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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

Por mais que quizesse cerrar os olhos á luz da evidencia, não poude deixar de reconhecer que Christina, em vez de procurar furtar-se aos comprimentos demasiado significativos de Victorino, parecia antes excital-os e corresponder a elles.

Innocencio teve pejo de mostrar-se ciumento, mas não lhe foi possivel disfarçar o seu desgosto.

Christina ou não comprehendeu oufingio não comprehender o sentimento que despedaçava o coração de seu amante.

Geraldo-Risota, que era o companheiro infallivel de Innocencio, ria muito do que se estava passando, e repetia sempre ao afilhado :

— É o vento que está soprando.

Na ultima noite daquella semana, que foi a derradeira de assiduidade, Christina, apertando a mão de Innocencio no momento da despedida, limitou-se a dizer-lhe « boa noite !» e não lhe disse mais, como d'antes « até amanhã ».

O nobre mancebo resentio-se, e passou tres noites sem voltar á chácara de Fagundes.

Na quarta noite não poude vencer-se e correu aos pés de Christina.

A bella e desinteressada joven estava sentada junto de Victorino, e, cortejando com sensivel frieza a Innocencio, nem lhe perguntou se estivera doente.

Era muito : era claro, era evidente : o vento estava soprando.

O filho do riquissimo Sr. Cubas fazia voltar a cabeça á jovem romanesca, que uma noite dissera com enthusiasmo a Innocencio que desejava que o homem a quem amasse e que tivesse de ser seu esposo, fosse tão pobre, tão completamente pobre que somente lha pudesse dar o thesouro de seu coração.

Innocencio retirou-se da chacara de Fagundes uma hora depois de ter lá chegado, e arrastou oito noites seguidas sem voltar a ella. Amando sempre Christina, procorando desculpal-a, desgostoso de si mesmo, gastou dias

inteiros a procurar um pretexto para tornar a vêl-a, e a descobrir um meio que puzesse um termo honroso á situação melindrosa em que suppunha achar-se.

Está visto que acabou por fazer a desejada descoberta de um e outro.

O pretexto foi a inconveniência que resultava, do seu subito e inexplicavel desapparecimento de uma casa onde fora constantemente bem recebido e obsequiado. O meio foi a necessidade de ter uma explicação decisiva com Christina.

Tomada esta dupla resolução, Innocencio, desejando por um lado não encontrar-se com Victorino, e por outro escapar ao menos uma vez á companhia de seu padrinho, sahio uma tarde ainda cedo, e sósinho dirigio-se á chácara de Fagundes,

Christina estava no jardim e vio o mancebo aproximar-se della: não avançou um passo para encontral-o, nem recuou um passo para fugir-lhe ; ao menos porém sorrio ao vêl-o chegar.

Innocencio abrio o coração para receber aquelle correio.

— Até que emfím voltou ! disse Christina.

— Suppunha então que eu não voltaria ? perguntou o mancebo.

— Não sei, respondeu a moça; quem comprehende o coração de um homem ?

— Tem-se feito mil vezes essa pergunta, minha senhora, mas sempre a respeito do coração da mulher.

Christina tornou a sorrir.

— Sim, minha senhora, continuou Innocencio: é somente o coração da mulher que se reputa incomprehensivel; eu porém via em V. Ex. uma bella excepção a essa regra pouco lisonjeira para o sexo amavel.

— E mudou de opinião ?

— Não mudei ainda, mas é possivel que mude.

— E porque ?...

— V. Ex. o pergunta?... Se quer zombar de mim, é uma crueldade e um sacrilegio, porque atormentaria o amante e ridiculisaria o amor.

— Que amor! que amor é esse tão forte e irresistivel que pode dormir oito dias ?...

Innocencio sentio brilhar de novo a seus olhos a mais suave esperança: daquellas palavras transpirava uma queixa, e essa queixa era para elle a felicidade, a gloria.

O credulo mancebo não sabia que Victorino não apparecêra na chacara de Fagundes nas duas ultimas noites.

— Sentio então a minha ausência ? perguntou Innocencio.

— Senti e chorei: senti, porque a sua ausencia me parecia um desengano cruel; chorei, porque suppuz que ella podia ser aconselhada por um resentimento infundado, e, ousarei dizel-o, por um ciúme injusto.

— Christina!...

— O senhor é máo para mim ! disse a moça, levando o lenço aos olhos,

— Oh ! não chore ! não ! exclamou Innocencio : é verdade... o ciume torna-me injusto ; eu porém venho hoje merecer o meu perdão, pedindo-lhe licença para dar um passo decisivo, que deve ser o principio da nossa felicidade.

— E qual ?...

— Se o permitte, pedil-a-hei hoje em casamento a seus pais. Christina estremeceu e corou.

— Permitte-o ?...

A moça tinha os olhos no chão e meditava.

Innocencia tremia por sua vez.

— Permitte-o ?..

Escute, disse Christina commovida : o senhor vem me offerecer uma dita que desde muito desejo ; mas de hoje a tres dias eu faço annos, e ser-me-hía ainda mais agradável que o seu pedido fosse feito no meio da festa do meu anniversario natalicio :concorda ?.,.

— Oh ! Christina ! a felicidade não se adia aproveita-se no mesmo instante em que se mostra.

— Nega-me isso ?... Talvez seja um capricho, mas eu lh'o peço.

— Pois bem : de hoje a tres dias virei pedir a sua mão a seus pais.

(continua...)

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