Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Aquele grito — chocha — soava terrivelmente aos ouvidos do presumido velho, como poderia aparecer ainda nas assembléias, ele, o gamenho por excelência, se em seus dedos haviam consecutivamente falhado cinco balas?! Brás-mimoso estava ouvindo a cada passo esse grito fatal, grito de maldição — chocha!... Foi trêmulo e fora de si, que automaticamente estendeu a última bala à sexta senhora.
D. Felícia teve piedade dele.
— Oh!... exclamou Brás-mimoso, ouvindo o estalo, que trovão argentino!...
As moças desataram-se a rir; com as risadas caiu o ramo de cravos a Felícia; Brásmimoso imediatamente o apanhou, e, beijando-o, lho entregou; mas quase ao mesmo tempo escapou o leque da mão de Rosaura; o infeliz homem quando o levantou, abaixou-se de novo para dar a Leocádia o lenço que lhe caíra; porém no mesmo momento tombaram os leques de Adelaide e Emília, e Brás-mimoso, que os ergueu, viu que de novo caíra o pendão de cravos de Felícia, e, ao apanhá-lo, esteve a ponto de pisar nas luvas de Camila.
Finalmente, apiedadas do infeliz homem, as moças puseram termo a seu martírio, e para consolá-lo cada uma lhe deu uma flor, e lhe disse, sorrindo docemente, o competente significado. Brás-mimoso, suando por todos os poros de seu corpo, recebeu as flores com entusiasmo e, orgulhoso, atravessou a sala com elas no peito.
— Ande lá, Sr. Brás, disse um moço, ao vê-lo passar, o senhor é o querido das moças; mas trabalha!...
— Meu amigo, respondeu seriamente Brás-mimoso, sem trabalho não se conquista! E saiu da sala para concertar-se; porque, graças às muitas vezes que se havia curvado para apanhar os objetos caídos, tinha ficado sem dois botões de sua esticada calça.
No entanto, Honorina e Raquel, alguns momentos depois de haverem tomado chá, tinham-se levantado e passeavam juntas. Apenas deixaram suas cadeiras, um elegante jovem correu para elas:
— V. Ex.as, perguntou ele, estimariam honrar o braço de um cavalheiro?...
— Oh! foi Raquel quem respondeu, nós nos levantamos para conversar juntas e em liberdade; mas, se V. S.ª se interessa por passear conosco, nós teremos prazer em agradar-lhe...
— Minha senhora... grande seria para mim a honra; mas o interesse de meu coração deve ser sacrificado aos desejos de V. Ex.as... eu as deixo em liberdade.
— Este moço é muito civil, disse Honorina continuando a passear com sua amiga.
— Sim, Honorina, contam-se poucos homens que, como ele, deixem de ser importunos. — Certamente; tenho notado em todos uma urbanidade tão estudada, cumprimentos tão exagerados, palavras tão escolhidas, comparações tão multiplicadas, que...
— Que parece que já as trazem de casa, não é assim?... pois até aí nada há de novo; alguns são ainda suportáveis pela variedade de suas cortesias; mas uma grande parte, Honorina, diz-nos hoje, o que nos está a dizer há cinco ou seis saraus passados; diz-me agora o mesmo, o que já te disse e o que já havia dito as todas as moças com quem tem conversado durante a noite. São cortesãos a machado... belas casacas de fidalgo, cobrindo corpos de rústicos aldeões...
— Raquel, tu falas tão alto...
— Ora, Honorina, e quem manda a essas gralhas virem aqui mostrar-se com presunção de pavões?... é que se faz preciso rirmo-nos muito deles, porque eles pensam que zombam sempre de nós; zombemos, pois, também... zombemos muito. Olha, Honorina, uma boa parte desses senhores, que tanto nos cercam e nos cortejam, são tão tolos como presumidos, e alguns há ainda tão presumidos como insolentes!
— Mas tu és terrível, Raquel!
— É porque tu não os conheces como eu, Honorina. Tu não sabes o que é um jovem presumido. Por exemplo, dize: quantos hoje te hão asseverado que és encantadora!... anda... não cores assim... estás falando comigo: quantos?...
— Todos com quem dancei, Raquel.
— Pois bem, Honorina, eles falaram por acaso a verdade; mas queres tu apostar que quaisquer desses senhores vai dizer que és feia?...
Apesar de toda a sua simplicidade, Honorina não gostou da palavra feia; ela era mulher.
— Então, queres ou não?... repetiu Raquel.
— À minha vista, Raquel?... perguntou Honorina.
— Ora... à tua vista juraria de novo que és um anjo, o mesmo que tivesse dito que és feia.
— Mas poderei eu ouvi-lo?...
— Sim... é possível.
— Pois aceito.
— Bem... oh! a propósito... ali vai uma amiga minha, que nos pode servir: vem cá,
Úrsula...
— Adeus, Raquel!... mas deixa-me, eu vou à toilette...
— Não precisas: estás tão bela como entraste, ou mais ainda...
— Obrigada, meu senhor! quer saber onde eu moro?... perguntou Úrsula gracejando. — Deixa-te de graças, Úrsula; temos negócio sério; primeiro que tudo apresento-te esta senhora, que é minha amiga do coração.
Úrsula deu um beijo em Honorina, e voltando-se para Raquel:
— E depois?... perguntou.
— Ouve: Honorina é nova em nossas assembléias; acha por isso exagerado o quadro que lhe eu tracei dos nossos jovens cavalheiros...
— Oh!... são anjos todos eles, minha senhora!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.