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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

No pé da escada um oficial de justiça estava conversando com um procurador de causas. O primeiro dizia que Ângelo lhe devia ainda uma dezena de intimações atrasadas; o segundo viera cobrar o restante de um débito, proveniente de trabalhos que o jovem bacharel o encarregara fora da cidade. O procurador dizia ao oficial:

— O dinheiro que o homem apanha é pouco para comédias, presentes, passeio a carro e outras loucuras.

O oficial respondeu ao procurador:

— Um dia destes tive em minhas mãos um requerimento chamando-o a

conciliação por trezentos mil-réis que ele deve ao Pereira, que tem loja de fazendas na Rua do Queimado. Não quis encarregar-me da citação para o doutor não dizer que, se ele não me devesse, eu não me animaria a citá-lo.

Ainda quando Martins não formasse do estado de Ângelo o juízo mais aproximado, estes esboços feitos a carvão, como os desenhos obscenos dos moleques nas paredes, foram mais que bastantes para que de tal estado não lhe restasse a menor dúvida.

E, dando o devido desconto ao que ouvira, encaminhou-se para o ponto onde exercia a sua indústria, e aí se deixou ficar até às duas horas; trinta minutos depois, entrou novamente no escritório.

— Estás mal comigo, Ângelo? — perguntou ao entrar.

— É a mim que me cabe fazer-te esta pergunta.

— Estive ontem à noite em tua casa. Tinhas ido ao teatro. Tomei chá com tua mãe e tuas tias. Vi teus irmãos. Um deles pareceu-me estar já perdendo ao ano.

— Conheces algum mestre brando, benévolo e paciente? Não quero expor meus irmãos ao desamor de certos professores que tornam odioso aos meninos o mister de aprender.

— Tenho um primo que é um professor exemplar. Falar-lhe-ei amanhã. sobre a entrada de teu irmão na sua escola; e, na semana vindoura, pode o menino começar o trabalho. Mas - mudando de assunto - qual a razão do teu afastamento de minha casa. Lá ninguém tem ofendeu.

— Não tenho aparecido por estar muito sobrecarregado com trabalhos; — Forenses?

— Na maior parte.

— Queria-me parecer, ao entrar aqui, o contrário do que estás dizendo. Há três para quatro meses que não venho ao teu escritório, e em tão curto espaço de tempo noto agora grande diferença. Então, via-se o escritório ordinariamente cheio de clientes; hoje, vejo-o deserto. Somos três os que estão aqui - eu, tu, e ali o Sr. Jacinto, matando moscas. Como vais com o teu jornal.

— Agoniza. Muitos dos assinantes não renovaram as assinaturas e ver-me-ei na contingência, se não entrarem novos que compensem os que não tornaram, de suspender a publicação.

— Deves à tipografia?

— Estou num pequeno atraso.

— Entretanto, há quatro meses era próspero o estado do jornal. Não se deverá atribuir o resfriamento dos assinantes à publicação quase exaustiva de traduções e transcrições, em vez de artigos originais, em que até certo tempo te mostraste tão fecundo?

— Talvez. De fato, não tenho tido tempo de escrever como já escrevi. Ando a modo de preocupado.

— Andas; e é sobre isto que venho tomar-te alguns minutos. — Senta-te aqui.

Ângelo e Martins encaminharam-se para um gabinete curto e estreito, que corria paralelo à sala, onde aquele tinha a sua mesa e estantes. Ângelo recostou-se sobre um sofazinho de vime, que com duas cadeiras de braços adornavam o pequeno aposento. Martins sentou-se em uma das cadeiras, e começou assim:

— Ângelo, venho falar-te sem outra autoridade senão a de amigo sincero que te deseja mil prosperidades e muitas glórias que redundem em proveito dos teus.

— Podes falar com toda a liberdade. Sou o primeiro a reconhecer que uma das minhas mais urgentes necessidades é a de ter um amigo que me dê saudáveis conselhos.

— Vim resoluto a dá-los. Tua mãe, tão discreta, tão conformada com a sua sorte, teve ontem para mim maternais franquezas e comovedores ressentimentos. Considera-te, não sem razão, afastado do caminho que sempre soubeste trilhar, ainda quando estavas nos teus verdes anos. Este triste resultado ela o atribuiu ao teatro, que deve ser, e, quando bem compreendido, certamente escola de bons costumes, edificativa de sã moralidade por exemplos de altas virtudes sociais e domésticas. Sem o afirmar positivamente, deu-me a entender que tudo o que ganhas pela tua profissão das mãos te sai para despesas vãs e inúteis.

Martins ficou aqui. Pousara as vistas no amigo, e pela expressão do semblante parecia ter toda a alma empenhada em conhecer o efeito das suas reflexões. Este não tardou muito a revelar-se; Ângelo, deixando o encosto do sofazinho, sentou-se e respondeu:

— Não obstante chegarem fora de tempo os teus conselhos, ganhaste com eles novo direito à minha gratidão pela boa intenção que os inspirou.

— Chegaram fora de tempo? — inquiriu Martins quase inquieto.

— Estão inteiramente extintas as relações que me prendiam à Júlia.

— Obrigado, obrigado, Ângelo! — disse Martins com efusão de sentimento que não pudera reter em seu coração. Está então tudo acabado? — Tudo, tudo.

(continua...)

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