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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

— Ora se sei... Vai ver... Amanhã, se Deus quiser... Não; o melhor é não dar à língua... Espere...

E Teresinha, muito lenta, muito lânguida, entrou a murmurar, baixinho, com uma ternura tiritante, uma canção, da qual Luzia distinguiu bem esta quadra:

A traição, meu bem, ature:

Diga que é cega e não sabe,

Não há mal que sempre dure,

Nem bem que nunca se acabe ...

CAPÍTULO XIX

Teresinha voltou, no dia seguinte, ao beco da Gangorra, à hora da revista, quando os soldados estavam reunidos no quartel, estabelecido em uma velha casa fronteira à cadeia. No sobressalto de quem se esconde, esgueirando-se para evitar a curiosidade da vizinhança, entrou no quarto, e se fechou por dentro. O silêncio aumentava-lhe o susto. Foi preciso repoisar para adquirir coragem.

A porta, que dava para o quintal, estava entreaberta, como ficara na véspera. O caixão velho lá estava, regurgitando de traços, lavado de luz intensa, um contraste da penumbra do aposento, sem o menor sinal de haver sido desviado, ou da presença de ser humano naquele sítio.

Com o peito ofegante, pálida de aflição, o ouvido atento ao menor ruído, a moça ajoelhou, e, com um esforço sobreposse, ergueu um dos ângulos do caixão, muito pesado, muito cheio; e, sustentando-o de encontro ao ombro, fendeu com mão trêmula, o espaço entre o fundo e o chão. Seus dedos crispados experimentaram repugnante contacto. Retirou, rapidamente, a mão, como se a houvesse passado pela polpa ascorosa de um réptil. Um calefrio varou-lhe os membros, as forças abandonaram-na, e o caixão caiu, percutindo o solo com um som cavo.

Transida de pavor, ela esperou alguns momentos, imóvel e atenta, sempre de joelhos, apoiada ao muro. Recobrado o ânimo limpou com a fímbria da saia o copioso suor que lhe inundava o rosto, respirou agoniada, como se lhe faltasse ar; abanou-se com o vestido, movendo de um para outro lado a cabeça, quase desfalecida. A bolsa de Crapiúna estava ali. Não havia dúvida; ela havia sentido o contacto eletrizante dos pêlos do coiro de onça. Aguilhoada pela curiosidade de examinar-lhe o conteúdo, não ousou de fazê-lo: seus músculos flácidos e fatigados não poderiam repetir a exploração. Além disso, começou a sentir a dolorosa junção inguinal e o aperto do peito, que a acometia toda vez que era assaltada por fortes abalos.

— Ah!... Se eu fosse mulher de talento, como Luzia - murmurou, desalentada, erguendo-se a custo.

Certa da permanência da prova do crime, restava escolher meio de utilizá-la. Seria necessário surpreender Crapiúna ali, quando voltasse em busca de dinheiro e obter o auxílio de um homem bravo e forte, capaz de entestar com o soldado, prendê-lo e conduzi-lo à presença da autoridade. Lembrou-se de Raulino Uchoa que era vigoroso e arrojado, quando menos pela brava fascinação das histórias que contava da vida aventurosa. Era, demais disso, amigo de Alexandre e devotado a Luzia, que o salvara dos chifres do toiro sanhudo. Era, porém, indispensável que ela e ele ficassem escondidos de tocaia, esperando, horas, talvez dias inteiros, a ocasião propícia.

Ocorreu-lhe, então, procurar o sargento Carneviva, que ela o sabia em excesso rigoroso para com os soldados, e andar muito prevenido com Belota e Crapiúna, por serem jogadores incorrigíveis. A essa idéia, duma felicidade que farte, ela vibrou de júbilo, ela vibrou de cólera, misturados, na mesma expansão impetuosa, os nobres anelos de vitória e antegozo cruel da vingança.

— Hás de Pagar o novo e o velho – exclamou ela, com ameaças, e triunfante – Hei de mostrar, ladrão safado, quem é tábua de bater roupa e quanto vale esta cachorra!...

E partiu em busca do sargento.

A essa hora, estava Luzia trabalhando na oficina de costuras do morro do curral do Açougue.

Confiara-lhe Dona Inacinha a superintendência das meninas taludas, depois de verificar a sua perícia, o seu exemplar procedimento, o recato de maneiras e linguagem, tão raros naquela quadra de carência de nutrição física e moral. Seria ela um exemplo vivo para aquelas pobrezinhas, condenadas à mendicidade, órfãs ou abandonadas pelos pais, expostas ao contágio da infecção, que diluía as baixas camadas da sociedade, desfibradas pelo inominado flagelo.

(continua...)

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