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#Romances#Literatura Brasileira

Memórias de um Sargento de Milícias

Por Manuel Antônio de Almeida (1852)

Leonardo, que percebera o que aquilo queria dizer, fez um gesto arrebatado sentando-se em uma cadeira, porém com tanta infelicidade, que atirou ao chão uma almofada de renda que se achava junto dele: com a queda rebentaram-se os fios, e uma porção de bilros rolou pela casa. Por maior infelicidade ainda a almofada era de Chiquinha, e Chiquinha tinha grandes ciúmes pela sua almofada. Levantou-se ela do seu lugar já fervendo de raiva; pôs as mãos nas cadeiras, e balançando a cabeça à medida que falava, exclamou:

— Ora dá-se um desaforo de tamanha grandeza?... vir da rua com os seus azeites, todo esfogueteado, e de propósito, e muito de propósito, fazer-me o que estão vendo, só para me desfeitear, como se fosse aqui um dono de casa que pudesse desfeitear a qualquer sem quê nem para quê!...

Leonardo ouviu tudo sem interromper, procurando sopear a raiva; e enquanto Chiquinha tomava fôlego, respondeu com voz trêmula e entre cortada:

— Não se meta com a minha vida, porque eu também não me importo com a sua; se estou com os azeites...

— Ah! bom côvado e meio! atalhou Chiquinha, ah! bordo da nau!... ah! major

Vidigal!...

— Já lhe disse...

— Qual já lhe disse, nem meio já lhe disse!... namorado sem ventura...

Estas palavras fizeram o efeito de uma faísca em um barril de pólvora. Avançou o Leonardo para Chiquinha com os punhos cerrados e espumando de cólera.

— Se me diz mais meia palavra... perco-lhe o respeito... eu nunca lhe dei confiança; e apesar de ser a senhora lá o quer que é de meu pai... perco-lhe o respeito...

— Você sempre mostra que tem raça de saloio, disse Chiquinha empertigando-se e sem recuar um passo.

O Leonardo-Pataca, que estava no interior da casa, acudiu apressado ao barulho, e veio achar os dois ainda em atitude hostil; vendo o filho quase não quase a desfeitear o adorado objeto de seus derradeiros afetos, não trepidou em desbaratar com ele.

— Pedaço de mariola... pensas que isto aqui é como a casa de teu padrinho donde saíste... quero aqui muito respeito a todos... do contrário... se já uma vez te dei um pontapé que te fiz andar muitos anos por fora, dou-te agora outro que te ponha longe daqui para sempre...

— Nunca pensei, interrompeu Chiquinha dirigindo-se ao Leonardo-Pataca, querendo afear mais o caso; nunca pensei que na sua companhia se viesse a sofrer semelhante coisa...

— Não faças caso, menina, isto é um pedaço de mariola a quem hei de ensinar; por causa de ninguém dou-lhe eu uma rodada, se não por tua causa...

— Por causa dela!... atalhou o rapaz; tinha que ver! há de lhe dar bom pago; tão bom como a cigana...

— Mas nunca lhe hei de dar, acudiu Chiquinha enfurecida com este insulto; nunca lhe hei de dar o que lhe deu tua mãe...

Com isto o Leonardo-Pataca descoroçoou completamente, que dilúvio de amargas recordações não fizeram tão poucas palavras cair sobre sua cabeça!

— Espera, maltrapilho, espera que te ensino, exclamou vermelho de cólera; espera que te ensino...

E entrando repentinamente no quarto da sala, saiu de lá armado com o espadim do uniforme, e investiu para o filho. Convém dizer que o espadim ia embainhado.

— Não se ponha a perder por minha causa, exclamou Chiquinha agarrando-o pela camisola de chita com que ele estava vestido.

Era inútil porém o medo de Chiquinha, porque o rapaz, vendo que o negócio ia-se tornando feio, tendo-lhe ficado um terror instintivo do pai depois daquele pontapé que nunca lhe saíra da memória, tinha-se posto ao fresco na rua, fechando a rótula sobre si.

— Oh! maroto, disse ainda o Leonardo-Pataca, que te havia desancar...

O Leonardo que fugia por um lado e a comadre que entrava por outro, pois estivera ausente durante toda a cena. Apenas foi largando a mantilha e viu os dois atores que tinham ficado em cena ainda nas posições do último quadro, tratou de indagar qual fora o drama que se acabava de representar.

— Ora foi uma das costumadas do afilhado dos seus amores, respondeu Chiquinha, ainda não sossegada.

— Porém ia-lhe saindo caro desta vez, acudiu Leonardo-Pataca.

— Pois deveras, atalhou a comadre indignada; pois deveras o compadre estava armado de espada para dar no rapaz?

— Olá! que levava tão duro como osso!

— Mas então por quê? quantas mortes fez ele de uma vez? onde é que pôs fogo na casa? Triste coisa é um filho sem mãe!... Aposto que se eu cá estivesse nada havia de suceder!...

— Sim, respondeu Chiquinha, porque logo havia de tomar as dores por ele, segundo é seu costume. Aí está; muitos filhos têm mãe, e entretanto elas servem-lhes para isto: tomam as dores por outros, e deixam-nos de banda.

— Qual! histórias! é que tudo leva seu bocado de mau caminho.

— Oh! senhora! atalhou Leonardo-Pataca, se isto vai assim, não há um momento de sossego nesta casa; acabada uma, começa outra; o que não há de dizer esta vizinhança? Olhem que isto aqui é casa de um Oficial de Justiça.

— Mas enfim, disse a comadre, onde está o rapaz? onde é que o enterraram?

— Saiu por ali desencabrestado, e tomara que cá não volte.

(continua...)

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