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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

Uma idéia o preocupava todavia, desde o momento em que os considerou de perto. É que, ao vê-los assim, cheios de saúde, gentilmente vestidos e empoados, levantando entre as abas da casaca a petulante ponta do florete, lembrava-se da sua própria figura essa noite ao lado de Alzira, e seria capaz de jurar que já em sua vida, ou nos seus sonhos, tinha visto aqueles dois homens.

Salomé trouxe-lhe pão fresco e leite fervido.

O pároco deu às visitas os melhores assentos que havia na casa, e ofereceu-lhes do seu almoço.

Enquanto comiam, o conde expôs o motivo da sua viagem a Monteli.

— Venho, senhor cura, disse ele, entregar-lhe um cofre e uma carta, que encontramos no espólio da falecida condessa Alzira... Aqui estão. Trazem o seu nome.

— O meu nome?... balbuciou Ângelo, a tremer, visivelmente perturbado, mas...

— Testamenteiros dela, como somos, acrescentou o conde, indicando ao mesmo tempo Bouvier, cumpre-nos fazer entrega desses objetos. Ei-los.

E apresentou-lhe um pacote de pouco mais de um palmo de tamanho, cuidadosamente embrulhado e lacrado. Tenha a bondade de recebê-los.

Ângelo, sumamente pálido, estendeu a mão, hesitante.

E tal era o seu tremor, que o conde teve de ajudá-lo a quebrar o selo do pacote e tirar de dentro a carta, que lhe passou incontinente.

— Leia, disse. Creio que esse papel explica a razão de ser do cofre...

Ângelo abriu a carta e leu o seguinte:

"Respeitável Cura de Monteli.—Desejo e peço a Vossa Reverendíssima que se encarregue de distribuir pelos infelizes da sua pobre paróquia, ultimamente tão vitimada pela peste, a quantia que acompanha esta carta e que se acha dentro de um cofre, por minha mão fechado e sobrescritado a Vossa Reverendíssima. Outrossim, peço que nas suas orações de santo interceda algumas vezes junto a

Deus por minha triste alma pecadora arrependida e contrita." Assinava "Alzira".

Com a leitura daquelas palavras, que pareciam vir do outro mundo, que pareciam vir do fundo nebuloso dos seus sonhos, Ângelo estremeceu todo e fez mais lívido que a própria Alzira, no momento em que ela pela primeira vez lhe surgiu da sepultura. Aquela carta, que um frio sopro de morte lhe arrojava às mãos, vinha obrigá-lo a pensar nessa mulher já extinta, que tanto aliás o procurava ainda.

Oh! Aceitando aquela missão teria que pensar nela eternamente... Teria que envolver seu nome impuro nos sagrados dizeres das suas fervorosas orações!... Teria que falar a Deus a respeito dessa misteriosa cúmplice, de quem ele se não queria recordar nunca, e teria de a fazer conhecida e abençoada por todos os pobres da aldeia, enquanto durasse aquele dinheiro, fruto da prostituição!

E repeliu o cofre, disposto a não aceitar o encargo.

Mas pensou, antes de proferir a recusa; teria ele porventura o direito de assim proceder?... Teria ele o direito de privar os miseráveis de Monteli daquele utilíssimo socorro, que uma alma, sedenta de perdão, lhes enviava do seu leito de morte?...

E não seria fraqueza de sua parte, temer tanto ao traiçoeiro inimigo, que o vinha surpreender à noite durante o sono, quando justamente a sua consciência não era responsável pelos seus pensamentos?... Pois então a sua fé e a sua confiança em si próprio eram tão frágeis e tão mofinas, que assim covardemente fugia da luta, antes mesmo de começar o combate?

— Não! pensou ele, resoluto, pondo-se de pé e estendendo a mão sobre o cofre. O meu dever será cumprido! Se mais sofrimentos me estão reservados por isso, tanto melhor! tanto melhor, porque mais completa será a minha provação! Maria sofreu muito mais, quando lhe arrancaram o filho dos seus amorosos braços de mãe, para atirá-lo aos cruentos braços de uma cruz!

E, voltando-se tranqüilamente para os outros dois, disse-lhes sem hesitar:

— A vossa comissão, cavalheiros, está terminada. este dinheiro será discretamente distribuído pelos necessitados, e eu pedirei a Deus pela alma de quem lhes envia a esmola...

O conde e Artur Bouvier fizeram as suas despedidas. Ângelo foi

acompanhá-los até à porta, e depois recolheu-se ao quarto, colocando o cofre sobre a mesa.

Despejou-o. O conteúdo elevava-se à quantia de cinqüenta mil francos em várias espécies. O pároco separou logo algumas placas de ouro e prata, para nesse mesmo dia principiar a distribuição de socorros.

Oh! ele, sabia melhor que ninguém aonde aquele dinheiro deveria encontrar o seu destino!... Quantas vezes, pensando em certas desgraçadas famílias de jornaleiros, reduzidas à fome pela poste, não chorou amargamente por nada mais de seu ter para lhes dar?... Quantas vezes não se privou do mais que restritamente necessário, para que não faltasse o leite a um desgraçadinho a quem já faltava mãe?... Quantas vezes não levou a sua esfarrapada batina à casa dos ricos do lugar, e não lhes estendeu a mão, esmolando para os que choravam de penúria e de frio?... Quantas vezes não se privou dos lençóis da cama, para cobrir com eles o corpo dos que gemiam na enxerga nua?...

(continua...)

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