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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

- Sim, senhora; o plano é engenhoso e faz honra ao teu espírito, mas convém saber se terás bastante energia e bastante perseverança para realizá-lo...

- Não me conheces!

- Oh! se conheço!... Vocês, pobres filhas do vicio, são como os ingleses: por mais que viagem, por mais que se demorem nos países estrangeiros, tem sempre o sentido, a alma e o pensamento voltados para a pátria! Veio-te agora a fantasia de dar um passeio pelo amor, mudaste de roupa, tiraste as jóias, tomaste para disfarce esse modesto vestidinho de chita, e desferiste afinal o vôo; mas, se quiseres falar com franqueza, hás de confessar, minha querida, que a tua alma não se prende a esta pobre casinha sem espelhos, sem tapetes e sem as fosforescências do luxo; tua alma ficou lá donde partis-te! Apenas trouxeste a imaginação para uso da viagem! Eu seria capaz de apostar a cabeça em como a tua primeira idéia, quando resolveste fazer tudo isto, não foi o amor, nem a ambição, mas pura é simplesmente calcular o efeito que semelhante fantasia iria produzir sobre as tuas companheiras e sobre os teus admiradores!... - Que dirá fulana quando souber?... Que dirão fulanos e beltranos?... Com certeza hão de achar-me original, caprichosa, uma verdadeira heroína de romance..." E, se manhã suceder que as tuas companheiras e os teus amantes, em vez de enxergarem na tua regeneração uma fantasia original, entendam que te regeneraste por necessidade, que te fizeste sóbria e modesta por já não poderes ser extravagante e opulenta; se eles julgarem assim, filha, juro que a tua mal-entendida vaidade de cortesã despertará furiosa, e então tu, para provares que não és inferior a nenhuma das tuas competidoras, voltarás fatalmente ao primitivo estado!

- Cala-te!

- Ah! bem sabes, minha Leonília, que as recaídas são sempre muito mais perigosas doque a própria moléstia!..

- És cruel!

- Não; sou apenas sensato!

- E de que pretendes me convencer com a tua sensatez?

- De que não acredito em semelhante reabilitação!

- Nem no meu amor?

- Nesse acredito. Não que ele dure muito tempo, mas acredito que ele exista agora. Toda a mulher ama sempre; algumas dedicam-se a um só homem durante a vida - são as constantes; outras gostam de variar - são as do gênero a que pertences. Mas, no fim de contas, todas elas amam, naturalmente, sem esforço, por uma fatalidade orgânica, sem haver nisso outro mérito mais do que se obedecessem a qualquer uma das funções fisiológicas do seu corpo.

- Pois então no amor que te consagro, cujas provas reais acabo de dar-te, pão há mérito algum?...

- Não digo isso, filha! há um mérito relativo no que acabas de fazer; apenas sustento que o amor, qualquer que ele seja, não me causa entusiasmo nem admiração de nenhuma espécie. Se não me amasses, amarias a outro; amas-me, não porque eu seja forte, inteligente ou bom. mas sim por uma razão multo simples - porque és mulher! O caso seria para espantar. se em vez de te apaixonares por mim, te apaixonasses por uma estatua ou por uma árvore ou por um elefante ou por esta bengala!

- Enganas-te! Amo-te, não pelo simples fato de ser mulher. mas porque tu reúnes em ti todos os dotes que nos seduzem; és nobre e altivo como um príncipe; és forte e corajoso como um homem; és belo como uma estátua; original como um gênio; e espirituoso como um parisiense; e tudo isso reunido: força, altivez, beleza, espírito e 0riginalidade, tudo Isso é o que eu amo e o que faz de mim a tua escrava!

- Logo, se eu fosse feio, estúpido e fraco, não me amarias?

- Não, decerto.

- E é esse amor que entendes tu, deve me entusiasmar?... Tem graça'

- Por que?

- Nada conheço mais egoístico, mais buxo e mesquinho do que semelhante amor! No fim de contas não é a mim que amas, é a ti própria; não é a mim a quem pretendes contentar, é ao teu próprio gosto, e ao teu próprio coração! Se te sacrificas por mim, se me preferes a tudo e a todos, não é porque eu goze muito com isso, mas sim porque tudo isso é necessário para a tua felicidade; e se me desejas o bem, é ainda para que a minha ventura se reflita sobre ti; é para que tu a possas desfrutar, para que a possas saborear com delícia!., Não achas que isto é exato?...

- E conheces porventura algum amor que não esteja nessas condições? perguntou Leonília. Olha em terno de ti; procura em todos os corações um amor que não tenha sempre por base o mesmo egoísmo!

- O amor materno... respondeu Teobaldo, transpondo com a amante o portão da chácara e indo assentar--se ao lado dela sob um caramanchão. A mãe ama sempre o filho, seja este feio, estúpido ou mau.

(continua...)

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