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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

— E Macário, de servilhas e em mangas de camisa, foi abrindo a porta da alcova à luz suave da manhã. Padre Antônio acordou do sono que o dominara por alta madrugada, depois de uma longa noite de vigília. Já seis horas! As janelas da sala, abertas de par em par, ofereciam franca passagem à brisa úmida repassada de aromas sutis de flores campestres. Da rua vinha um rumor vago de portas que se abriam e de vozes raras e espaçadas. Ao longe chiava um carro de bois, descendo para o pasto, sob o aguilhão do lenhador que fornecia os depósitos da Companhia do Amazonas. No quintal da Luísa Madeirense um galo cantava batendo com força as asas.

— Já seis horas! repetiu padre Antônio, puxando até o pescoço o lençol da cama, numa sensação de frio e sono. Passara mal a noite, e depois, que lhe importava a hora, pois que nada tinha a fazer naquele dia? O melhor era encostar as janelas e aprontar-lhe o café para as oito horas. Sentia-se cansado e moído, ia talvez cair doente, um grande torpor apoderava-se-lhe do corpo, tinha dores vagas, palpitações, um grande peso na cabeça, o melhor era descansar, já que com isso nada perdia o serviço da paróquia.

Macário insistiu. Eram seis horas dadas, e se os hereges maçons abandonavam a vila ainda havia almas cristãs que precisavam do ministério de S. Rev.ma. A Chica da Beira do Lago, aquela velhinha devota, andava mal de sezões e mandava pedir a S. Rev.ma que a fosse ouvir de confissão à sua casa, visto como a moléstia não lhe permitia vir à igreja. E V. Rev.ma devia fazer esse serviço já, a tempo de voltar para o almoço, evitando o sol ardente de junho.

— Um quarto de légua! murmurou padre Antônio, voltando-se para o lado da parede; um quarto de légua na ida, outro na volta, meia légua pelas lamas do caminho do lago!

E acrescentou, como para desculpar-se daquela lamentação que a preguiça lhe arrancara:

— A Chica nada tem que a impeça de vir à vila e a obrigue a confessar-se com tanta urgência. É uma alma simples, gosta de confessar-se todas as semanas, coitada!

E depois, com um largo bocejo, retalhado de cruzes sobre a boca:

— Aposto que padre José não se dava a estas maçadas!

Padre José era padre José, e S. Rev.ma é padre Antônio de Morais, redargüiu Macário com leve impaciência. Também o defunto vigário cantava e dançava lundus e S. Rev.ma não o fazia. Padre José mandava presentinhos às moças, passava os dias aos lagos, ao tempo das salgas, o dinheiro não lhe chegava, porque tinha às três e quatro por sua conta, era uma bandalheira! Ao passo que S. Rev.ma era conhecido como um sacerdote exemplar e o próprio Chico Fidêncio não o negava, posto tivesse o arrojo de dizer que aquilo era manha ou acanhamento de padre novo, que passaria com a idade. Um patife aquele Chico Fidêncio, uma pedra de escândalo para a população, ateu, desbocado, mal-dizente e amancebado!. Era o causador de todos os males da vila, o autor de todas as desgraças, o enredador-mor de todas as tramas e intrigas, aquele excomungado Chico Fidêncio! Por causa dele brigara o Valadão com o Bernardino Santana, a fogo e sangue. Ele instigara o Totônio a desobedecer ao pai, que o queria mandar para o Liceu, a teimar em casarse com a sobrinha do Neves. O Manduquinha Barata e o Pedrinho Sousa estavam perdidos por culpa dele. Levantara a oposição ao confessionário, impelira o povo a fugir para os castanhais, desamparando a vila e fazendo ouvidos de mercador às prédicas de S. Rev.ma. Era um patife! Era pena, realmente, que um homem tão instruído fosse tão perverso, mas enfim em algumas coisas, forçoso era confessá-lo, o Chico Fidêncio tinha razão e as suas correspondências diziam a verdade, por exemplo, quando falava das bandalheiras do defunto padre José, que Deus houvesse.

— Enfim, terminou Macário, padre José está dando conta do que fez e a velha Chica esperando que V. Rev.ma a vá confessar. Levante-se V.Rev.ma, que o estou desconhecendo hoje, e faça a caridade que lhe pede a pobre da velha, para que morra em paz com Deus.

Padre Antônio, levantando-se de súbito, como se tivesse acabado de tomar uma resolução longamente meditada, fixou a vista no rosto do sacristão:

— Sabes que estou decidido a fazer uma missão ao porto dos Mundurucus?

— Nos mundurucus! exclamou Macário, atordoado com a inesperada revelação. Nos mundurucus! repetiu com pasmo. Mas saberá V. Rev.ma que nos mundurucus não há alma cristã?

Sabia-o perfeitamente, e fora por isso mesmo que formara aquela resolução. Desejava ir ao porto dos Mundurucus, converter os selvagens, trazê-los ao seio da religião católica, e ao mesmo tempo libertar o Amazonas dessa terrível praga de índios bravos que lhe entorpecia o progresso.

(continua...)

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