Por Manuel Antônio de Almeida (1852)
— Ora está bonito! Oh! mas isto não pode ser assim; correrem com o rapaz de casa para fora!... Ele não é nenhum desgraçado, pois sempre tem o que lhe deixou seu padrinho.
— Essas e outras é que o puseram a perder.
— Sim, metam-lhe fumaça de rico na cabeça, e hão de ver no que dá.
— Coitado, disse lamentando a comadre, aquele nasceu com má sina.
E tomando de novo a mantilha, saiu com as lágrimas nos olhos em procura de Leonardo.
Ao sair escoravam-na à janela três ou quatro vizinhas.
— Então o que é que fizeram ao moço?
— Que foi isso, Sra. comadre?
— Ele passou por aqui pondo dez léguas por hora.
— Deixe-me, deixe-me, respondeu a comadre, que isto não acaba bem.
CAPÍTULO XXX
REMÉDIO AOS MALES
O pobre rapaz saíra, como dissemos, pela porta fora, e caminhando apressadamente olhava de vez em quando para trás, pois julgava ver ainda enristado contra si o espadim com que o pai o ameaçara, que parecia com ele querer acabar a obra que com um pontapé começara. Andou a bom andar por largo tempo, e foi dar consigo lá para as bandas dos Cajueiros: cansado, ofegante, sentou-se sobre umas pedras, e quem o visse com ar tristonho e pensativo julgaria talvez que ele cismava na sua posição e no caminho que havia tomar. Pois enganava-se redondamente quem tal julgasse: pensava em coisa muito mais agradável; pensava em Luisinha. Pensando nela não podia, é verdade, abster-se de ver surgir diante dos olhos o terrível José Manuel; e isto explicava certos movimentos de impaciência que de vez em quando se lhe podiam observar. Tinha gasto largo tempo nesta meditação, quando foi repentinamente acordado por umas poucas de gargalhadas partidas detrás de umas moitas vizinhas. Estremeceu da cabeça aos pés; pareceu-lhe que lhe tinham lido os pensamentos que lhe passavam pela mente e que se riam dele. Voltou-se, nada viu; guiado por um rumor que ouvia, começou a procurar, e sem grande trabalho viu, atrás de umas moitas um pouco altas, uns poucos de rapazes e raparigas, que, assentados em uma esteira entre os restos de um jantar, debruçavam-se curiosos sobre dois parceiros que, com um baralho de cartas amarrotado e sujo, desencabeçavam uma intrincada partida de bisca! As gargalhadas que ouvira há pouco tinham sido a conseqüência de um capote que um deles acabava de levar. À vista daqueles restos de um jantar, que, se não parecia ter sido abundante, fez-lhe lembrar que saíra de casa na ocasião de pôr-se a mesa, deu-lhe então o estômago umas formidáveis badaladas. Tentou entretanto voltar, porque não se queria meter em festa alheia, quando, levantando um dos jogadores a cabeça, conheceu nele um seu antigo camarada, o menino que fora sacristão da Sé. Ainda que apesar disso se quisesse retirar, já era tarde, porque com o movimento que fizera, o jogador, dando com ele, o havia também conhecido.
— Olá Leonardo! por que carga d’água vieste parar a estas alturas? Pensei que te tinha já o diabo lambido os ossos, pois depois daquele maldito dia em que nos vimos em pancas por causa do mestre-de-cerimônias, nunca mais te pus a vista em cima.
Leonardo chegou-se ao rancho, e trocados os cumprimentos com o seu antigo camarada foi convidado a servir-se de alguma coisa do que ainda havia. Quis fazer cerimônia, mas não estava em circunstâncias disso: uma das moças serviu-o, e enquanto continuava a bisca, comeu ele a barrete fora.
— Escorropicha essa garrafa que ai resta, disse-lhe o amigo, e vê se o vinho tem o mesmo gosto daquele que em outro tempo escorropichávamos juntos das galhetas da Sé, com desespero de meu pai e furor do mestre-de-cerimônias .
Quando Leonardo acabou de comer, acabaram também os dois parceiros de jogar; chamou então o amigo à parte, e perguntou-lhe:
— Então que gente é esta com que te achas aqui de súcia?
— É minha gente.
— Tua gente?
— Sim, pois não vês aquela moça morena que ali está?
— Sim, e então?
— Ora!...
— Pois tu casaste?
— Não... mas que tem isso?
— Ah!... estás de moça!
— E tu?
— Eu... ora nem te digo... morreu meu padrinho.
— Sim, ouvi dizer.
— Fui para casa de meu pai... e de repente, hoje mesmo, brigo lá com a cuja dele; ele corre de espada atrás de mim, e eu safo-me. Parei ali adiante, e as gargalhadas que vocês aqui davam...
— Sei do resto... E agora tu não tens para onde ir?
— Homem, eu ia ver...
— Ver o quê?
— Ver por aí...
— Por aí, por onde?
— Nem mesmo eu Sei...
E desataram os dois a rir. Quando temos apenas 18 a 20 anos sobre os ombros, o que é um peso ainda muito leve, desprezamos o passado, rimo-nos do presente, entregamo-nos descuidados a essa confiança cega no dia de amanhã, que é o melhor apanágio da mocidade.
— Sabes que mais? continuou o amigo do Leonardo, vem conosco, e não te hás de arrepender.
— Mas com vocês, para onde?
— Para onde? Sem dúvida algum partido melhor tens a escolher? queres fazer cerimônias?
Começava a cair a noite.
— Vamos levantar a súcia, minha gente, disse um dos convivas.
— Sim, vamos.
— Nada, inda não: Vidinha vai cantar uma modinha.
— Sim, sim, uma modinha primeiro; aquela: Se os meus suspiros pudessem.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16987 . Acesso em: 8 mar. 2026.