Por Aluísio Azevedo (1882)
Todo ele era inchação, tosse, reumatismo e maus humores. Já não podia beber um trago sem ficar logo embriagado e trêmulo. E, sem roupa, sem dinheiro, sem vontade de viver, escrofuloso e porco, arrastava-se pelas tavernas, dormia pelas calçadas, bebia nos chafarizes e pedinchava pelas casas de pasto.
Neste estado, dormitava uma tarde nos bancos do Passeio Público, quando ouviu perto de si a conversa de dois tipos, que falavam animadamente. Um era o comendador Portela; o outro o leitor reconhecerá depois.
— Mas onde estão os papéis?... perguntou o Portela, chegando a boca ao ouvido do companheiro.
— Estão ainda no hotel do Caboclo, dentro da minha mala: Posso ir buscálos hoje mesmo e entregá-los ao senhor, contanto que, no ato da entrega, o amigo...
— Caia com o continho de réis!... Está dito, pode ficar descansado! Leve-me os papéis e terá o dinheiro!
— Bem, vou então buscar a mala, prometeu o sujeito ao comendador; e levo-lhe depois os documentos.
— Ou então, olhe! o melhor é seguirmos juntos; vamos lá para casa, e mandamos buscar a mala por uma pessoa de confiança. Lá no hotel saberão entregá-la?
— Isso é o menos. Não tenho outra malinha de ferro em meu quarto, mas, é que certos objetos não devemos confiar a ninguém...
— Bom! bom! volveu o comendador; escusa de desconfiar com a gente! Já cá não está quem falou. Vá você mesmo buscar a sua mala...
E os dois, depois de conversarem ainda por algum tempo, saíram vagarosamente do Passeio Público.
Mas, Pedro Ruivo, que ouvira toda a conversa, havia já disparado com direção ao hotel do Caboclo.
CAPÍTULO XV
AVENIDA ESTRELA
Pedro Ruivo, chegado que foi ao hotel, tratou logo de saber reservadamente como se chamava o hóspede que ele vira a conversar no Passeio Público com o comendador Portela.
— João Rosa, disseram-lhe.
O embusteiro dirigiu-se então ao gerente da casa e explicou-lhe que a pessoa daquele nome mandava que lhe entregassem ali uma pequena caixa de ferro, que estava no seu quarto.
— Vá você mesmo buscá-la, respondeu o gerente. É aquele o quarto.
E mostrou uma porta ao fundo de um corredor sombrio e mal arejado.
— A chave! reclamou Pedro Ruivo.
— A chave? pois você não a traz? O hóspede desse quarto nunca a deixa no hotel...
Pedro Ruivo deu aos diabos a sua má estrela. Queixou-se de João Rosa, do gerente, de si próprio, e afinal desceu muito desapontado as escadas e colocou-se à porta do hotel, para ver se mariscava alguma coisa.
— Ora bolas! dizia ele consigo; quando um diabo dá para caipora é isto que se vê!...
E reconhecendo João Rosa em um sujeito que acabava de entrar, apartouse, receoso de que descobrissem a sua tentativa de há pouco. Todavia ninguém no hotel notou sequer a rápida entrada e a imediata saída daquele. Fora simplesmente buscar o cofre ao seu quarto. Pedro Ruivo estava assentado ao canto, quando o viu passar todo atarefado a sobraçar o precioso cofre.
— Ali vai o meu tesouro! resmungou o gatuno e, ferido por uma idéia súbita, levantou-se rapidamente, tirou o chapéu e disse ao Rosa com uma doce voz de bom homem: Ó patrãozinho! dê esse carretinho a ganhar à gente! V. S. vai aí a molestarse...
João Rosa hesitou a princípio, mas julgando bem do peso do cofre pela má impressão que principiava a sentir no braço, perguntou ao carregador quanto queria para levá-lo até à rua Direita e, depois de ajustar, passou-o para as mãos do Ruivo.
Quem visse o modo simples pelo qual este recebeu aquele objeto; o ar modesto com que ele, de pé, esperava humildemente que o outro abrisse caminho, não seria capaz de suspeitar nem de leve das suas intenções.
O Rosa seguiu adiante, Ruivo acompanhou-o a pequena distância; mal porém tinham feito uns quarenta passos, já o último se havia enfiado pela porta de um café, que ficava na esquina, e saído pela porta da outra rua, enquanto Rosa mais adiante o procurava com a vista.
Pedro Ruivo ganhou a primeira viela da Cidade Nova, meteu-se no primeiro bonde que passou, e seguiu para o Rio Comprido. Só parou defronte da antiga estalagem da Avenida Estrela. Ele aí não conhecia ninguém, mas o aspecto do lugar pareceu-lhe magnífico para um segredo. Entrou.
A Avenida Estrela é uma velha chácara situada ao sopé de umas montanhas que ficam à esquerda de quem sobe o Rio Comprido. Há na entrada um grande portão de ferro, talhado entre um extenso gradeamento, onde de espaço a espaço avultam colunas de pedra e cal, quadradas e encimadas por uma espécie de tulipa aberta para o céu. Algumas dessas colunas despiram já a camisa de estuque e mostravam a cor da pedra e a cor do barro; em outras se nota a ausência do capitel e das cimalhas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.