Por José de Alencar (1875)
O moço curvou-se para apanhar o cheque. Leu com atenção o algarismo e dobrando lentamente o papel, guardou-o no bolso do rico chambre de gorgorão azul.
- Quer que lhe passe um recibo?... Não; confia na minha palavra. Não é seguro.
Enfim estou pago. O escravo entra em serviço.
Soltando estas palavras com pasmosa volubilidade, que parecia indicar o requinte da impudência, Fernando sentou-se outra vez defronte da mulher.
- Espero suas ordens.
Aurélia, que até esse momento escutara com ansiedade, perscrutando sôfrega no semblante do marido e através de suas palavras um sintoma de indignação, disfarçada por aquele abrasado de vergonha.
- Meu Deus!
A moça tragou o soluço que lhe sublevava o seio, e refugiando-se no outro canto do sofá, como se receasse o contágio do homem a quem se unira pela eternidade, abismou-se na voragem de sua consciência revolta.
Após longo trato, Aurélia como se despertasse de um pesadelo, ergueu os olhos e encontrando de novo o semblante de Seixas que a observava com um sossego de escarninho, teve um enérgico assomo de repulsão, ou antes de asco.
- Minha presença a está incomodando? Porque assim o quer. Não é, senhora? Não tem direito de mandar? Ordene, que eu me retiro.
- Oh! Sim, deixe-me!! Exclamou Aurélia. O senhor me causa horror.
- Devia examinar o objeto que comprava, para não arrepender-se!
Seixas atravessou a câmara nupcial, desapareceu por essa porta que uma hora antes ele entrara cheio de vida e felicidade, palpitante de júbilo e emoção, e que repassava levando a morte na alma.
Quando Aurélia ouviu o som dos seus passos que afastavam-se pelo corredor, precipitou-se com um arremesso de terror e deu volta à chave. Depois quis fugir, mas arrastou uns passos trôpegos, e caiu sem sentidos sobre o tapete.
Terceira Parte
POSSE
I
Chegando a seu aposento Seixas nem teve tempo de sentar-se.
Arrimou-se como um ébrio à cômoda que estava próxima ao corredor, e ali ficou no estupor da alma, violentamente subvertida pela crise tremenda. Parecia uma criatura fulminada, na qual arqueja apenas um último sopro. Sua respiração angustiada sibilava-lhe nos lábios, como as vascas do moribundo. E era este o único sinal de vida, nessa organização jovem e rica de seiva.
De repente saiu daquele torpor, mas foi preciso um esforço supremo para arrancar-se à insânia que o invadia. Em seu rosto desenhou-se o pavor que dele se havia apoderado com a idéia de que a vida o abandonava, ou pelo menos que a luz da alma ia apagar-se.
- Deus? Não me tires a vida neste momento. Agora mais do que nunca preciso de minha razão.
Seixas arrojou-se pelo aposento a passos precípites, esbarrando nos trastes, batendo de encontro às paredes, alucinado e ao mesmo tempo impelido pelo desejo de arrebatar-se à obsessão que o aniquilara.
Correu pela casa um olhar ansiado, buscando algum objeto a que seu espírito se agarrasse, como o náufrago que trava do menor fragmento no meio das ondas em que se debate. O rico toucador, esclarecido por duas arandelas de cristal com velas cor de rosa, ostentava os primores do luxo.
Então nessa alma sucumbida, luziu uma centelha. Foi o instinto da elegância por certo a corda mais vivaz dessa índole poética e fidalga.
Seixas aproximou-se do toucador, levado por indefinível impulso; e entrou a contemplar minuciosamente os objetos colocados em cima da mesa de mármore; lavores de marfim, vasos e grupos de porcelana fosca, taças de cristal lapidado, jóias do mais apurado gosto.
À proporção que se absorvia nesse exame, ia como ressurgindo à sua existência anterior, a que vivera até o momento do cataclismo que o submergira. Sentia-se renascer para esse fino e delicado materialismo, que tinha para seu espírito aristocrático tão poderosa sedução e tão meiga voluptuosidade.
Todos esses mimos da arte pareciam-lhe estranhos e despertavam nele ignotas emoções; tal era o abismo que o separava do recente passado. Era como a sofreguidão pueril que os examinava um por um, não sabendo em qual se fixar. Fazia cintilar os brilhantes aos raios de luz; e aspirava a fragrância que se exalava dos frascos de perfumaria com um inefável prazer.
Nessa fútil ocupação demorou-se tempo esquecido. Porventura sua memória atraída pelas reminiscências que suscitavam objetos idênticos a esses, remontava o curso de sua existência, e descendo-o, depois o trazia àquela noite fatal em que se achava e à pungente realidade desse momento.
Recuou com um gesto de repulsão. Esses primores de arte que pouco antes lhe acariciavam a imaginação, agora inspiravam-lhe nojo. Apartou-se do toucador, e chegou à janela.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.