Por Aluísio Azevedo (1895)
E" um leilão! não há dúvida!... considerou o rapaz, subindo até ao primeiro andar, e o seu raciocínio foi confirmado logo pela presença de um sujeito que, de martelo em punho, apregoava o preço dos móveis a um grupo de arrematantes:
- Vinte mil réis pelo espelho! É de graça, meus senhores! Vinte e cinco mil réis! Ninguémdá mais?.
Teobaldo, com esta música a perseguir-lhe os ouvidos, atravessou a sala e depois os quartos, até encontrar o criado que o recebera naquela noite do Lírico.
- Ah! é o Sr. Teobaldo?
- Sim, disse este.
- Aqui tem esta carta.
O rapaz tomou a carta, abriu-a e leu:
Mudei-me para Santa Teresa; agora já não tens razão para fugir de mim; espero-te, não te demores.
Tua LEONÍLIA
Vinha escrito o nome da rua e o número da casa.
Teobaldo sem ânimo de entestar com as idéias que lhe trouxe a leitura dessas poucas palavras, desceu à rua e, quase que maquinalmente, foi seguindo a indicação do bilhete. Chegou às três horas ao lugar marcado; era uma casinha nova, muito modesta e pequenina, escondida entre meia dúzia de árvores e coberta de trepadeiras, que lhe davam um aspecto encantador.
Ele atravessou o pequeno jardim e bateu.
Leonília veio em pessoa abrir a porta.
Não parecia a mesma, tal era a transformarão porque passara; até a sua própria fisionomia parecia outra.
Trazia um singelo vestidinho de chita, apertado à cintura, que mal deixava perceber uma pequena parte do colo; os braços, porém, mostravam-se livres por entre a largura das mangas e o cabelo, enrodilhado sobre a nuca e seguro por um simples pente de tartaruga, já lhe não caía na testa como dantes, mas ao contrário dividia-se-lhe em dois bandós naturais fazendo ver uma fronte cor de mármore, cujos sutis reflexos de ouro mais pálida a torravam.
Por únicas jóias trazia ao pescoço a medalha que lhe dera Teobaldo e no dedo anular da mão esquerda uma aliança de casamento; em vez de caprichosos sapatos de peito aberto e grande salto, que ela até aí usava, tinha agora uma honesta botina, preta, de duraque, apenas guarnecida por um laço de fita da mesma cor.
O filho do barão, ao vê-la assim tão outra, ficou longo tempo a contemplá-la. perguntando com o gesto que significava aquela transformação.
Ela, em resposta ao pensamento dele, sorriu e disse, indo colocar-se-lhe ao alcance dos lábios:
- Estás satisfeito?
- Eu?
- Sim, creio que não poderás dizer agora o que disseste ontem.
- Mas tu és doida?... Não te compreendo, filha.
- Isto quer dizer que em resposta à tua frase de ontem, resolvi separar-me de tudo que me prendia ao passado; vendi o carro, a mobília, as jóias, as roupas, e, com o produto dessas coisas, suponho que terei um pequeno fundo de reserva para o dia em que me abandonares.
E passando-lhe o braço no ombro:
- Aqui nada há que te possa fazer corar!... Nada disto foi pago ainda e não o há de ser sem ordem tua; também é tudo tão pouco que não tens que recear pela despesa...
Ficaram ambos calados por um instante.
- Vem ver a casa comigo, disse ela afinal, puxando-o brandamente para fora da pequena sala. É um verdadeiro ninho de noivos pobres... Aqui tudo é simples quanto pode ser: mobília americana, louça de família... Vês?... tenho até uma máquina de costura...
Teobaldo olhava para tudo aquilo, como se assistisse à representação de uma comédia; afigurava-se-lhe que, uma vez caído o pano do teatro, Leonília tornaria logo ao primitivo estado.
- Então? perguntou esta, - não me dizes nada? Ficas assim, mudo, como se nada disto te interessasse?.
- É que ainda não voltei a mim, filha. Estou pasmo!
- Pois então prepara-te para ouvir o mais extraordinário: do princípio do mês que vem em diante vou trabalhar em casa do Gabardan.
- Que Gabardan?
- Aquele cabeleireiro da rua Direita.
- Tu?
- Sim. Meu pai, que era francês como já sabes, foi o primeiro cabeleireiro aqui da corte; eu aprendi a trabalhar com ele e, até o dia em que lhe fugi de casa, tinha as honras da sua primeira discípula; ninguém me excedia na oficina!... E juro-te que, se voltar ao serviço, hei de sair-me tão bem ou melhor do que nesse tempo! Ah! não calculas! eu fazia muito mais do que todas as minhas companheiras e apresentava sempre trabalho muito limpo; já ganhava um belo ordenado!
- É admirável! respondeu o rapaz.
- Ora, prosseguiu Leonília, o Gabardan há muito que me fala em entrar para a casa dele; hoje lhe mandei dizer que aceito e, do princípio do mês que vem cm diante, é natural que...
- De sorte que tencionas fazer uma completa regeneração...
- Só depende de ti...
- É por conseguinte uma regeneração por meio do amor?
- Não! O amor servirá apenas para dar o primeiro impulso; depois o interesse e a ambição se encarregarão do resto.
- A ambição?
- De certo; trabalhando com vontade, é natural que apareçam lucros e com estes a febre de prosperar. Então, todo o meu ideal será ter uma boa casa, uma firma bem acreditada, um capital seguro e, para conseguir tudo isso, é indispensável uma conduta exemplaríssima; é necessário que não possam dizer a mais pequenina coisa contra mim. Compreendes?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.