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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Pois, para dar-lhe uma fraca prova do que disse, eu propus fazê-la ouvir ser chamada feia por algum, ou alguns dos que durante a noite lhe juraram que ela era encantadora.

— Pois a senhora duvida disso?...

— Não; mas sempre quisera ouvir.

— Nada é mais fácil; mostre-me alguns desses senhores...

— Aqueles dois que ali conversam...

— Oh! por minha vida! exclamou Úrsula; são meus apaixonados!... mas... separemo-nos... e por enquanto, minha senhora, sou a sua maior inimiga!... Raquel, toma cuidado no meu lenço, ouviste?

— Vai... e apressa-te.

Cinco minutos depois a espertinha D. Úrsula, que se achava no vão de uma janela com outra moça, cercadas por alguns cavalheiros, fez com seu lencinho branco um sinal a Raquel.

— Agora, vem cá, disse Raquel a Honorina.

E, dando uma volta para não serem vistas, as duas moças espremeram-se na janela contígua àquela em que estava Úrsula.

A discussão já tinha começado. Os dois moços, que Honorina havia mostrado, estavam lá. — Mas eu digo, falava Úrsula, que ela deve estar bem orgulhosa! tem sido tão incensada... tão requestada... eu não sei mesmo por quê...

— Porque é uma novidade...

— Tem dançado por empenhos!...

— Ora, minha senhora, também isso é exageração...

— O Sr. Daniel e o Sr. Jônatas, por exemplo, morriam de paixão se não tivessem dançado com ela!...

Os dois rapazes começaram a dar satisfações, e tentaram livrar-se da moça, jogando a arma feliz, com que quase sempre se faz as pazes com uma senhora... fazendo-lhe elogios.

— Em todo o caso, D. Querubina, continuou Úrsula falando com a moça que lhe estava ao pé, nós devemos estar descontentes, e mesmo despeitadas; aquela senhora foi uma aparição terrível, que nos veio fazer mal... nós nos temos achado sós toda a noite!...

— Que injustiça! bradou Jônatas, eu não me lembro de haver jamais perseguido tanto V.

Ex.ª como hoje!...

— Eles fizeram uma comparação entre nós e ela, e a declararam princesa; concedendonos, talvez por compaixão, o grau de suas vassalas!...

— Meu Deus!... meu Deus!... como se julga mal de um pobre homem!...

— Paciência, D. Querubina, paciência!... é preciso ceder a palma à beleza do dia... o nosso reinado passou...

— Mas quem é a beleza do dia?... perguntou Daniel.

— Quem?... o seu par da segunda contradança...

— Misericórdia!...

— Nega que os senhores a têm achado a mais bela moça do sarau?...

Daniel olhou para Jônatas.

— Nego! disse Jônatas.

— Seria uma blasfêmia!... disse Daniel.

— Oh! eu os compreendo! ao pé de mim fala-se desse modo; mas daqui a pouco os senhores se vingam, desfazendo-se em elogiar a sua figura...

— Figura sem expressão, minha senhora, disse Daniel torcendo o nariz.

— A sua beleza...

— Que beleza!... é uma flor desbotada... sem aroma... disse Jônatas.

— O seu espírito...

— Espírito?... espírito de mudez: é uma estátua.

— Uma estátua... sim, meus senhores; estátua de Vênus, é o que querem dizer...

— Pois bem, tornou Jônatas, uma estátua de Vênus feita por mãos de escultor calouro.

— E o Sr. Daniel, que é tão apaixonado da cor pálida...

— Sim... aprecio, amo muito a cor pálida... como, por exemplo, a de V. Ex.ª; porém a dela...

— É transparente... diáfana... romântica...

— Repulsiva... repulsiva, disse Daniel.

— Repulsiva?...

— É uma defunta viva, minha senhora! acrescentou Jônatas.

As duas moças começaram a rir-se; e os dois cavalheiros continuariam a dizer ainda melhores coisas de Honorina, se a orquestra não os chamasse para a quinta quadrilha.

Portanto uns e outros se separaram, e um momento depois Úrsula estava junto de Raquel e Honorina.

— Então?... perguntou a Honorina.

— Agradeço-lhe muito, minha senhora: juro-lhe que foram os minutos mais agradáveis que tenho passado esta noite.

— É verdade, Úrsula; a nossa Honorina ouviu tudo com o ar mais divertido do mundo.

— E hesitará em divertir-se também com eles?...

— Oh! não!... não, minha senhora!... muito simples deve ser a mulher que não souber fazer de um homem um bobo com quem se ria!

— Bem!... bem!...

— Honorina, disse Raquel, eis um dos teus apaixonados.

— O Sr. Jônatas...

— Que te chamou defunta viva.

— Vem buscar-me para dançar com ele, tornou Raquel.

Jônatas chegou e ofereceu a mão a Raquel.

— Senhor Jônatas, disse Úrsula, apresento-lhe a mais bela aquisição de nossas assembléias, a minha nova e querida amiga, a Sr.ª D. Honorina: não concorda que é uma jovem encantadora?...

— Apareceu-nos, senhora, como um anjo caído do céu!...

Honorina levou o lenço à boca... mas foi impossível suster-se: soltou uma risada.

XIV

Fim do sarau

No fim da quinta quadrilha Lucrécia sentou-se junto de Honorina, e esperou ansiosa pelo momento de sua vingançazinha de moça. Quando a orquestra deu o sinal desejado, ela lhe perguntou:

— Com quem dança esta quadrilha, minha senhora?...

— Juro-lhe que me não lembro; eu não conheço aqui ninguém; pediram-me contradanças... disse que sim; e espero que me venham buscar.

— Oh! quisesse o céu que ficasse sentada, Honorina, eu não danço agora, e passearíamos sós.

— Raquel, eu também o desejo; mas tenho medo de o desejar em vão.

(continua...)

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