Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

O certo porém é que ninguém sabia do Cabeleira, ente incompreensível que surgia de súbito da terra sem ser esperado, e pela mesma forma desaparecia, como se metesse por ela adentro, por partes do demo, segundo alguns acreditavam, ou por ter em toda a parte parciais, ou protetores, segundo pensavam outros que se diziam melhor informados do que os primeiros.

CAPÍTULO XIII

O Cabeleira entretanto atravessava matos, riachos e tabuleiros por novos caminhos que, infatigável e ousado, ia abrindo, em direitura ao lugar do seu nascimento.

Sentia-se atraído para esse lugar por uma saudade infinda, por uma confiança enganosa e fatal.

Parecia-lhe que ninguém, nem a justiça dos homens nem a de Deus, na qual desde os mais verdes anos o tinham ensinado a não acreditar, teriam poder para arrancá-lo desses sombrios e protetores esconderijos, dessas grutas insondáveis, perpetuamente abertas às onças e a ele, perpetuamente fechadas ao restante dos animais e dos homens que não se animavam a transpor-lhes o escuro limiar com receio de ficarem sepultados para sempre em tão medonhos sarcófagos.

Tendo-se afastado do pé da mata onde haviam sido vencidos e capturados em seus redutos os outros malfeitores, descreveu uma oblíqua de cerca de uma légua no rumo do ocidente e desceu depois a uma distancia donde pudesse ter debaixo das vistas o Tapacurá, que lhe servia de guia através do sertão.

Estava em pleno deserto. Do lado direito protegiam-no estendidos tabocais e profundas gargantas de serra inacessíveis, sem habitação, sem viva alma; do outro lado do rio um espinhal basto, alguns serrotes escalvados, catingas sem fim, brejos combustos do calor do sol completavam o largo amparo que lhe abria em seu seio a natureza.

Com a seca abrasadora essa região, que nunca fora amena, ainda na forca do verde, estava inóspita, árida, cruel.

Via-se a espaços um pé de xiquexique perdido nos alvos tabuleiros, ou entre serros alcantilados, e junto do rio uma ingazeira com a folhagem coberta de samambaia, um juazeiro solitário e sem fruto.

Seria meio dia.

Bem que o Cabeleira pelo longo hábito de jornadear por dentro dos matos, e pelo cuidado que tinha de escusar importunos encontros, só à sombra das árvores fazia a travessa do deserto; contudo entraram ele e Luísa a experimentar o cansaço que o excessivo calor gera máxime durante uma viagem de muitas horas.

Luísa mal se podia ter sobre o cavalo, que nem ao menos oferecia o cômodo de uma regular montaria. A marcha do pobre animal tanto mais penosa tornava para os fugitivos quanto as forças lhe iam faltando em conseqüência do longo jejum, e da puxada viagem.

Desde muito tempo afeito a viver no deserto, tinha o Cabeleira adquirido uma virtude — sóbria, obra de longas privações, e fonte de admirável heroísmo; não assim Luísa, pobre menina, criada com grande afeto, e maternal solicitude.

Não tivera ela uma existência de gozos e grandezas, mas nunca lhe faltaram os cômodos que assegura a vida regrada da família, que, embora pobre, encontra no trabalho e na economia recursos folgados para todas as necessidades até alguns confortos. A sombra de um jatobá o Cabeleira parou, e, lançando o olhar por toda a natureza, que os abraçava como a imensidade abraça um ponto:

— Estamos fora de perigo — disse para Luísa.

Esta chorava em silêncio. Em seu rosto abatido, mas sempre belo transparecia a mágoa profunda que lhe minava o coração, onde se refletia a viva lembrança das cenas da noite anterior.

— De que chora, Luisinha ? — perguntou-lhe o bandido com doçura.

Só com a mudez e as lágrimas lhe respondeu a moça, em cujo espírito se haviam concentrado todas as sombras da tristeza, sombras espessas em que o sol a pino não pode lançar um raio de luz sequer.

— Está cansada, não é, meu amor? — perguntou o Cabeleira. — Estou para morrer. Sinto uma pena imensa no coração, e dores insuportáveis na cabeça.

— Não me queira mal, Luisinha, por eu ter sido a causa de todo este destroço.

— Não lhe quero mal; quero-lhe bem, muito bem, Cabeleira. Mas não posso esquecer-me de minha mãe, nem poderei resistir à minha desgraça, que eu considero muito maior do que a sua.

— Descansemos um pouco à sombra deste jatobá. Terei tempo de procurar algumas frutas para você comer.

— Não tenho fome, só tenho sede.

— Vamos então arranchar-nos debaixo daquela ingazeira, que fica a poucos passos do rio.

Tendo-se apeado ao pé da árvore indicada, o Cabeleira peou o cavalo em uma baixa que formava a margem, da qual não havia desaparecido de todo a grama nascida com o último inverno; e sem demora desceu ao poço contíguo para apanhar água em uma casca de sapucaia que descobriu por acaso entre umas folhas secas.

Notou que quanto mais se estendia a depressão do terreno para o lado do rio, mais aumentava a verdura que a revestia. Conheceu por fim que havia dado em uma vazante.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4344454647...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →