Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
olhos do público; um documento que a condena como... de que nome quer a senhora que eu me sirva?...
– Senhor!... senhor!...
– Por ora, pois, cumpre-lhe somente despedir desta casa a esse homem que eu detesto. Com razão ou sem ela, ame ele ou não a sua sobrinha, seja ou não amado enfim, eu não peço, eu quero que esse mancebo deixe de vir aos serões do “Céu corde-rosa”. Senhora, repito a palavra com que começamos a tratar desta questão: – eu o exijo! e pronunciarei depois dessa a palavra que deve terminar todas as nossas discussões doravante: – se não...
– Oh! senhor! retire-se! exclamou Mariana com desesperação; retire-se! deixe-me em paz.
Como dissemos, a porta da sala tinha sido fechada no começo desta conferência.
No momento em que Mariana exclamava – retire-se! – um velho de quimono preto se afastou mansamente detrás da porta, e recolheu-se a um canto do alpendre.
Salustiano, e Mariana despediram-se enfim... como dois sicários que acabavam de tratar de um crime.
CAPÍTULO XVI
A VELHA, O MOÇO E A MOÇA
QUANDO Anacleto, Irias, Cândido e Celina entraram na sala do “Céu cor-derosa”, já Mariana ali não se achava.
Ou fosse para ocultar a perturbação, que por uma causa qualquer sentia, ou porque realmente se achasse fatigado, Anacleto convidou os dois habitantes do “Purgatório-trigueiro para cear com ele, e pedindo-lhes licença para descansar alguns momentos, dirigiu-se ao quarto de Mariana.
A viúva estava deitada e abatida. Queixou-se de que uma intempestiva e inesperada visita de Salustiano lhe exacerbara o incômodo de que poucas horas antes se tinha queixado.
Anacleto não lhe disse uma palavra; deixou-se cair em uma cadeira de braços e ficou triste e meditabundo, olhando para Mariana.
O pai desconfiava da filha.
Mas haviam ficado na sala a velha Irias, Cândido e Celina.
Estiveram descansando, sem encetar a mais simples conversação durante algum tempo; os dois moços conservavam a sua melancolia silenciosa do passeio.
Irias continuava a observá-los como fizera em toda a tarde desse dia.
Até que enfim ela mesma quebrou o silêncio, dizendo:
– Continuais a estar tristes, meus filhos?
– Não, minha mãe, acudiu prontamente Cândido, estamos apenas fatigados.
– Sim... passeamos muito, disse Celina.
– E no entanto, em todo vosso passeio estivestes do mesmo modo, continuou
a velha; sabeis que essa tristeza dá muito que entender nos moços?...
A “Bela Órfã” corou vivamente; Cândido estremeceu a próprio pesar.
– Não é preciso corar tanto assim, minha boa menina. Por que estremeceste tão fortemente, Cândido?
A observação da velha aumentou o enleio dos moços.
Irias pareceu deleitar-se vendo a ambos perturbados, e foi somente quando eles conseguiram serenar-se, que ela prosseguiu:
– Ouvi-me: quando alguém vê dois jovens... um moço e uma moça, meditando tristemente, naturalmente vem-lhe vontade de compreender a causa dessa meditação; e coisa notável! quase sempre acaba por adivinhá-la.
Nada disseram os dois moços.
– Porque, continuou Irias, a alma da mocidade é inconstante, rápida e faceira; ligeira como o corpo que anima, ela se apraz de mudar a cada instante de objeto, de alimentar-se com impressões e pensamentos sempre novos e diversos. A alma da mocidade é uma borboleta no espírito. Não é assim a velhice; pertence a esta a meditação, pois que seu corpo já está cansado; e os sentidos fatigados de, por tantos anos, levar impressões a todos os instantes, mostram-se como que vagarosos por fraqueza e preguiça. A alma da velhice descansa sobre um pensamento, revolve-se dentro dele, porque também nisso lhe ajuda a tristeza, que de ordinário acompanha o velho, e que é morosa como convém ser quem medita. A juventude, repito, é naturalmente alegre, e a alegria é leve e brincadora; portanto, quando um moço e uma moça estão tristes, e meditam, quem os vê, por força os observa, porque nessa tristeza e nessa meditação deve haver algum mistério muito interessante para se estudar, e quem as estuda quase sempre adivinha.
– É noite fechada, disse Cândido levantando-se e aproximando-se de uma janela; é noite fechada; mas a lua, clara e brilhante...
– Deixa a noite e a lua, respondeu a velha cortando-lhe a palavra, e senta-te aí onde estavas para eu te dizer como é que se adivinha a tristeza e a meditação dos moços.
Deixou-se Cândido outra vez sentar, e Irias continuou:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.