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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

Semelhante achado pareceu-lhe coisa extraordinária naquelas alturas ínvias e desertas. Mas não se tinha enganado; a região que se lhe oferecia à vista não era de todo desabitada; ali brilhavam vestígios da mão do homem; ali havia o cunho de um esforço de que ele nunca fora capaz, o cunho do trabalho.

Era pequena a plantação, mas tida, ao que parecia, em alta conta por quem quer lhe consagrava os seus cuidados e vigilância.

Estava verde, limpa, matizada de frutos. Com os ramos do jerimunzeiro se confundiam as folhas lanceoladas do batateiral. Ao lado da melancia lourejava o melão, de que recendia suave cheiro; e dentre o entretecido de verdura formado pelo conjunto dos ramos rasteiros em que se achavam presos estes deliciosos presentes da terra, levantavam-se ao céu, de covas eqüidistantes, os pés de milho com seus pendões inclinados e suas corpulentas espigas, em torno das quais se esparziam os fulvos cabelos que costumavam adornar estes abençoados frutos.

É indescritível o prazer que sentiu o bandido ao deparar com aquele tesouro.

Tinha a seu alcance com que matar a fome, cujos efeitos começava a sentir, tinha um presente que oferecer à sua companheira, extenuada de fadiga.

Separar do pé com a faca, duas melancias, e quebrar algumas espigas foram operações que o Cabeleira praticou em menos de um minuto. O estalar do milho despertou um rapazito, que, achando-se ali para enxotar as maracanãs que destrõem os milharais, adormecera ao calor do meio dia na extremidade da vazante debaixo de uma latada formada pelos ramos de um pé de maracujá que, com a frescura do solo, se mostrava verdejante e florido.

— Ladrão ! Ladrão ! — gritou o rapazito com valor e força superiores aos que o seu corpo e estatura prometiam.

E armado com um pau, investiu contra o Cabeleira, que a inesperada aparição deixara um instante perplexo com parte do furto em uma mão, e a faca nua na outra.

O rapaz ganhou em poucos passos a distância que o separava do bandido, e descarregou sobre a cabeça deste, sem dizer tir-te nem guar-te, o pau que trazia alçado. O Cabeleira em represália atirou-lhe um golpe com o intuito de cortá-lo de meio a meio, intuito que foi burlado por Luísa que-lhe havia pegado do braço a tempo de evitar a desgraça iminente.

— Cabeleira ! Queria fazer uma morte ainda ? Meu Deus, abrandai-lhe o coração.

— Luisinha, eu não sei bem o que queria fazer — disse o moço caindo em si. — Mas este dorminhoco deu-me com o seu graveto como se eu fosse algum pinto.

— Quero-lhe muito bem, meu amor — acrescentou a moça com a profunda ternura que, quando verdadeiramente quer e sente o que quer, a mulher sabe ter no olhar, no gesto, na voz. — Mas quando o vejo como agora de arma em punho, ameaçando com certeiros quais são os seus, a vida de alguém, sinto tão grande dor, que você não pode compreender o meu padecimento.

Cabeleira inclinou os olhos ao chão, meteu a faca na bainha e deu a andar com os frutos debaixo do braço.

— Para que traz você estes frutos consigo ? — perguntou-lhe Luísa. — Eles não nos pertencem, e não podemos apossarmos, contra a vontade de seu dono, daquilo que não é nosso.

— Que vamos comer ? — perguntou muito naturalmente o mancebo.

— Comeremos o que nos der o mato. Deus está em toda parte, e não se esquece dos que invocam a sua proteção.

Cabeleira submisso e humildemente depôs as frutas no chão sem mais reparo. Quanto ao rapazito, guarda da vazante, havia desaparecido desde que ouvira pronunciar o nome, que de sul a norte significava, para grandes e pequenos, roubo e atrocidade.

Nova surpresa os esperava na margem, onde o bandido foi dar com dois indivíduos que de pé o olhavam do alto de uma pedra, tendo um deles pelo cabresto o árdego alazão, já livre da peia com que o atirara ao campo o Cabeleira.

Defronte da árvore, a cuja sombra os fugitivos haviam descansado, formava o terreno uma grande ribanceira.

Os desconhecidos estavam aí com a frente voltada para a vazante, o lado direito para o continente, e o esquerdo para o rio, que nessa altura era largo e profundo.

— Parece que você veio enganado, camarada — disse o Cabeleira, saltando em um minuto aos pés daquele que tinha pela mão o cavalo. — Este animal não lhe pertence.

— Este animal é meu no céu e na terra. Há dois dias o furtaram do meu roçado no Angico Torto. Pus-me na batida do ladrão, e finalmente vim dar com o meu cavalo. Ele é meu, tão certo como estou aqui. Tem o meu ferro na anca direita, e você o pode ver, se ainda não se quis dar a esse trabalho.

— Pois o que eu lhe digo, camarada, é que fosse ele de quem fosse, por mais homem que seja, ninguém será capaz de tirá-lo do meu poder.

— Isto agora é que havemos de ver — disse o desconhecido, batendo mão da faca que trazia no cós da ceroula e fazendo-se prestes para lutar pela reivindicação da sua propriedade.

— Monta no teu cavalo, Marcolino — gritou o outro desconhecido ao companheiro; — monta no teu cavalo e vai-te embora, que eu só sou demais para lamber este cabra.

(continua...)

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