida pela dona, com assentimento do desembargador,

que aliás nada tinha que opor a dois corações que se amam. Mas tudo neste negócio devia sair assim, de acordo uns com outros, e todos consigo.

D. Carmo e Aguiar, que haviam abraçado a Tristão com grande ternura antes e depois do pedido, estavam naquela noite em plena aurora de bem-aventurança. Valha-me Deus, pareciam ainda mais felizes que os dois. A viúva punha certa moderação na ventura, necessária à contigüidade dos dois estados, mas esquecia-se algumas vezes, e totalmente no fim. Nada se sabia então da novidade, e agora mesmo creio que só eu a sei (assim mo disse hoje o noivo); alguns poderiam supô-la, como a mana Rita, que já sabia metade dela; os menos sagazes terão dito consigo, ao vê-los, que é bom que Fidélia vá aliviando o luto do coração.

Referindo-me o que se passou há cinco dias, Tristão explicou esta comunicação nova: sentia-se obrigado a contar-me o final de um idílio cujo principio me confiara em forma elegíaca. Usou dessas mesmas expressões, e quase me citou Teócrito. Eu apertei-lhe a mão com sincero gosto, e prometi calar.

Em verdade, estimo vê-los unidos. Já escrevi que era um modo de acudir à tristeza do casal Aguiar. Agora acrescento (se já o não disse também) que eles se merecem, são moços, belos, amam-se, têm o direito natural e legítimo de se possuirem.

— Não publicamos oficialmente o nosso casamento próximo, concluiu Tristão, porque eu escrevi a meus pais, e só nos casaremos depois que me chegar a resposta. A resposta é sabida, e se pudesse ser contrária, nem por isso deixaríamos de casar-nos; todavia, não quero publicar já o acordo, é uma forma de respeito aos velhos.

Em seguida começou a desfiar as excelentes qualidades da moça. Já lhe ouvira algumas e conhecia-as todas, mas quando se trata com esta espécie de gente é preciso ter a maior indulgência do mundo. Tristão falava com tal sinceridade e gosto que seria duro não lhe dar ouvidos complacentes e palavras de aprovação; dei-lhos; ele acabou pedindo-me o primeiro abraço de pessoa estranha; dei-lho apertado.

2 de fevereiro

(continua...)

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