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#Relatos#Literatura Brasileira

A Retirada da Laguna

Por Visconde de Taunay (1871)

Neste mesmo dia 28 morreram algumas mulheres, mais desvalidas ainda que os demais doentes, mais desprovidas de recursos e, por motivo de sua natural fraqueza, mais ferreteadas pelos estigmas da miséria absoluta. Quase não existia mais entre nós a autoridade. Fora, desde o começo, frouxa às mãos do coronel Camisão, sempre que se tornara precisa e iniciativa de uma decisão ou proceder a uma escolha entre diversos alvitres e alternativas. Tornara-se, é certo, mais firme quando os reveses nos acabrunhavam, uns sobre outros; para o fim atingira o heroísmo quando, com uma abnegação, cujo esforço indubitavelmente lhe arrancara a vida, abandonara os enfermos para a salvação da coluna. Desde, porém, que a cólera o atacara ia tudo ao deus-dará; sentíamos todos quanto nos era indispensável novo chefe.

A 29 tornou-se evidente que o Coronel morreria. Por vezes, vencera o sofrimento aquela dignidade que tanto zelara: "Dizem que a água mata, exclamava, dêem-ma; quero morrer!" Caiu num estado de torpor e sonolência e o corpo cobriu-se-lhe de manchas violáceas sete e meia fez supremo esforço; levantou-se do couro em que estava deitado, apoiou-se sobre o capitão Lago perguntou-lhe onde estava a coluna, repetindo ainda que a salvara. Depois, voltando os olhos, já vidrados, para o seu ordenança, exclamou em tom de comando: "Salvador! dê-me a espada e o revólver". Procurou afivelar o talim e exatamente nesta ocasião deixou-se rolar no chão murmurando: "Façam seguir as forças, que vou descansar". E assim expirou.

A alguns passos dali, numa barraca a todos os ventos aberta, achava-se o tenente-coronel Juvêncio. Recobrara um fio de voz e livrara-se da horrível tortura das caimbras, queixando-se, todavia, de forte dor no fígado. O tenente Catão, a quem do melhor modo auxiliávamos fazia-Ihe continuamente aplicações novas, que, contudo não o aliviavam. Tinha, constantemente, os nossos nomes nos lábios para nos recomendar a família. Ao meio-dia acalmou-se, caiu numa letargia entrecortada de sobressaltos, e, às três horas, expirou depois de nos entregar, para a mulher e os filhos, uma bolsinha de couro contendo algumas economias de campanha.

Numa cova aberta, sob grande árvore, no meio da mata, enterrou-se o Coronel com o seu uniforme e insígnias. Em outra cova, imediata, e à direita, foi o corpo do tenente-coronel Juvêncio colocado pelos seus companheiros da comissão de engenheiros e alguns oficiais do corpo de artilharia. Jamais se nos varrerá da memória esta lúgubre cerimônia a que a escuridão da noite e da mata ainda mais soturna tornavam. Eram quase sete horas quando de lá voltamos. Descansam os nossos infelizes chefes à esquerda do Miranda, a alguma distancia da entrada do bosque e em altura correspondente a estancia do Jardim, à margem direita. Se lhes não profanarem os túmulos é de esperar que, um dia ou outro alguma cruz de material duradouro, com uma inscrição, aponte à memória dos brasileiros o lugar que recebeu os despojos destas nobres vítimas do dever (1)

Providências sabiamente combinadas seguiram de perto a morte do coronel Camisão. Cumpria não surgisse alguma rivalidade que mantivesse a autoridade incerta. Fora, era certo, já prejulgada a questão dos postos em comissão, por dois ofícios do Ministro da Guerra, datados do ano anterior. Neles declarara o governo não ter aprovado que o tenente-coronel em comissão, Enéias Galvão, simples tenente nos quadros do exército, comandasse, como chefe interino de uma brigada, oficiais mais antigos que ele e até capitães. O posto efetivo na primeira linha era evidentemente, pois, uma condição de preferência e o mais antigo capitão, de todo o corpo expedicionário, vinha a ser José Tomas Gonçalves, alias major em comissão. Parecia assim o único que, de acordo com as instruções ministeriais, estava nos casos de suceder ao tenente-coronel Juvêncio, substituto legal do coronel Camisão, mas que também desaparecera.

(continua...)

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