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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

E foi o bastante: os atenienses saltaram logo, espinoteando com a novidade. Meteram-lhe as botas; chamaram-lhe por toda a parte “besta! cabra atrevido!” Os lojistas, os amanuenses de secretaria, os caixeiros freqüentadores de clubes literários, em que se discutia, durante anos, a imortalidade da alma, e os inúmeros professores de gramática, incapazes de escrever um período original, declararam que era preciso - meter-lhe o pau! “Escová-lo, para se não fazer de atrevido e desrespeitador das coisas mais sagradas desta vida: - a inocência das donzelas, a virtude das casadas e a mágoa das viúvas maranhenses!” Nas portas de botica, nas esquinas do Largo do Carmo no fundo das vendas em que se vendia vinho branco e no interior de todas as casas particulares juravam nunca ter visto semelhante escândalo de linguagem pelas folhas. Falou-se muito nos jornais em Gonçalves Dias, Odorico Mendes, Sotero dos Reis e João Lisboa; apareceram descomposturas anônimos, pasquins, contra Raimundo; escreveram-se obscenidades pelas paredes, a giz e blac-verniz, contra o “Novo poeta d'água doce!” Ele foi a ordem do dia de muitos dias; apontaram-no a dedo, boquejaram, por portas travessas, que ia sair um jornalzinho, intitulado O Bode” só para botar os podres do ordinário na rua! Os moleques cantavam, contra o perseguido, torpezas tais, que este nem sequer as compreendia.

E, alheio ao verdadeiro sentido das descomposturas e das indiretas, jurou, pasmado, nunca mais publicar coisa alguma no Maranhão.

— Apre! Com efeito! Dizia.

E tomou deveras um invencível nojo por aquela província indigna dele; impacientou-se por consumar o seu casamento com Ana Rosa e retirar-se!... daquele chiqueiro de pretensiosos maus.

— Safa! terrinha estúpida! resmungava sozinho, a fumar cigarros, de barriga para o ar, no seu quarto.

Todavia, o pior lhe estava reservado para o mês de junho.

CAPÍTULO VII

Junho chegou, com as suas manhãs muito claras e muito brasileiras.

É o mês mais bonito do Maranhão. Aparecem os primeiros ventos gerais, doidamente, que nem um bando solto de demônios travessos e brincalhões, que vão em troca percorrer a cidade, assoviando a quem passa, atirando ao ar o chapéu dos transeuntes, virando-lhes do avesso os guarda-sóis abertos, levantando as saias das mulheres e mostrando-lhes brejeiramente as pernas.

Manhãs alegres! O céu varre-se nesse dia como para uma festa, fica limpo, todo azul, sem uma nuvem; a natureza prepara-se, enfeita-se; as arvores penteiam-se, os ventos gerais catam-lhes as folhas secas e sacodem-lhes a frondosa cabeleira verdejante; asseiam-se as estradas, escova-se a grama dos prados e das campinas, bate-se a água, que fica mais clara e fresca. E o bando turbulento não pára nunca e, sempre remoinhando, zumbindo, cantando lá vai por diante, dando piparotes em tudo que encontra, acordando as pequeninas plantas, rasteiras e preguiçosas, não deixando dormir uma só flor, enxotando dos ninhos toda a chilradora república das asas. E as borboletas, em cardumes multicolores, soltam-se por aqui e por ali, doidejando; e nuvens de abelhas revoam, peralteando, gazeando o trabalho' e as lavadeiras, que vadias! brincam ao sol, sobre os lagos, dançando ao som de uma orquestra de cigarras.

A gente bem conformada, nessas manhãs, acorda lépida, depois de um sono bom, completo, bebido de uma vez, como um copo de água fresca. E não resiste ao convite do bando endemoninhado que lhe salta pela janela e lhe invade o quarto, atirando ao chão os papéis da mesa, arrancando os quadros da parede e desfraldando as cortinas, que tremulam no ar em flutuações alegres de bandeira; não resiste —veste-se rindo, cantarolando, e vai para a rua, para o campo, mete uma flor na lapela do fraque, agita a bengala, fala muito, ri, tem vontade de correr e almoça nesse dia com um apetite selvagem.

A madrugada da véspera de São João era dessas. Raimundo, antes de raiar o dia, já se achava de pé e em caminho, junto com Maria Bárbara, Manuel e Ana Rosa, para o sitio, onde seria realizada a grande festa tradicional dos tempos do defunto coronel. A velha arrependia-se de não ter esperado pelo bonde das seis horas e, de cansada, assentou-se com o genro no banco de Uma das quintas do Caminho Grande; Raimundo continuou a andar distraidamente, de braço dado à rapariga.

Clareava o tempo; a este o horizonte tingia-se de vermelho para o seu grande parto quotidiano e deslumbrante; ia nascer o sol. Houve uma grande alegria rubra em torno do ventre de ouro e púrpura, que se rasgou afinal, num turbilhão de fogo, jorrando luz pelo céu e pela terra. Um hino de gorjeios partiu dos bosques; a natureza inteira cantou, saudando o seu monarca!

Raimundo, estático ao lado de Ana Rosa, não podia conter o seu entusiasmo. — Como é belo! como é belo! exclamava ele, apontando para o nascente.

(continua...)

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