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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

E Amâncio saboreava esta convicção, porque, a despeito do que dissera aos amigos no Hotel dos Príncipes , sua consciência, por conta própria, tomara sempre a defesa de Hortênsia e insistia em mostrá-la cercada de um grande prestígio venerando e respeitável.

— A consciência agora que falasse!

E refocilava-se todo com o seu triunfo. — Agora é que ele queria saber quem tinha razão; sim, porque enquanto procurava se convencer de que deveria esperar de Hortênsia aquilo mesmo, a rezingueira da consciência saltava-lhe em cima com um nunca terminar de razões e apresentava-lhe a “excelente senhora” cada vez mais pura e menos acessível! E eis que, de supetão, quando menos se esperava, os fatos se erguiam brutalmente para desmentir a impostura.

E ele sorria ,vendo as asas do anjo baquearem a seus pés, murchas e retraídas , como os galhos de uma árvore arrancados pelo nordeste.

— Bem dizia o Simões: “Quando te começarem as aventuras...”E melhor ainda o Dr. Freitas: “Para conquistar as mulheres são apenas quatro coisas necessárias: audácia, boas relações, um pouco de inteligência e não ser seu marido!”

E os fatos, como disciplinados por estas palavras, formavam ala e começavam a cantar as vitórias do estudante.. Na sua lógica indiscutível afirmavam eles que Hortênsia, o tal modelo de severidade e pureza, morria de amores por Amâncio, que o desejava ardentemente, que se entregaria na primeira ocasião, fazendo loucuras, dando escândalos, que nem uma heroína de romance!

— Está segura! Exclamou o rapaz, sacudido por estas idéias. O sangue saltava-lhe no corpo; aquela aventura se lhe afigurava a melhor de sua vida; seu orgulho pueril, de namorador vulgar, espinoteava qual potro que se pilha às soltas no prado verdejante e proibido. As outras conquistas vinham logo chamadas por aquela, e todas as vítimas de sua sensualidade, ou as cúmplices de seu temperamento e da sua má educação, enfileiravam-se defronte dele, como um submisso batalhão de prisioneiros.

Chegou a casa ao amanhecer e não dormiu logo. Os pensamentos revoavamlhe no cérebro com o frenesi de folhas secas, redemoinhadas pelo vento.

CAPÍTULO X

Dormiu mal ; os sonhos não o deixaram em paz. A princípio, todavia, foram agradáveis: ternos episódios de amores fáceis que se encadeavam confusamente, e nos quais a sensações vinham e fugiam de um modo incerto e deleitoso; depois chegavam os sonhos maus, os pesadelos.

Neste, as mulheres entravam por incidente, sempre duvidosas; vultos sinistros, e cabelos desgrenhados, rostos lívidos, surgiam em torno dele e iam-se aproximando, até lhe ficarem cara a cara, num contato frio e incômodo de carne morta. Depois sonhava-se em casa da família, voltando, porém, justamente do bile do Melo; tinha muita necessidade de repouso, queria continuar a dormir, mas a voz ríspida do pai berrava por ele da porta do quarto: “Anda daí, mandrião!, Basta de cama! Vê se queres que eu te vá buscar!” E aquela voz terrível dava-lhe a todo o corpo tremor de medo, e, ao estrondo que ela fazia, vultos cor-de-rosa, de cabelos louros, fugiam espavoridos, como rãs que se atiram n’água, assustadas pela presença de um boi.

Amâncio queria também fugir, mas suas pernas pareciam troncos de árvores seguros ao chão; queria gritar, mas a língua inchava-lhe na boca.

Acordou muito fatigado e aborrecido às duas horas da tarde.

Logo que apareceu na sala de jantar, Mme. Brizard fez-lhe entrega de um belo ramilhete, que lhe haviam remetido, a ele, com um cartão. Amâncio apressouse a ler. O escrito dizia simplesmente: “Ao Dr. Vasconcelos – uma sua amiga”.

Cruzaram-se os penetrantes risos adequados ao fato. O rapaz, intimamente lisonjeado, fingiu não se impressionar com aquela manifestação; leu, porém, o bilhete mais duas, três, quatro vezes.

Era letra de mulher, de Hortênsia sem dúvida. Estava ali a sua alma, o fogo de seus olhos. Ele cheirou o pequeno pedaço de papel, e pensou sentir o mesmo perfume que, na véspera, durante a valsa, o tinha penetrado até à medula.

Achavam-se presentes o Dr. Tavares, o Pereira, o gentleman e Lúcia. Disseram alguma coisa sobre aquelas flores, menos a última, que, junto à janela, parecia preocupada com um livro da capa roxa. O gentleman falou de Botânica a propósito de uma dália vermelha que havia no ramo. Afiançou que esta flor possuía em si tantas outras flores quantas eram as pétalas de que constava.

— Flores perfeitas, com todos os órgãos, Sr. Amâncio — estames, cálice, tudo!

Amâncio, enquanto o Lambertosa discorria sobre a dália, leu ainda uma vez o cartão, e, ao levantara vista, reparou que Nini o fixava, cada vez mais insistente.

Amélia dera-se por incomodada e não vira à mesa.

O jantar correu, pois, muito frio e constrangido ao princípio; pouco se conversava e quase ninguém tinha vontade de rir. Dir-se-ia que só Amâncio a todos comunicava o seu fastio e o seu cansaço.

(continua...)

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