Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Sobre que é que medita um moço quando passeia com uma jovem bela e espirituosa, ou se acha junto dela sentado?... é verdade que o homem tem no coração a ambição, que o faz desejar mil coisas, que lhe pode ao longe desenhar ricos castelos, extravagantes arabescos, palácios e venturas de diversas naturezas; mas é verdade, também, que naqueles momentos parece muito mais provável que medite sobre algum pensamento que tenha bastante relação com essa moça e ele mesmo. Que pensamento será? qual é o que nesta vida põe em mais íntima relação as almas de um moço e de uma moça?... o observador, que de ordinário é um velho, lembrase do que com ele se passou no tempo do verdor dos anos, lembra-se de que não podem impunemente ver-se, e conversar, um mancebo cheio de ardor e uma donzela cheia de encantos; e finalmente o observador conhece que o moço medita sobre – amor. – A respeito da moça é ainda mais positivo.
– Senhora, disse timidamente a “Bela Órfã”, esta conversação me acanha....
A velha pareceu não ter ouvido o que lhe acabava de dizer Celina e prosseguiu:
– Em que pensará a menina de dezesseis anos?... ela não é ainda esposa para cuidar na constância de seu marido, e observar como é que ele olha, como é que ele fala às outras senhoras; ela ainda não é mãe para entregar-se toda inteira ao cuidado de seus filhos, para viver para eles de dia, e velar por eles de noite; em que pensará pois, ali sentada ao pé de um belo moço, ou com ele passeando?... pensará nos vestidos de suas bonecas?... no romance que está lendo?... meditará sobre sua lição de desenho?... sobre a cavatina que nessa noite pretende cantar?... sobre seus enfeites para o próximo serão? Mas nisso não medita a moça tristemente. Há, porém, para a jovem de dezesseis anos, que é ainda solteira, uma meditação acompanhada de tristeza, que não amarga, de melancolia que é doce como a saudade, e que se chama – amor: – sim, minha filha! sempre que a moça solteira está meditando, medita sobre amor. Vós ambos meditáveis esta tarde, e estais meditando ainda agora sobre amor.
– Senhora! exclamou Celina.
– Minha mãe! exclamou Cândido.
– Negais o que eu digo? perguntou a velha.
– Nego, disse rapidamente o mancebo.
– Enganou-se, respondeu com timidez a moça.
– Pois eu vou demonstrar que não; vou provar que conheço vosso coração mais do que vós mesmos; ou antes vou demonstrar isso somente à senhora, porque tu não podes negar, Cândido.
– Oh! minha mãe! por compaixão não abuse do meu estado!
– Senhora, Deus e a educação da virtude, tinha até bem pouco conservado o seu coração em toda a virgindade da inocência. Até bem pouco a senhora sabia o que era o galanteio; porque nesses poucos bailes a que tem ido, e nas reuniões que se fazem em sua casa, os cavalheiros que lhe cercam, lhe dizem finezas, e provavelmente a requestam; tem pois ouvido muito falar em amor; não o compreendia, porém, porque não o havia sentido. Corava pelo que lhe diziam, mas não corava de si; também é só assim que pode corar a inocência.
Sem o pensar, Celina estava ouvindo atentamente o que dizia a velha.
– Enfim, senhora, este mancebo apareceu, seu desvalimento, sua pobreza, a palidez de seu rosto, que parece indicar íntimo sofrimento, sua melancolia habitual, que quase dá o caráter de verdade à suspeita de suas penas, eram suficientes para recomendá-lo à alma das virtudes; mas além disto seus tios o trataram com amizade e confiança; e sobretudo, a senhora quando o viu pela primeira vez, viu-o onde?... como?... viu do meio dos túmulos e de joelhos, orando junto à urna que guarda as respeitáveis cinzas de seus pais.
– É verdade! é verdade!... exclamou a “Bela Órfã” com vivo acento de gratidão.
Uma onda de prazer indizível rolou sobre o coração do mancebo, e foi desfazer-se em leve sorriso, que dilatou por um momento brevíssimo seus lábios.
– Desde então, prosseguiu Irias, desde esse momento, quando no silêncio de seu quarto, ou nas fantasias do seu leito, a imagem deste mancebo se lhe desenha no espírito, não é, a senhora deve-se estar lembrando, não é sob a forma de um lindo jovem, vestido de brilhantes e custosas galas... não, a senhora não o quer assim, não o quer fidalgo nem príncipe, não o quer rico nem deslumbrador, a senhora o quer, a senhora o vê sempre abatido, pálido e melancólico, de joelhos junto ao túmulo de seus pais.
– É verdade!... é verdade!... exclamou com lágrimas nos olhos a “Bela Órfã”.
Cândido, enquanto Celina atendia exclusivamente à velha, devorava com ardentes vistas as pérolas de ternura que se escapando dos olhos da moça, pendiam de suas faces viçosas, como gotas de água límpida, caídas em pétalas de rosa.
Irias continuou:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.