Por Aluísio Azevedo (1881)
E, numa comoção de pintor, amarrotando entre os dedos o seu chapéu de feltro, parecia beber avidamente, pelos olhos deslumbrados, aquele maravilhoso nascimento do sol meridional de junho. Depois, sempre emocionado, segurava o braço da prima, chamando a atenção desta, sem despregar a vista da paisagem, para o lindo efeito da luz, filtrada por entre as folhas, na espessura das árvores; para as gotas de orvalho, que cintilavam como diamantes; para a esfogueada selagem dos planos afastados; para a luminosa cercadura dos casebres ao longe, em torno dos quais pasciam bois e acogulavam-se carroções com grandes feixes de capim novo.
E vinham do campo para o mercado da cidade enormes tabuleiros de hortaliças, gotejantes da última rega, e pirâmides de ramalhetinhos de vintém, para se vender às mulatas; e cofos de frutas, que espalhavam no ar um perfume desenjoativo; e matutos traziam. dependuradas de um pau sobre o ombro, as pacas e as cutias, caçadas no mato; e os carros da roga passavam gemendo, com as suas imensas rodas inteiriças; e os caboclos, seguidos pelas mulheres e pelo bandão dos filhos, num passo sacudido e ligeiro, chegavam da Vila do Paço e de São José de Ribamar, muito carregados, depois de engolir léguas e léguas a pé descalço, para vir vender à boca do Caminho Grande o seu peixe pescado e mosqueado na véspera, os seus beijus fresquinhos, o azeite de gergelim, a massa de água, a macaxeira e os bolos de mandioca.
Ana Rosa não parecia a mesma daqueles últimos tempos: estava alegre, despreocupada; dir-se-ia ter voltado a um dos seus dias de colégio. Os ventos gerais como que lhe levantaram o véu das suas melancolias de donzela e arejaram-lhe o coração com uma rajada.
— Deixe lá a paisagem, e dê-me o braço, primo! disse ela arquejante, tendo ido de carreira comprar tangerinas à mão de um roceiro. Ah!... cansada!
E, sem poder falar, prendeu-se ao braço de Raimundo. Este vergou-se sobre ela, depois de contemplá-la muito.
— Sabe? segredou-lhe, você hoje está bonita como nunca, minha prima!
Suas faces são duas rosas!
— F debique seu... Se me achasse bonita, já me teria pedido a papai...
— Confesso que nunca a vi tão linda...
— São os ventos gerais! Limparam-lhe os olhos!...
— Não diga brincando! Quer que lhe confesse Uma coisa?... Não sei que singular efeito me produz esta manhã. F esquisito, mas eu mesmo me desconheço! Sinto-me transformado! A idéia, por exemplo, da minha sisudez habitual, dessa gravidade exagerada, de que por mais de uma vez a prima se queixou a mim próprio parece-me agora tão pueril e ridícula como o estilo do Freitinhas e o orgulho do Sebastião Campos! F exato! Creia que neste instante lamento não ser mais expansivo mais alegre mais rapaz! Deploro ter esperdiçado tantas madrugada a estudar, a matar-me de trabalho; ter adormecido esfalfado ao raiar do dia quando os outros se levantavam satisfeitos e confortados. Com franqueza toda a obra de uma geração inteira de investigadores da ciência; tudo quanto ensinam as melhores academias, não vale a boa lição que em algumas horas de passeio ao seu lado me dá a natureza, a grande mestra! Com esta única lição renasce-me a mocidade que eu estupidamente me empenhava em sufocar! Sinto-me disposto a ser feliz, sinto-me capaz de amá-la, minha querida amiga!
Ana Rosa abaixou o rosto, afogada em pejo e contentamento, sem querer interrompê-lo, para não desperdiçar uma só daquelas palavras, que lhe faziam tanto bem. O que Raimundo lhe dizia dava-lhe vontade de chorar e cair-lhe agradecida nos braços, traduzindo em beijos todas as ternuras, que o pudor vedava aos lábios proferissem.
Haviam parado, junto um do outro; batia-lhes em cheio no rosto o sol nascente. Emudeceram. O moço tomou-lhe as mãos, e os dois fitaram-se com um juramento nos olhos, e r ao falaram mais em amor, enquanto esperavam por Manuel e Mana Bárbara, que de novo se tinham posto a caminhar.
Meia hora depois chegavam todos ao sitio. Raimundo fazia pasmar com o seu bom humor confessava-se no momento mais feliz da sua vida; deu até para brincalhão e ferrou, ao entrar na casa, um abraço em D. Amância, que viera recebê-los à porta A velha afastou-se, benzendo-se:
— Credo! Pra lá mandado!
Ela já lá se achava, desde a véspera, preparando tudo, arrumando, dando ordens, ralhando, prometendo castigos, como se estivesse em fazenda própria e cercada de escravos seus.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.