Por Aluísio Azevedo (1891)
Sim! Aquele dinheiro ia ser manancial de consolações!... Alzira, se durante a vida cometera muitos crimes, praticara na sua última hora uma ação boa lembrando-se dos desamparados da fortuna.
Mas Ângelo, ao repor as cédulas no fundo do cofre, notou que um longo fio de cabelo louro envolvia-se nos seus dedos.
Tomou-o pelas extremidades e ergueu-o até à altura dos olhos.
Era sem dúvida um cabelo de Alzira!... considerou ele, perturbando-se. Era um triste e perdido raio de um sol que para sempre se apagara!...
E deteve-se a fitá-lo, embevecido de saudade.
Oh! por que Deus fizera assim longos os cabelos da mulher?... Por que lhos dera tão grandes e tão abundantes, se ela já não precisava deles, como outrora a Eva no Paraíso, para esconder a nudez de seu pudor?...
E continuava a fitar o tênue fio de ouro, perdido num dédalo de cogitações, que o arrebatavam para o mundo ideal das suas loucuras. Mas um sopro de brisa entrou pela janela do jardim e arrebatou-o dos dedos.
Ângelo acompanhou-o com a vista. O dourado fio de cabelo ondeou no ar, espreguiçando-se, e subiu ainda, para depois voltar de novo lentamente, até ir cair afinal sobre os brancos pés da imagem de Maria.
O pároco não se animou a reavê-lo, nem enxotá-lo daquele sagrado asilo.
Quem saberia, pensou ele, se Alzira, que já não tinha lábios, nem olhos, para suplicar, não houvera, do fundo do seu eterno desterro, mandado um fio dos seus cabelos transmitir à Virgem o voto do seu arrependimento?
E voltou à mesa, assentou-se, e, tomando o cofre entre as mãos, começou a considerá-lo atentamente. Era um lindo objeto de luxo, uma boceta de ébano com incrustações de ouro, e guarnecida de artísticas miniaturas em marfim, que representavam assuntos mitológicos.
Em cima, na tampa, havia o nome da cortesã, cercado de flores e borboletas.
Ângelo continuou a admirar o bonito estojo, voltando-o de todos os lados, abrindo-o e fechando-o repetidas vezes.
Mas de repente, estremeceu e repeliu-o, torcendo o rosto para não vê-lo.
Tinha descoberto, entre um grupo de anjinhos e cupidos cor-de-rosa, um pequeno oval de meia polegada com um delicadíssimo retrato de Alzira, primorosamente trabalhado, e de uma semelhança inexcedível.
Não quis vê-lo; voltou as costas ao cofre. Mas seus olhos instintivamente procuravam a formosa miniatura.
E o mísero compreendeu e pressentiu que aquele retrato, era mais um inimigo que lhe invadia traiçoeiramente o espírito.
CAPÍTULO IX
Misérias do coração
O resto desse dia passou-o Ângelo em piedosas visitas aos pobres de Monteli. Só ao cair do sol tornou à casa, prostrado de fadiga e torturado pelas suas favoritas agonias.
Salomé trouxe-lhe o jantar, em que ele, como de costume, mal tocou, para recolher-se logo às suas orações defronte do altar da Virgem.
Às sete horas deitou-se cansado e adormeceu logo, precipitando-se no sonho, como se acordasse da vida. Alzira esperava lá por ele.
— Ah! enfim! exclamou ela, abrindo-lhe os braços e apresentando-lhe os lábios. Tremia com a idéia de que te demorasses! ... Não imaginas como estava impaciente por tornar a ver-te!... A imobilidade a que me vejo condenada durante as horas do dia, é para mim indefinível tormento!... Maldita seja a sepultura!...
— Mas eu me não demorei!... observou Ângelo. Adormeci pouco depois de anoitecer... Não seriam mais de sete horas quando...
— Tens razão. Não percamos tempo! Partamos. Os cavalos chamam-nos à montaria, escarvando a terra ...
— Onde vamos nós?...
— A um lugar esplêndido. Sigamos!
Montaram e partiram desenfreadamente como na véspera, varando a alma trevosa da noite.
Galoparam! Galoparam!
No fim de algum tempo, Alzira chamou a si as rédeas do seu cavalo.
— É aqui, disse. Chegamos afinal!
Os dois apearam-se.
Achavam-se na estreita garganta de uma sombria serra, onde nenhum rumor de folhas se escutava.
— Andemos, disse ela.
Ângelo obedeceu.
E seguiram caminho avante, por entre um pedregal de serros e cabeços silenciosos, que se perdiam no céu, escondendo-lhe as estrelas.
O caminho fazia-se cada vez mais escuro, mais penhascoso e íngreme. Era já necessário aos dois ampararem-se um no outro, para que não rolassem juntos por aqueles precipícios.
Afinal, penetraram num vale, fechado entre rochas negras e gigantescas, em torno das quais giravam aflitivamente sinistras aves, que corvejavam e gemiam, como se a cada instante rasgassem o peito nas arestas da pedra.
Era um convulso redemoinhar sem tréguas, lembrando um irrequieto bando de gaivotas, a doudejarom sobre as águas, no alto mar, quando a tempestade se aproxima, abrindo as longas asas prendes e agoureiras.
— Que diabo vimos nós buscar aqui?! perguntou o sonhador, intimidado por aqueles loucos gemidos que singravam no espaço.
— Viemos buscar dinheiro... respondeu Alzira.
— Dinheiro?... Para que dinheiro?...
— Ora essa! Para tudo! com dinheiro teremos prestígios nos lugares que vamos percorrer!
E avançando alguns passos, mostrou ao companheiro uma grande pedra encravada no rochedo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.