Por Adolfo Caminha (1896)
Furtado dizia logo à mulher: — "Temos novidade!" E D. Branca ensaiava o melhor dos seus sorrisos para apertar a mão ao banqueiro.
Numa dessas noites (porque era sempre à noite que o visconde visitava os Furtado) — numa dessas noites o Santa Quitéria não encontrou Furtado em casa. O secretário tinha ido à Fábrica das Chitas visitar um amigo doente — ... o que estimei bastante... — acrescentou D. Branca em segredo.
O visconde limitou-se a um - oh! de agradecimento.
Já havia um princípio de discórdia entre os Furtado e os Holanda. Evaristo e a esposa recolhiam agora muito cedo, ao lusco-fusco, para evitar discussões com o outro casal, não obstante o bom gênio do secretário. D. Branca era sempre mais caprichosa e altiva.
De modo que o visconde não podia encontrar melhor ocasião para um rendez-vous amoroso.
Sentaram-se os dois, ele e ela, no sofá, tranqüilamente, numa familiaridade discreta, como se estivessem nalgum remanso impenetrável, interdito a olhos e ouvidos humanos. A questão era falar baixinho, para que as vozes não ecoassem, denunciadoras, além do teto, no aposento dos Holanda.
Ouvia-se o piano de D. Sinhá, na casa do desembargador. Mas a rua, como de costume, estava silenciosa.
O primeiro movimento de D. Branca, depois de sentar-se, foi para entregar ao banqueiro uma carta que há dias lhe andava no bolso do vestido.
— Leia em casa, recomendou.
Ele tomou o envelope, com um carinho singular, e guardou-o.
— Mesmo, aqui não teria encanto...
E entraram a conversar numa voz sibilada, num tom de reza ou de confissão mal quebrando o silêncio da sala. Falavam de amor e do último encontro que haviam tido. Ela achava "um bocadinho" prosaico o escritório da Rua da Alfândega, "um bocadinho exposto".
Já se tratavam por você.
— Você não imagina — dizia ela — o sacrifício que me custou!. E os homens ainda falam mal das mulheres...
Ele, então, fazia-se meigo, derreava a cabeça, sem prejudicar a linha correta do porte, dando palmadinhas na mão dela, numa intimidade de casal. Tirou da botoeira a rosa que trazia e ofereceu-lha com uma graça muitíssimo gentil.
Depois, ela pediu licença por um instante — mandou trazer vinho fino do Porto que o criado apresentou numa salva de prata.
Eram quase dez horas quando o visconde quis retirar-se.
— Agora espere o Lulu - insistiu D. Branca. — Ele não deve tardar...
— Já se havia demorado tanto! — retrucou o banqueiro. O amigo Furtado chegava cansado... e não era bonito, não era correto... E retirou-se.
Quando a campainha deu sinal do secretário, ia para mais de onze horas. A esposa não lhe ocultou a visita do visconde.
— Fizeste mal em o deixar ir.
— Disse que era tarde, que você vinha cansado...
— E que novidades trouxe ele?
— Que a família imperial chegou a Cannes. Os médicos receitaram duchas, estricnina e aplicação do gelo ao imperador.
— Já sei: o tratamento hidroterápico...
— Isso.
— Todos vão bem?
— Todos; o Velho mesmo tem esperança de se restabelecer.
— Coitado! Sempre muito amável, o visconde!
— Amabilíssimo! Perguntou pelo Raul, pela Julinha, pelos Holanda... até pelo Condicional!...
Furtado já encontrara a mulher no vale dos lençóis, e, enquanto se despia) ela lhe ia dizendo tudo.
A noite estava fresca: eram os primeiros dias do inverno que aproximava eriçando a cabeleira das árvores.
Evaristo e a mulher tinham visto, da janela, entrar e sair o visconde. O bacharel não se conteve: — armou o punho indignado:
— Corja!
E recolheu cheio de ódio, tempestuoso, numa das suas explosões mal contidas de jacobino incendiário. — "Neste país devia haver uma forca, um cadafalso em cada esquina!"
Quanto a Adelaide, continuava a abrir-lhe os olhos:
— "Vamo-nos daqui, Evaristo... Mudemo-nos de uma vez... Abandonemos este Rio de Janeiro, que é um inferno... uma tentação!"
Furtado não a esquecera, apesar da discórdia que reinava entre as duas famílias. Era o primeiro a querer que ela se mudasse, que o bacharel fosse morar em outra casa, longe de Botafogo, mas não do Rio de Janeiro...
Adelaide cativava-o ainda irresistivelmente. Nas horas em que os dois casais se reuniam para almoçar ou jantar, ele sentia afluir-lhe do coração todo o sangue das veias numa pletora sensual, num gozo abstrato e mudo, que o desnorteava; e ela, como se lhe percebesse as secretas maquinações e a intensidade do calor afetivo, nem o olhava sequer...
As refeições eram rápidas agora — rápidas e frias como o cumprimento de um dever penoso. Trocavam-se glacialmente os — bons dias! — e quase não se falava mais, quase não se dizia outra coisa.
O bacharel era homem de resoluções momentâneas e inesperadas; opunhase a qualquer idéia da esposa, mas acabava sempre concordando com ela, e o seu fiat era um decreto irrevogável.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.