Por Bernardo Guimarães (1869)
— Não, replica-lhe Oriçanga, não posso por esta vez condescender com os generosos impulsos de teu nobre coração. Antes de partires, três sóis serão consagrados às festas de tua união com a formosa Guaraciaba; já tens feito de sobejo para merecê-la; e nem mais precioso galardão podia eu ofertar-te em prêmio de teus gloriosos serviços e façanhas de guerra; e com ela força é que eu te abandone também desde já o peso do governo e comando da nação, excessivo para meus ombros enfraquecidos pela idade. Terás ainda oito sóis para descansares das tuas gloriosas fadigas à sombra da taba nos braços da tua gentil Guaraciaba. Passados eles escolherás os melhores de nossos guerreiros no número que julgares suficiente, e partirás a vingar a afronta dos nossos. O sangue de tantos e tão esforçados guerreiros, que Inimá imprudentemente sacrificou, pede pronta e cabal vingança.
— Eu saberei tomá-la, respondeu Itajiba.
Já não era só o amor de Guaraciaba o alvo único das aspirações de Itajiba, nem tão pouco as solenes promessas pelas quais se ligara à nação dos Chavantes, o único motivo que o dirigia em suas ações. Considerações de outra ordem também contribuíam para retê-lo entre os selvagens, e o faziam procurar firmar cada vez mais a sua influência e prestígio entre eles. Na alma ardente e aventurosa do bandido de Goiás despontavam já vistas ambiciosas e cálculos de elevação pessoal. Acoroçoado pelo brilhante sucesso de suas empresas, o feliz amante, o vitorioso cabo de guerra afagava já em seu espírito projetos de dominação e de poder, e delineava nos campos do futuro com largos e atrevidos traços os vastos planos de seu engrandecimento. Uma vez dominador da nação dos Chavantes não lhe seria difícil submeter também pela força das armas, ou mesmo por meios pacíficos e brandos, as outras tribos vizinhas das margens do Tocantins. Ele lhes ensinaria algumas das artes e ofícios mais indispensáveis, os induziria por meios persuasivos a cultivar a terra, para o que procuraria provê-los dos instrumentos próprios, a se aplicar à criação de gado, a construir habitações estáveis e mais sólidas, e enfim pouco a pouco os faria ir abandonando os grosseiros e ferozes hábitos da vida nômade e selvática pelos costumes e usanças dos povos civilizados. Tornado assim o chefe supremo de uma imensa população ativa, industriosa e guerreira, ele se tornaria temível aos fracos governos de Goiás, poderia tratar com eles como de potência a potência, e lhes imporia as condições. Com essa espécie de catequese e organização das tribos indígenas não só ele adquiria grande poder e prestígio naquelas paragens, como também prestaria ao Estado um eminente serviço, do qual ele reservaria para si o direito de marcar o preço e a remuneração.
Proporia submeter ao Estado todas essas tribos assim disciplinadas, contanto que os indígenas fossem considerados como outros tantos cidadãos e lhes fossem garantidos os direitos sociais. Outrossim lhe seria outorgado o governo e a direção daquelas tribos, enquanto vivo fosse, com o título e jurisdição de capitão-mor, que seria transmitido a seus descendentes por morgadio.
No caso de recusa protestava continuar à testa dos mesmos índios sua vida aventureira fazendo guerrilhas e devastadoras correrias por toda a capitania. Assim o terrível e turbulento valentão de Vila Boa, depois de se ter tornado formidável caudilho das hordas selvagens do Tocantins, aspirava agora a trocar o arco e o cocar de cacique pela farda vermelha de capitão-mor. Mas o céu lhe reservava outros destinos, se não tão brilhantes, ao menos mais santos e sublimes.
Chegou enfim o dia em que deviam começar os grandes festejos pela união de Itajiba e Guaraciaba. Tão feliz e tão brilhante união, tão ruidosos e magníficos regozijos jamais tinham presenciado aquelas florestas. O feliz aventureiro ia tocar ao fastígio da ventura e da prosperidade. O amor lhe sorria nos lábios e nos olhos da ingênua e formosa virgem, que como um anjo tutelar lhe aparecera nos caminhos da vida para arrebatá-lo a uma morte cruel e inevitável, e depois levá-lo pela mão por entre risonhas e floridas veredas ao cume da felicidade e do amor. O respeito e veneração dos Chavantes por toda a parte o rodeavam, e tocavam quase ao fanatismo; via sua influência e predomínio firmar-se entre eles sem recear mais rival algum que ousasse contrastá-lo. Suas brilhantes proezas, repetidas de boca em boca, ecoavam como um hino triunfal, e a glória dava-lhe a respirar os seus perfumes inebriantes.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.