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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

— Ora, que quero dizer!... Quero dizer que a senhora minha sogra abusa do pacto feito entre nós quando me casei! E abusa da sua posição de minha benfeitora, contrariando-me e torturando-me só pelo gostinho de ser sogra!

Palmira interveio a favor dele, mas em tom modesto.

— Leandro tem razão, mamãe! Que mal faz que ele fique hoje comigo? Ele é meu marido!...

— E a senhora que gosta tanto de citar a Bíblia, reforçou meu genro, devia saber que ela manda à mulher deixar pai e mãe para seguir o marido.

— É, mamãe! A Bíblia manda!... confirmou minha filha com uma carinha brejeira. Lembre-se de que Deus Nosso Senhor disse a Eva para obedecer a Adão e acompanhá-lo por todo lugar onde ele fosse!

— Mas, observei-lhe, Eva não tinha mãe, a seu lado, que, se a tivesse, não daria ouvidos à serpente...

— Oh! exclamou Leandro agastado. Dir-se-ia que a senhora me chamou “Serpente!” Serpente! Tem graça!... Eu é que sou a serpente!... Pois minha senhora, se aqui temos pomo de discórdia, não sou eu com certeza que o promovo. E, quanto ao fato de Eva não ter mãe, digo-lhe então, francamente, que Adão, esse é que era deveras um felizardo, porque não tinha sogra! Ouviu, minha senhora? — Não tinha sogra!

E depois de passear agitado pela sala, respingou ainda, enquanto eu, assentada junto à mesa, percorria as páginas de uma ilustração: Serpente! Ora esta! — Serpente!

— Eu lhe não chamei serpente, homem de Deus! disse afinal, fitando-o através das minhas lunetas. O senhor não tem razão! Creio que até agora ainda não exorbitei dos meus direitos ajustados antes do casamento! O senhor é que se está excedendo, meu genro!

E tornei ao meu jornal.

E serenou um pouco e prosseguiu depois, sem deixar de espacear pela sala:

— Mas enfim, queria que me dissessem que mal viria ao mundo, se eu ficasse hoje ao lado da Palmira!...

E parou defronte de mim, para me falar em voz mais baixa: — Quer que lhe diga então uma coisa, Sr.a D. Olímpia? A senhora, com essas suas exigências, fazme ter idéias que me repugnam! Eu amo muito minha mulher; sou homem, sinto-me comovido ao lado dela; desejo-a; (E creio que com isso não cometo um crime!) mas, depois de jantarmos juntos e juntos passarmos algumas horas, tenho de retirar-me e meter-me sozinho em casa! Ora diga-me: parece-lhe que seria muito censurável, se eu, ao sair daqui, fosse procurar onde não tenho direito as consolações de que a senhora me priva ao lado da única mulher que legitimamente mas pode dar?...

— Leandro! Leandro, não digas isso! exclamou minha filha, correndo a lançarse nos braços do marido. Ouça, mamãe! ouça o que ele está dizendo!...

— Não te podes queixar de mim, filhinha! respondeu meu genro, triunfante com o seu estratagema. Queixa-te de tua própria mãe!

— Não! protestou ela, passando-lhe os braços em volta do pescoço e beijando-o. Não quero que digas isso, mesmo sabendo que serias incapaz de semelhante deslealdade!

E correndo de novo para mim, já com as lágrimas a quebrarem-lhe a voz: — Vamos, mamãe, diga-lhe por amor de Deus que fique! Bem vê que estas coisas me põem nervosa! — E batendo com o pé: — Eu não consinto que Leandro vá hoje daqui sozinho! Se mamãe não o deixa ficar, sou eu que me vou com ele! Sozinho já o não deixo hoje!

— Pois fiquem juntos! fiquem! respondi finalmente, erguendo-me, disposta a retirar-me para o quarto. Vocês no fim de contas não passam de duas crianças, e fazem-me a mim também criança!

Palmira pôs-se a saltar, batendo palmas; e, assim aos saltos, veio até a mim, apanhou-me o rosto com ambas as mãos e cobriu-me de beijos estalados.

Leandro, cuja fisionomia fora a pouco e pouco se abrindo e alegrando, chegou-se também para despedir-se de mim.

Notei, no seu olhar, que ele me agradecia sinceramente aquela concessão.

— Vá! Vá! disse-lhe eu, batendo-lhe uma amigável palmada no ombro. Mas fica para outra vez prevenido desde já de que, quanto mais longe forem as suas ameaças, tanto pior para o senhor... Deus lhe dê muito boa noite!

Apertei-lhe a mão, beijei inda uma vez Palmira e retirei-me para o meu quarto.

Bem ouvi ainda resmungar meu genro com a mulher. Queixava-se de mim, naturalmente. Compreendi que nesse momento estava sendo amaldiçoada por ele, mas sentia-me radiante, porque tinha ampla convicção de que minha filha, apesar de casada havia já quase dois anos, ia ser feliz, muito feliz, nos braços do esposo.

Recolhida, depois da minha habitual oração, em que pedia a Deus

continuasse a dar-nos, a ela a felicidade e a mim forças para poder zelar por esta, deitei-me e adormeci, com a alma nadando em júbilo.

Tinha eu conseguido boa parte do meu ideal. À custa daqueles dúbios enfados e arrufos passageiros, a grande ilusão do amor instinto, a deliciosa quimera da felicidade sensual, mantinha-se equilibrada, sem cair por terra como desalada mentira, nem perder-se no vago como desvairado sonho.

(continua...)

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