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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

Como puas lancinantes, esse egoísmo, que é a suma de todos os instintos da espécie, tanto mais veementes e indomáveis quanto menos culto é o espírito da mulher, não contaminada de pecado, na exuberante razão do organismo sadio, assanhava-lhe as iras, a lhe morderem como cobras, o coração, que lhe projetava nas veias uma torrente abrasada de ódio a Gabrina, a todas as mulheres que lhe disputassem a presa adorada, contra si mesma, que o abandonara, contra as coisas que a cercavam, testemunhando o seu penar, contra aquele astro radiante a iluminar a luta travada no âmbito escuro da sua alma, como lâmpada tristonha a revelar o monstro de paixão acuado na caverna das entranhas, latejantes de desejos...

Passava-lhe, então, pela mente alucinada, a torva idéia de vingar-se, rebaixando-se, de poluir-se, de atolar-se no charco da lascívia, saciando-se até à embriaguez, ao primeiro encontro, fora embora cúmplice do imundo crime, o mais hediondo dos homens. Crapiúna, outro qualquer, ainda mais vil e detestável, contanto que a sua depravação, com requintes de despejo, fizesse sofrer Alexandre, o desalmado, o frio homem, que não perguntara por ela, a Teresinha.

E a voz diabólica, vibrando em místicas melodias, de um tom angélico, e dominando o tumulto da sua alma atribulada, repetia: "Por que te golpeias assim? por que te maceras nessa luta mortificante e estéril, frágil criatura?...

Vai; curva-te, como escrava, aos pés do ente adorado, beija-lhe as mãos, unge-as com o bálsamo do teu pranto, porque o amas... Uma exortação de alto romantismo, a dessa voz de anjo e diabo...

Despertou-a do cismar torturante, a voz de Teresinha:

— Que bonito luar, Luzia. Dá vontade à gente de passar a noite em claro. Como está bem visível! São Jorge e o cavalo empinado. Dizia-me um tapuio velho da Serra Grande que a lua protege a quem quer bem. Quando uma tapuia gentia tinha saudades do marido ausente, olhava para ela, e lá lhe aparecia o retrato da criatura querida, ou nela casavam, conduzidos pelos olhares, as almas do par, separado por léguas de distância.

Luzia, maquinalmente, olhou para a lua a navegar serena no céu nítido, e pensou que, àquele momento, Alexandre também a contemplava, triste e só, por entre as grades do cárcere infecto.

— A lua – continuou Teresinha. com melancolia – leva recados e juras dos noivos, e amolece o corpo da gente. E o tapuio dizia que ela era mãe da terra, das coisas e das criaturas vivas; protegia as plantações, mandando chuva e orvalho, aquecia os ninhos chocos, dava cheiro às flores em botão e cio aos animais. Também tirava o juízo à gente, quando se zangava... Ah! que saudades me faz o luar! Foi por uma noite destas, que conheci o Cazuza pela primeira vez... Ai, ai... Deus... meu pai...

E ela se esticava, num grande bocejo de volúpia, deitada sobre a esteira, desalinhadas, pelo vento, as roupas leves, os olhos quase cerrados à imortal saudade do primeiro amor, sempre vivo no inquieto coração devastado.

— Tomara que já amanheça – continuou, bocejando – Como custa a passar a noite!... Em que está você tão embebida, Luzia?

— Eu!... Estou imaginando na minha triste vida...

— Arre lá com tanto disfarce! Você, minha negra, não se abre comigo.

Estava, mas era longe daqui, rezando à lua como as tapuias.

— Você tem coisas, Teresinha!?...

— Não chorei na barriga da minha mãe, mas adivinho. Por que não diz logo que está com o juízo em Alexandre?

— Como hei de pensar em quem não faz caso de mim!... Nem perguntou a você, por mim...

— Não perguntou por quê?... Porque você, por pique, não foi mais à cadeia. Você é caprichosa, ele também... Mas não se me dava de apostar como ambos e dois estão arrependidos...

— Acha, então, que depois do que houve, eu deveria entreter uma... coisa sem fundamento, sem esperança?

— Qual o quê! A gente faz de um argueiro um cavaleiro, fica amuada, jura por quantos santos, faz finca-pé... É o mesmo que nada. Quem quer bem não tem vergonha. Eu, ralada neste mundo, que o diga.

— E a história da Gabrina?

— Mentira, tudo mentira. Não duvido que ela levantasse, com aquela cara de santa, toda denguices e inocências, o falso testemunho. É uma rapariga bemparecida, bem feita de corpo, mas tem a alma deste tamanhinho. A Chica Seridó tem comido candeias, desde que tomou conta dela. É capaz de tudo, meu Deus perdoaime. Não duvido que tenha feito esse malefício por ciúme...

— Por ciúme?...

— Pensa que todos os homens se babam por ela, e, como Alexandre não lhe deu trela...

— Demais, que tenho eu com isso? Tanto se me dá que ela goste dele, como que não goste. Só me empenho para ele ser livre. O mais... está acabado...

— Que soberbia, Luzia! Você ainda é castigada.

— Por quê? Se não faço mal a ninguém...

— Deixe estar. Quem for vivo verá... Não há mal que sempre dure... Amanhã!... Ali! miserável; tenho aqui o fio da meada!

Teresinha, como se falasse a um ente miserável, estendeu, com ar triunfante, o punho cerrado.

— Bem dizia eu – exclamou Luzia – que você sabe alguma coisa...

(continua...)

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