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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Foi mais adiante a complacência do capelão, pois ao passarem junto dos bancos, deu-se por fatigado, e sentou-se indicando ao companheiro o lugar, que ficava-lhe à direita entre êle e a moça. 

— Aquí, disse, travando familiarmente do Agrela pelo braço; vamos descansar um tanto. 

O mancebo ao sentar-se roçou de leve e sem querer a saia de Alina que, distraída e voltada para Flor, não se apercebera da aproximação dos dois passeadores. Sentindo o frolido de suas roupas, a moça acudiu surpresa para retrair-se com um movimento mais assustado e evasivo do que exigia a circunstância. 

Compreendeu Agrela a significação dessa repulsa e ergueu-se de pronto: 

— Não foi minha a culpa, mas do sr. capelão; disse êle com um azedume, que debalde buscou diluir no tom galhofeiro. 

— Tem lugar! murmurou Alina. 

Com estas palavras a moça erguera os olhos; e fitou-os no semblante de Agrela com um gesto tão meigo e compassivo que parecia exprobrar a si mesma de o ter magoado. 

— Êsse lugar é de outro, eu sabia, respondeu o mancebo com a mesma acrimônia. 

Alina corou, curvando a fronte como para subtrair-se ao olhar que penetrava-lhe os seios d’alma. 

Padre Teles tinha-se aproximado de D. Flor a pretêsto de a consolar da perda de sua novilha favorita, mas talvez para deixar em liberdade o ajudante de quem era camarada e cujos amores desejava favorecer. 

Aproveitando o ensêjo, Agrela dirigiu ainda algumas palavras rápidas à moça. 

— Essa melancolia é pela ausência dele? Não se aflija! Tenho ordem de descobrí-lo, vivo ou morto. 

— Arnaldo? balbuciou Alina. 

— Sim, Arnaldo. A ordem, eu a cumprirei em sua intenção. Não me agradece? concluiu o mancebo com ironia. 

A moça não pôde falar, mas exprimiu seu pensamento por um gesto eloquente, cerrando ao seio as mãos enlaçadas para a prece. 

Nessa ocasião voltava o padre Teles, e Agrela apartou-se com êle do grupo das duas moças.  

XX – O aboiar 

 

O sol transmontara. 

As sombras das colinas do poente desdobravam-se pelos campos e várzeas e cobriam a rechã dêsse candor da tarde, que em vez da alegria da alva matutina tem o desmaio, a languidez e a melancolia da luz que expira. 

Por aquelas devesas já envôltas no umbroso manto, só destacam-se as copas das árvores altaneiras ainda imergidas nos fogos do arrebol, e que de longe parecem as chamas de um incêndio rompendo aquí e alí do seio da mata. 

O gado espalhado pelas várzeas solta os profundos e longos mugidos com que se despede do sol, e que propagam-se pelo ermo, como os carpidos da natureza ao sepultar-se nas trevas. 

Respondem as vacas nos currais, e os bezerros misturam seus berros descompassados com os balidos das ovelhas e borregos, também já recolhidos ao aprisco.  

Lá das matas reboa o surdo estridor em que se condensam os cantos de todos os pássaros e o grito de todos os animais, para formar a grande voz da floresta, que exala-se, sobretudo nessa hora, abafada e sombria das espêssas abóbadas de verdura. 

No meio, porém, dêsse concêrto e do borborinho que ainda levantava a labutação diária, atravessava o espaço uma nota dorida, plangente, ressumbro de saudade infinda. Se a alma da solidão se fizesse mulher, ela não tiraria de seu mavioso seio um suspiro tão melancólico e tocante como o arrulho da jurití ao cair da noite. 

Nessa hora a lida jornaleira das fazendas torna-se mais pressurosa, como para aproveitar os últimos instantes do dia. 

Os lenhadores voltavam do mato carregados  de feixes, enquanto os companheiros conduziam à bolandeira cêstos de mandioca, aind ada plantação do ano anterior, para a desmancharem em farinha durante o serão. 

As mulheres livres ou escravas, umas pilavam milho para fazer o xerém; outras andavam nos poleiros guardando a criação para livrá-la das raposas; e os moleques as ajudavam na tarefa, batendo o matapasto, ou dando cêrco às frangas desgarradas. 

As cozinheiras, encaminhando-se para a fronte a fim de lavar alí na água corrente a louça de mesa e fogão, assim como as caçarolas, cruzavam-se em caminho com as lavadeiras que já se recolhiam com as trouxas de roupa na cabeça. 

Nos currais tirava-se o leite, acomodavam-se os bezerros, e cuidava-se de outros serviços próprios das vaquejadas, que já tinham começado com a entrada do inverno, porém só mais tarde deviam fazer-se com a costumada atividade. 

Era a êste, de todos o mais nobre dos labores rurais, que o capitão-mór costumava assistir regularmente, para o que todas as tardes à hora da sombra transportava-se êle do seu pôsto no patamar da casa, e vinha com a família sentar-se defronte do curral na mesma poltrona, que o pagem levara após si. 

D. Genoveva entendia mais particularmente com o leite, o qual alí mesmo distribuia; uma parte entregava-se às doceiras incimbidas dos bolos e massas; outra repartia pelas crias, e o resto era levado à queijaria. Isto quando não tinha chegado ainda a fôrça do inverno, porque nesse tempo havia tal abundância, que enchiam-se todas as vasilhas e até os coches onde os cães do vaqueiro iam beber. 

(continua...)

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