Por Franklin Távora (1879)
Ângelo, dando a tal episódio a importância que lhe merecia, pôs-se a refletir maduramente; e logo uma multiplicidade de interrogações encheu o seu entendimento. Por que lhe escrevera? Que era lícito inferir de lhe escrever ela depois da fugida do marido? Como se explicava o não se ter esquecido ainda dele e do pedido que lhe fizera? Ângelo sentiu-se volver ao passado, que já tivera tanta esperança e tanta grandeza para ele. Maurícia foi pouco a pouco reaparecendo em sua imaginação por entre mil hesitações, temores, promessas vãs, riscos iminentes, ausências repentinas, sorrisos e lágrimas.
Agora, as condições não eram as mesmas. As circunstâncias que cercavam a evasão de Bezerra foram tão singulares que tornavam impossível nova reconciliação.
Maurícia estava, portanto, livre, inteiramente senhora das suas ações. O antigo amor que mostrar por ele tinha ressurgido, e era disto prova evidente aquela carta. No espírito do bacharel a imagem de Maurícia desenhou-se diante da de Júlia. estabeleceu-se logo muito naturalmente o confronto entre estas duas tentações; Ângelo não hesitou senão por alguns segundos; aquela venceu esta.
Ângelo, porém, enganava-se ainda desta vez. Não era o amor de Maurícia que voltava; era uma nova luta que se ia travar para arrancá-lo do poder da atriz. Uma grande generosidade estava oculta nas demonstrações do ressurgido amor.
A situação de Maurícia nunca se afigurara tão cruel para ela. Apenas livre de um tormento, já caía a infeliz senhora em outro porventura maior. O amor de Sinhazinha assombrou-a como se fora um espectro. Quando ela, de noite, refletiu sobre o que a amiga da sua filha lhe revelara pela manhã, mal pode resignar-se a não lhe disputar a presa. Mas esta presa já estava nas mãos de outra mulher, e ela não tinha armas apropriadas para combater esta nova inimiga a que o teatro devera ter ensinado a arte de prender as suas vítimas em cadeias de flores envenenadas, pareceu-lhe arriscada empresa. Mas devia cruzar os braços, vendo escravizado aos pés dela o objeto dos seus afetos? O seu amor, e especialmente a sua vaidade, pela primeira vez estimulada, não lhe aconselharam a abstenção, antes a incitaram para a luta, ainda que de duvidoso resultado. Este poderia ser favorável aos seus intuitos, se ao plano procedesse rigoroso exame e se antes do emprego das armas ficassem assentados os melhores meios.
— Escrever-lhe-ei, Sinhazinha. Não acha melhor que eu escreva antes de irmos?
— É melhor! É melhor! - disse a menina.
Não obstante a promessa feita à Sinhazinha com grandes veras, Maurícia julgou prudente espaçar a sua ida ao Recife. A menina, cansada já de contar as semanas, os dias, as horas, começava a descrer da amizade e benevolência de Maurícia, quando, por uma tarde de novembro, a carruagem de Albuquerque parou no portão do sítio de Martins, e dela saltou a mãe de Virgínia, desacompanhada desta. Sinhazinha criou alma nova; correu à casa de Eugênia, abraçou-se com Maurícia e umedeceu-lhe o colo com lágrimas de alegria. Eram passados dois meses depois da sua estada no engenho.
No dia seguinte Martins procurou Ângelo no escritório. Achou aí um sujeito de quarenta e cinco anos, a quem Ângelo dava um tanto para abrir todos os dias a casa, varrer a sala, espanar os móveis e os livros, receber e entregar os autos. Chamava-se Jacinto.
Notando Martins que, sendo onze horas da manhã, Ângelo não estivesse ainda no escritório, o Jacinto respondeu:
— Nem virá tão cedo.
— Demora-se muito?
— Só estará aqui por volta das duas horas.
— Mas isto não acontece todos os dias - advertiu Martins.
— Todos os dias - tornou Jacinto.
— Até agora, quero dizer, há três meses atrás não era assim. Nunca deixei e encontrá-lo no escritório depois das nove e meia.
— Já lá se foi esse tempo. Agora, o doutor vive mais para as atrizes e os espetáculos que para as partes e os autos,
Martins, bom amigo, não quis alentar o diálogo sobre assunto tão escabroso. Demais, ele nada ignorava do que lhe dizia o ajudante, ou antes o servente de Ângelo. O Jacinto, porém, que tinha o vezo de dar com a língua nos dentes, prosseguiu sem se importar com a reserva de Martins.
— Isto não vai bem. O doutor não despacha os autos, e não ouve as poucas partes que ainda o procuram. Se o senhor se demorar algum tempo, há de ver protocolistas virem buscar os papéis retardados, e voltarem ainda desta vez sem eles. O doutor está precisando de conselhos. Se o senhor é seu amigo, não deixe de dá-los.
— Voltarei às duas horas - tornou Martins. Se, na minha ausência, Ângelo aparecer, diga-lhe que espere por mim.
— Não tenha susto. O senhor há de vir e de esperar ainda por ele.
Martins desceu, sentindo longes de tristeza na alma. Era um homem que devia ao menos gratidão a Ângelo que fazia dele tão boas ausências.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.