Por José de Alencar (1875)
O narrador desta singela história teve em sua infância ocasião de ver na fazenda da Quixaba, próxima à serra do Araripe, êsse aluvião de leite, na máxima parte desaproveitado pelo atraso da indústria, e que podia constituir um importante comércio para a província.
Enquanto a mulher ocupava-se com êsses misteres caseiros, o capitão-mór percorria os currais, tomando contas aos vaqueiros, mandando apartar os novilhos que era costume reservar para bois de serviço; indicando a rês que se devia matar para o gasto da casa; e assistindo a esfolar e esquartejar, no que se comprazia com a perícia dos carniceiros.
No tempo da ferra, tratava de apurar os garrotes apanhados na safra do ano anterior, escolhendo os da propriedade para deixar o dízimo do vaqueiro, segundo as condições do trato, que ainda são atualmente as mesmas em voga no sertão da província.
Com êstes e outros serviços das vaquejadas deleitava-se o capitão-mór, que achava nessa vida ativa e agitada as emoções das lides e façanhas guerreiras, para que o atría sua índole.
Mais de uma vez, quando algum touro bravo resistia aos moços do vaqueiro e acuado pelos cães no meio da várzea, bramia escarvando o chão, aceso em fúria, com os olhos em sangue, o velho capitão-mór sentindo repontarem-lhe uns ímpetos de juventude, vestia o gibão de couro e as perneiras, montava no seu ruço, e empunhando a vara de ferrão na esquerda, arremetia contra o animal, topava-o no meio da carreira, e o trazia ao curral pela ponta do laço.
Naquela tarde, não se entreteve o fazendeiro, como em outras, com a inspeção do gado; pois recolheu-se mais cedo que de costume; e sua fisionomia que só nos raros, mas terríveis, transportes de ira, perdia a calma e apática serenidade, mostrava nessa ocasião sintomas visíveis de descontentamento.
Caminhava o capitão-mór com o passo grave e pausado, medido pela cadência de sua alta bengala de carnaúba, rematada em um castão de ouro lavrado, o qual tocava-lhe pelos ombros. Sua contrariedade denunciava-se, para quem lhe conhecia a solenidade do gesto, na frequência com que êle consertava o chapéu armado, como se lho incomodasse.
D. Genoveva ia ao lado do fazendeiro e embora não escapassem à sua solicitude êstes sinais de impaciência, todavia não pensava em interrogá-lo diretamente e esperava que êle se decidisse a comunicar-lhe seu pensamento. O extremoso amor da boa senhora não se animava a infringir o respeito e submissão que tinha pelo marido.
D. Flor e Alina tinham passado adiante e já iam longe, a-pesar-da sujeição a que obrigavam seu pé leve e ágil para acompanhar a marcha lenta do capitão-mór. Atrás, mas em distância conveniente para não escutar a conversa dos donos da fazenda, seguia o ajudante.
O capitão-mór consertou ainda uma vez o chapéu armado, e retendo o passo, disse para a mulher:
— Não temos vaqueiro, D. Genoveva!
Depois do que, avançando o passo retido, continuou sua marcha para a casa. D. Genoveva, que esperara a continuação da confidência, animou-se então a perguntar:
— E o Inácio Góis?
— O Inácio Góis é um cangueiro; e mal pode consigo. Não viu o que sucedeu com a Bonina? Se lhe tivesse ido logo no rasto, como era sua obrigação, a novilha não havia de sumir-se. Mas êle nem conhece o gado de sua entrega! Pergunta-se-lhe por uma vaca, e o homem não faz senão encher as ventas de tabaco!
Contrariado e prevenido por causa do desparecimento da novilha que dera de mimo a D. Flor, o capitão-mór achara o vaqueiro em faltas que ainda mais o indispuseram.
— Desde que tivemos a desgraça de perder o Louredo, que o nosso gado anda à mercê de Deus, D. Genoveva. É tempo de pôr côbro a isso. O Inácio Góis nunca prestou nem mesmo para vaqueiro duma fazenda, quanto mais para nosso vaqueiro geral com o govêrno de todas as fazendas. Êsse lugar, nós os guardamos para o Arnaldo, que já está em idade de serví-lo; portanto, senhora, cuide com toda a presteza no enxoval da Alina, para casá-la quanto antes com o rapaz. É o que havemos resolvido.
O fazendeiro tinha parado para dizer estas palavras à mulher, cuja surpresa pintou-se-lhe no semblante.
— O Arnaldo? Mas êle não fugiu, sr. Campelo? interrogou a dona suspeitando que o marido tivesse esquecido aquela circunstância.
O velho voltou-se com ênfase para a mulher e disse-lhe fincando rijo no chão a ponteira de ouro de sua bengala:
— Há de aparecer e há de casar, que assim o determinamos, D. Genoveva.
D. Genoveva calou-se, e por algum tempo seguiu o marido silenciosamente; mas levado pelo fio das idéias, seu espírito passara a outro assunto, pois de repente voltou-se para perguntar ao marido:
— E Flor?
O capitão-mór refletiu antes de responder:
— Já temos pensado no seu futuro, D. Genoveva, disse o capitão-mór.
— Ela está com dezenove anos.
— Até os vinte não é tarde.
— Mas o noivo?
— Eis a dificuldade. Lembrámo-nos primeiro, de nosso sobrinho, Leandro Barbalho, de Pajeú de Flores. Agora com a vinda do Marcos Fragoso ao Bargado, estamos em dúvida, qual nos convenha melhor.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.