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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

A noite estava plácida e serena. No céu recamado de estrelas, a brisa acariciava uns frocos de nuvens alvas como a penugem das graças. Uma onda trépida garrulava na bacia de mármore coberta de nenúfares, que alçavam os grandes e níveos cálices, aljofrados de orvalhos. O arvoredo, que recortava-se bizarramente no horizonte luminoso como um relevo gótico, estremecia com o doce arrepio da aragem, que esparzia os aromas das rosas e das magnólias. 

Seixas parou um instante a contemplar a doce placidez da natureza. Essa calma suave da noite penetrou-o. Relaxaram-se-lhe as fibras da alma. 

Apoiando a fronte à ombreira da janela deixou cair as lágrimas que lhe assoberbavam o seio. 

Depois desse pranto que o desafogou, Seixas aproximou-se da elegante escrivaninha de mirapininga, e a abriu. Ainda chegou a puxar a pasta de chamalote escarlate. Na aba superior, dentro de um florão branco, aparecia bordado em debuxo de ouro o seu monograma, F. R. S., entrelaçados. 

Esteve a olhar maquinalmente essas letras que se lhe afiguravam um enigma. Como na fábula antiga, a esfinge o estupidava. Que significação tinha isso depois do desenlace que momentos antes o havia arremessado à maior abjeção? 

Afinal tomou a resolução que o levara à mesa. Estendeu sobre a pasta uma folha de papel e preparou-se para escrever uma carta. 

Mas a pena estacou ao penetrar no bocal do tinteiro. Seixas retirou-a com vivacidade e examinou inquieto os bicos. Vendo-os intactos, ergueu-se precipitadamente e percorreu o aposento. 

Ao cabo de algum tempo voltou ao toucador, com um modo decidido. Mudara de resolução. 

Abriu as gavetas, e guardou nelas cuidadosamente todos os objetos de preço que ali havia. Concluída a tarefa, trancou o móvel e o mesmo fez a todos os outros de que poucas horas antes o Lemos lhe fizera exibição. 

Apesar das recomendações do tutor de Aurélia, Seixas tinha pela manhã enviado uma secretária em cujas gavetas inferiores acomodara a melhor roupa de seu uso, branca e exterior. 

Procurou esse traste e achando-o em quarto próximo onde o tinham colocado, verificou-se com efeito ali estava a roupa; e teve ao achá-la grande satisfação. Tirou de si o rico chambre de seda, as chinelas de veludo; e vestiu-se com um traje mais modesto, dos que trouxera. 

Na secretária havia charutos. Acendeu um e sentou-se à janela. Sentiu-se com forças de encarar a situação a que fora arrastado, e a crise em que se achava sua existência. 

No meio das reflexões acerbas que lhe despertara a recordação da cena recente, das revoltas por muito tempo contidas de sua dignidade contra o orgulho da mulher que o humilhava, flutuava um sentimento que afinal desprendeu-se do turbilhão de seus pensamentos e o dominou. 

Esse sentimento era a intensa admiração que lhe inspirava a energia e veemência do amor de Aurélia. Havia nessa paixão que o acabava de insultar, uma beleza fera, que incutia-lhe entusiasmo cheio de espanto. 

- Não compreendi esse amor... E como podia eu compreendê-lo?... Se alguém me referisse o que se acaba de passar comigo, eu receberia semelhante conto com um sorriso de incredulidade. Que outrora, quando minha família seqüestrava a mulher da sociedade, a paixão subisse a esse auge, e absorvesse uma existência inteira... Então não havia tempo de amar-se mais de uma vez, e o amor deixava a alma exausta. Mas atualmente que a mulher vive cercada de adoradores, e que todas as distinções se ajoelham ante sua beleza, o amor não é mais do que um capricho, uma doce preferência, um terno devaneio, até que se transforme na amizade conjugal. Assim o imaginei sempre, assim o senti e me foi retribuído. Quando Aurélia me falava da sua afeição, estava bem longe de pensar que ela nutrisse uma paixão capaz de tais ímpetos. Pensava que eram romantismos. Não os tinha eu também? Não jurei tantas vezes um amor eterno, que no dia seguinte desfolhava no turbilhão da valsa? Esse amor que supunha uma ilusão de poeta, um sonho da imaginação, aí está em sua realidade esplêndida. Suas asas de fogo roçaram por minha alma e a crestaram para sempre!... 

Seixas ficou um momento como extático ante a imagem que se lhe debuxava no pensamento representando a figura de Aurélia, quando, soberba de cólera e indignação, o cobria de acerbas exprobrações. 

- Uma paixão como a sua tinha direito de ser implacável!... E essa mulher que se deu a mim com a mais sublime abnegação, essa mulher a quem a sorte ligou-me eternamente, essa mulher única, eu a admiro, e não posso amá-la nunca mais! Encontrei-a em meu caminho, e perdi-a para sempre! Também não amarei outra. Depois de a ter conhecido, não profanarei minha alma com a afeição de mulher alguma. 

Os arrebóia da manhã já se arraiavam no horizonte. Uma brisa mais frasca derramava-se no espaço, e os primeiros atitos das aves misturavam-se com os rumores confusos da cidade, que ia acordando por detrás dos muros da chácara. 

(continua...)

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