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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

Adelaide dera-lhe a maior prova que uma mulher pode dar ao marido de não estar em via de aumentar a espécie humana, e ele resignara-se. Vendo-a, porém, definhar, emagrecer, e estranhando-lhe certos hábitos, como o de acordar alta noite, sobressaltada, o de não comer com o mesmo apetite de quando tudo andava em ordem naquela casa, e, principalmente, o de amofinar à mais leve contrariedade, chorando às vezes, como uma criança, quando ele lhe fazia qualquer censura — vendo-a nesse estado de desequilíbrio nervoso, pensou em chamar médico.

— Por amor de Deus, Evaristo, não faça tal coisa! — rogou Adelaide.

— Por quê? Não andas doente? Não te queixas tanto?

— Pelo amor de Deus! O que eu quero é ir-me embora do Rio de Janeiro, ainda que seja para um deserto! Arranquem-me daqui, tirem-me deste inferno — é o que eu quero...

Evaristo, meio intrigado com aquela relutância da esposa, com aquela idéia fixa de deixar o Rio de Janeiro - ela, que a princípio tanto encanto achava nele refletiu, tornou a refletir, sacrificando, nesse duro trabalho mental, as guias do bigode, que lhe não era muito farto, e optou pelo regresso a Coqueiros. Adelaide queria, não é assim? Fiat voluntas... Em primeiro lugar estava ela, sua mulher, depois o Rio de Janeiro.

Franqueza, franqueza... ele também se dera muito mal no Rio. Hipocrisia, hipocrisia e mais hipocrisia era o que a gente encontrava. O próprio Luís Furtado e a própria Sra. D. Branca o que eram, senão uns hipócritas? O visconde, o desembargador, o Condicional, o Pessegueiro... tudo uma corja de hipócritas! Adelaide tinha muita razão, muitíssima razão.

E sempre agitado, esfarelando o bigode, tomou o primeiro jornal que lhe caiu nas vistas.

— Que dia é hoje?

— Primeiro de maio.

— Ah... Bem; no dia dez temos vapor para o norte...

— Estás resolvido, então?...

— Mais que resolvido. Não podemos continuar nesta terra... tu, porque andas com a saúde arruinada, eu, porque tenho arruinado o espírito... De um lado o corpo, doutro lado a alma. O Rio é muito bom, sim senhores, mas para quem tem flexível a espinha dorsal e o caráter. Preparemos a trouxa!

Adelaide ficou olhando o marido, com um risinho seco e incrédulo à flor dos lábios, a mão no queixo, a cabeça inclinada numa pose de modelo vivo.

— Por que me olhas com esses olhos tão admirados? — perguntou o bacharel agarrado ao Comércio do Rio.

— Por nada...

— Já disse: preparemos a trouxa. Amanhã vou me despedir do Banco e telegrafar ao Rocha.

Adelaide continuava a olhar Evaristo, sem o compreender, sem compreender toda aquela precipitação.

— Não me venhas com histórias... — tornou ele.

— Mas...

— Que mas o quê! Para longe deste inferno! para longe desta porqueira!

Vive-se melhor, mais barato e mais honradamente na obscuridade da província, criando galinhas ou plantando jerimuns. Estou farto de aturar a pedantocracia de Botafogo e do Sr. Luís Furtado. Um bacharel em direito vive em qualquer parte do mundo: vou advogar, vou esperar a República no sertão!

— O que eu quero dizer é que não te precipites, Evaristo. Façamos as coisas com jeito, sem desgostar a ninguém. Olha que devemos favores ao Sr. Furtado, à D. Branca...

— Adeus, minhas encomendas! — disse o bacharel erguendo-se e atirando o jornal para o lado. — Quem te afirmou o contrário? É verdade que devo muitos favores àquele bigorrilha, inclusive os duzentos mil réis que me emprestou já lá vai um ano; mas porque nos não cobrou? Negócio é negócio. Agora, daí não segue-se que lhe devo beijar as mãos como um cachorrinho de grisette.

— Evaristo!

— Digo e torno a dizer: não sou um cachorrinho de grisette para andar beijando as mãos a fidalgos!

— Fala baixo!

— Estou falando mais baixo do que costumo...

E encerrou-se a discussão entre Evaristo de Holanda e a mulher naquela tarde melancólica demais, ao crepúsculo.

Adelaide não dormiu, pensando na brusca resolução do marido e em mil e tantas coisas fúteis que aos olhos de uma mulher inexperiente como ela, e como ela supersticiosa, adquirem estranhas proporções. Mas no meio de todas essas coisas erguia-se o vulto de um homem, que não era o Holanda, que absolutamente não se parecia com aquele que ali estava a seu lado, na cama, e de novo um extraordinário medo apoderava-se dela, um pavor inexplicável, uma covardia criminosa, que a obrigava a abrir e fechar os olhos intermitentemente... Era o vulto do secretário... "a tentação", chamando-a para o mistério do gozo e para a desonra, num apelo fidalgo de cavalheiro do Amor, num requinte donjuanesco de volúpia mundana... Sim, era ele, era. Luís Furtado acenando-lhe com a felicidade efêmera de um instante, ajoelhando-se-lhe aos pés e suplicando um beijo, uma palavra de amor, um movimento de simpatia... E ela, inconscientemente, fechava os olhos para o ver melhor, e naquele sonhar acordada, ia-se-lhe a alma, num vôo rápido e traiçoeiro para o marido de D. Branca... Depois voltava ao corpo donde saíra, e logo a jovem esposa do bacharel abria os olhos, trêmula de medo, arrependida como se houvesse praticado uma ação má.

(continua...)

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