Por Franklin Távora (1878)
Assim falando, Coelho apontava para a cômoda de cedro, onde se viam, em salvas de prata, bolos de S.João de diferentes tamanhos e formas, e em garrafas de cristal o vinho generoso a que aludira. Tenha paciência, seu Antonio Coelho, - respondeu o peixeiro. Acabo de chegar agora mesmo do divertimento em que estava, quando o Lauriano me deu o recado. Queira ter vosmecê a bondade de vir direitinho ao negocio, que eu fiquei de voltar ainda hoje ao dito divertimento, onde tenho uma grande empresa que executar, se para isso não me faltar o tempo. - Que empresa é essa?
Quebrar os dentes a um pé-rapado, por não terem mordido a língua dele na ocasião de me dizer meia dúzia de liberdades que lhe hão de custar bem caro.
- Folgo em encontrar-te nestas boas disposições. Mas, para não dares passo em falso, trata primeiro de organizar as tuas forças. Não tens tu vários amigos com quem te podes ajuntar a qualquer hora que seja necessário?
Tunda-Cumbe, não sem dar mostras de confusão e hesitação, inclinou a cabeça como quem respondia afirmativamente.
- Pois bem, tornou o negociante. É da máxima conveniência que de hoje para amanhã reunas todos eles e à sua frente trates de hostilizar por todos os meios imagináveis, não só o pé-rapado a quem queres quebrar os dentes, mas tantos pés-rapados e mazombos quantos puderem cair em tuas mãos. Já deves saber o que resolveram os nossos patrícios e amigos do Recife... - Tudo sei.
É de nossa honra e de nosso interesse que o grito que eles soltaram na vila, acha eco em todos os pontos importantes da província, especialmente em Goiana.
- E o governo está de nossa parte?
O governo! O governador, o legitimo, o verdadeiro governador de Pernambuco, Sebastião de Castro Caldas, este está conosco. D. Manoel é simplesmente o governador da rebeldia. Deu força aos insurgentes, e está exercendo atribuições que lhe não competem. Os que o sustentam e por eles são sustentados, tão criminosos são como ele. opuseram-se à criação da vila, o que quer dizer que se opuseram à vontade e à ordem de el-rei; tentaram contra a vida do legitimo governador, e o obrigaram a refugiar-se na Baia para escapar à morte; na ausência dele, tomaram conta do poder tumultuaria e revolucionariamente; o bispo por infame covardia ou por indigna conivência, assumiu as rédeas do governo e expediu perdão aos rebeldes e assassinos. Devíamos nós, leais vassalos de el-rei, ter por justo e legal o infame perdão, quando as justiças do céu e da terra exigiam antes as cabeças dos rebeldes? Não, mil vezes não. Acumulamos viveres, ajuntamos dinheiro para que nos não faltasse nada na ocasião do desforço. Julgando os nossos amigos do Recife chegada esta ocasião, acabam de soltar o brado em favor da restauração da autoridade legal, vil e traiçoeiramente conspurcada pelos que se apelidam nobres, quando outra coisa não são senão rebeldes e sicários. Assim, todo leal português tem o dever de lançar mão das armas para derrubar o governo de d. Manoel e levantar novamente o de Castro Caldas. Em favor desta empresa patriótica e gloriosa é que te proponho reunas todos os amigos que puderes. O programa da luta é largo, mas resume-se nisto – destruir, seja por que meio for, qualquer força, qualquer bem, até a própria vida de todos os fidalgos de Pernambuco.
- Tudo de que precisares, a saber, dinheiro, viveres, apoio, proteção ilimitada para ti e para os teus, a fim de se preencher este plano salvador das nossas fortunas, das nossas vidas e do nome português, ser-te-há prontamente dado ou feito, contanto que a represália não fique nem por um instante retardada. Posso confiar em ti e nos teus, Manoel Gonçalves? Concluiu Antonio Coelho com gestos e expressão de quem estava de corpo e alma entregue a este pensamento e por levá-lo a efeito subiria a todas as eminências e desceria a todos os abismos.
Antonio Coelho era de boa estatura. Tinha os cabelos pretos e corridos, os olhos rasgados e úmidos. Espadaúdo e anafado, dir-se-ia que esse homem, uma vez sentado, não poderia levantar-se senão com auxilio de outrem. Nada entretanto encontraria mais a verdade. posto que maciço de formas, era pronto nos movimentos. Sua agilidade tinha o quer que fosse da eletricidade. Em seu semblante estavam esparzidos os toques de uma expressão particular que o tornavam atrativo. Usava a palavra com veemência e mobilidade que interpretavam brilhantemente os caprichosos raptos e oscilações de seu espirito, umas vezes lento e tardo nas operações, outras franco e arrebatado até a inconveniência e a temeridade.
- Há então viveres e dinheiro bastante para serem distribuídos pela gente que eu ajuntar? Inquiriu o peixeiro, como quem não queria ainda acreditar na formal promessa que acabava de fazer-lhe o negociante.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.